{"id":365630,"date":"2025-09-28T00:47:55","date_gmt":"2025-09-28T03:47:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=365630"},"modified":"2025-09-28T08:50:13","modified_gmt":"2025-09-28T11:50:13","slug":"pesquisa-analisa-efeitos-do-combate-quimico-a-incendios-florestais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pesquisa-analisa-efeitos-do-combate-quimico-a-incendios-florestais\/","title":{"rendered":"Pesquisa analisa efeitos do combate qu\u00edmico a inc\u00eandios florestais"},"content":{"rendered":"<p>Em um cen\u00e1rio de queimadas cada vez mais longas e severas, o Projeto Prometeu DF re\u00fane ci\u00eancia, tecnologia e opera\u00e7\u00e3o em campo para responder a uma quest\u00e3o central: quando (e como) o uso de retardantes qu\u00edmicos faz sentido no combate a inc\u00eandios florestais \u2014 e quais impactos essa escolha traz ao ambiente. A iniciativa \u00e9 coordenada pelo professor Carlos Henke de Oliveira, do departamento de Ecologia da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), com apoio da Funda\u00e7\u00e3o de Apoio \u00e0 Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), por meio do edital Demanda Espont\u00e2nea (2021).<\/p>\n<p>Retardantes qu\u00edmicos de chamas s\u00e3o produtos adicionados \u00e0 \u00e1gua para aumentar a efici\u00eancia no combate ao fogo. Eles reduzem a propaga\u00e7\u00e3o ou a intensidade das chamas, funcionando como aliados de brigadistas e bombeiros \u2014 mas tamb\u00e9m trazem potenciais impactos ambientais que precisam ser monitorados.<\/p>\n<p>Henke \u00e9 bi\u00f3logo formado pela Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar), onde concluiu mestrado e doutorado em Ecologia. A trajet\u00f3ria interdisciplinar dele combina ecologia de paisagens, meteorologia aplicada e desenvolvimento tecnol\u00f3gico, incluindo experi\u00eancias com fotografia a\u00e9rea, eletr\u00f4nica e at\u00e9 forma\u00e7\u00e3o como piloto de avi\u00e3o. Esse mosaico de saberes, amadurecido desde os anos 1990, orienta hoje uma vis\u00e3o pr\u00e1tica: inc\u00eandios s\u00e3o fen\u00f4menos complexos que exigem leitura integrada da paisagem, do clima, da tecnologia e da opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O nome do projeto, Prometeu DF, foi inspirado no tit\u00e3 da mitologia grega que roubou o fogo dos deuses para entreg\u00e1-lo \u00e0 humanidade. No projeto, o fogo simboliza o conhecimento aplicado: a pesquisa que nasce na universidade e se transforma em ferramenta pr\u00e1tica para quem enfrenta os inc\u00eandios diariamente. \u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a universidade que ensina; ela tamb\u00e9m aprende com a experi\u00eancia de brigadistas, bombeiros e institui\u00e7\u00f5es ambientais\u201d, explica Henke.<\/p>\n<p>O projeto conta com a colabora\u00e7\u00e3o do Corpo de Bombeiros Militar do DF (CBMDF), do Ibama\/Prevfogo, do ICMBio, da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) e da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), integrando pesquisa e pr\u00e1tica de campo.<\/p>\n<p><strong>Tecnologias e experimentos<\/strong><br \/>\nO Prometeu DF desenvolveu sistemas embarcados \u2014 dispositivos eletr\u00f4nicos compactos que funcionam como \u201cmini-laborat\u00f3rios port\u00e1teis\u201d, acoplados a drones, aeronaves ou equipamentos de brigadistas. Eles registram dados a cada dois segundos, como temperatura, poluentes, imagens termais e condi\u00e7\u00f5es de opera\u00e7\u00e3o, revelando detalhes invis\u00edveis ao olho humano.<\/p>\n<p>As principais fam\u00edlias s\u00e3o: Prometeu (acoplada a drones, mede temperaturas da atmosfera e do solo, sobrevoando as chamas em coordena\u00e7\u00e3o com aeronaves de combate); Saphira (seis dispositivos distintos, para aeronaves ou uso por pesquisadores em solo, coletando gases, par\u00e2metros meteorol\u00f3gicos e imagens infravermelhas) e Ob\u00e1 (acoplada a bombas costais, registra condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas e mapeia com precis\u00e3o o lan\u00e7amento de \u00e1gua ou retardantes durante o combate).<\/p>\n<p>Outro destaque \u00e9 a mesa de combust\u00e3o Os\u00edris, uma c\u00e2mara de grandes dimens\u00f5es que simula queimadas lado a lado: um setor com combust\u00edvel puro e outro tratado com retardantes. Com c\u00e2meras termais e sensores de peso, permite rodar v\u00e1rias queimas por dia, descartando rapidamente produtos ineficazes e economizando tempo, recursos e riscos em campo.<\/p>\n<p>Os experimentos se distribuem em tr\u00eas frentes: combate indireto (aplica retardante com 24h de anteced\u00eancia, isolando o efeito qu\u00edmico), combate direto terrestre (compara, em linhas de fogo id\u00eanticas, retardante e \u00e1gua, registradas por drones) e combate a\u00e9reo (testes com aeronaves do CBMDF, como o modelo AT802F, equipadas com telemetria e c\u00e2meras para medir precis\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e efeito sobre as chamas).<\/p>\n<p><strong>Seguran\u00e7a ambiental<\/strong><br \/>\nA efetividade dos retardantes \u00e9 sempre avaliada por compara\u00e7\u00e3o. No combate direto, por exemplo, a \u00e1gua j\u00e1 \u00e9 um excelente retardante f\u00edsico, exigindo desenhos experimentais rigorosos para medir se o produto qu\u00edmico realmente traz ganhos.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 seguran\u00e7a ambiental, a constata\u00e7\u00e3o \u00e9 clara: produtos mais eficazes tendem a ser mais impactantes, pois exigem maior carga qu\u00edmica. Entre os efeitos comuns est\u00e3o a morte de herb\u00e1ceas e arbustivas e mudan\u00e7as na din\u00e2mica da vegeta\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes favorecendo esp\u00e9cies ex\u00f3ticas. \u201cO impacto ambiental do retardante \u00e9 inevit\u00e1vel. Ele pode ficar restrito a uma escala local, mas sua magnitude \u00e9 alta e precisa ser considerada\u201d, ressalta Henke.<\/p>\n<p>Como diretriz, o Prometeu DF recomenda evitar o uso em \u00e1reas sens\u00edveis ou com recursos ecol\u00f3gicos raros \u2014 e, se inevit\u00e1vel, exigir monitoramento e mitiga\u00e7\u00e3o. Em \u00e1reas de matriz produtiva (agricultura, silvicultura, pastagens ex\u00f3ticas, bordas ruderais), o uso pode ser considerado com crit\u00e9rios claros e registro. J\u00e1 pr\u00f3ximo a corpos d\u2019\u00e1gua, os lan\u00e7amentos devem ser proibidos, com rastreabilidade para prevenir falhas.<\/p>\n<p><strong>Impacto cient\u00edfico<\/strong><br \/>\nPara transformar a experi\u00eancia pr\u00e1tica em aprendizado, o Prometeu desenvolveu um protocolo de registro do uso de retardantes, reunindo dados sobre seguran\u00e7a, desempenho das equipes, aeronaves e efetividade. A ideia \u00e9 acumular evid\u00eancias e permitir que ag\u00eancias como o Ibama avaliem avan\u00e7os ou falhas em opera\u00e7\u00f5es passadas. \u201cA aus\u00eancia de registros compromete o aprendizado coletivo\u201d, refor\u00e7a Henke.<\/p>\n<p>O Distrito Federal desponta como um \u201claborat\u00f3rio vivo\u201d nesse esfor\u00e7o. A regi\u00e3o disp\u00f5e do avi\u00e3o AT802F, capaz de lan\u00e7amentos localizados e precisos \u2014 mas, sozinho, ele n\u00e3o resolve. \u201cSe a frente de fogo sofre redu\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 combatida por equipes terrestres, o problema volta, \u00e0s vezes pior\u201d, alerta Henke. Por isso, a integra\u00e7\u00e3o entre brigadas e opera\u00e7\u00e3o a\u00e9rea \u00e9 essencial.<\/p>\n<p>O diferencial do Prometeu \u00e9 analisar efici\u00eancia e impacto ambiental simultaneamente, superando posi\u00e7\u00f5es extremas. \u201cSe n\u00e3o fizermos isso, ca\u00edmos num cabo de guerra entre quem considera o retardante a solu\u00e7\u00e3o definitiva e quem o rejeita de forma absoluta. Nenhuma dessas vis\u00f5es condiz com a realidade dos combatentes, com o or\u00e7amento p\u00fablico ou com a base cient\u00edfica dispon\u00edvel\u201d, afirma Henke.<\/p>\n<p>As decis\u00f5es tamb\u00e9m devem variar conforme o bioma: no Cerrado, o uso pode ser autorizado sob regras claras; em v\u00e1rzeas, veredas e no Pantanal, deve ser proibido; e, na Amaz\u00f4nia, ainda exige respostas a quest\u00f5es preliminares. \u201cO fogo pode at\u00e9 ser extinto, mas o problema n\u00e3o acaba ali: pode se tornar ecol\u00f3gico, social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico ao mesmo tempo\u201d, completa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos artigos cient\u00edficos, o projeto investe em document\u00e1rios para ampliar o alcance social. O filme &#8220;Inc\u00eandios, polui\u00e7\u00e3o e Ci\u00eancia Cidad\u00e3 no Distrito Federal&#8221;, sobre a qualidade do ar no DF, teve grande engajamento e inspirou cidad\u00e3os e institui\u00e7\u00f5es a criarem novas esta\u00e7\u00f5es de monitoramento.<\/p>\n<p><strong>Pr\u00f3ximos passos<\/strong><br \/>\nO projeto se diferencia por estudar o combate, e n\u00e3o apenas o fogo, utilizando instrumenta\u00e7\u00e3o de alta frequ\u00eancia e avaliando, em conjunto, efici\u00eancia e impacto ambiental<\/p>\n<p>Entre 2020 e 2022, a pandemia e a suspens\u00e3o de licen\u00e7as de queima atrasaram ensaios de campo. Em 2018, a primeira licen\u00e7a cient\u00edfica levou sete meses para ser emitida \u2014 demora que, por ser in\u00e9dita, abriu caminho para fluxos mais \u00e1geis nos anos seguintes.<\/p>\n<p>Essas experi\u00eancias refor\u00e7aram o car\u00e1ter inovador do Prometeu, que se diferencia por estudar o combate, e n\u00e3o apenas o fogo, utilizando instrumenta\u00e7\u00e3o de alta frequ\u00eancia e avaliando, em conjunto, efici\u00eancia e impacto ambiental.<\/p>\n<p>O projeto optou por n\u00e3o patentear os sistemas embarcados, priorizando a divulga\u00e7\u00e3o aberta de m\u00e9todos e achados. O objetivo \u00e9 consolidar uma base metodol\u00f3gica robusta que sustente a futura regulamenta\u00e7\u00e3o nacional sobre o uso de retardantes em inc\u00eandios florestais, diante das tecnologias atuais e das que ainda possam surgir.<\/p>\n<p><strong>Rede de parceiros<\/strong><br \/>\nA UnB lidera o Prometeu com participa\u00e7\u00e3o de alunos e pesquisadores de Biologia, Ci\u00eancias Ambientais e Engenharia Florestal, em colabora\u00e7\u00e3o com a UFMS, a UFPR, o Prevfogo\/Ibama e o ICMBio. Brigadistas atuaram em campo e no p\u00e1tio, como no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em 2020.<\/p>\n<p>A FAPDF tem sido decisiva desde 2016, quando apoiou a fase inicial do projeto, e novamente em 2021, pelo edital Demanda Espont\u00e2nea. Os recursos viabilizaram experimentos de campo e laborat\u00f3rio, a constru\u00e7\u00e3o de dispositivos eletr\u00f4nicos, an\u00e1lises qu\u00edmicas de solo e plantas e mapeamentos sistem\u00e1ticos com drones \u2014 al\u00e9m do acompanhamento de queimadas controladas e inc\u00eandios reais.<\/p>\n<p>Para o presidente da Funda\u00e7\u00e3o, Leonardo Reisman, a iniciativa exemplifica como a pesquisa aplicada transforma realidades: \u201cO Projeto Prometeu mostra como o conhecimento cient\u00edfico pode embasar decis\u00f5es estrat\u00e9gicas no combate a inc\u00eandios florestais. \u00c9 um exemplo de ci\u00eancia produzida no Distrito Federal dialogando diretamente com a sociedade e fortalecendo a preserva\u00e7\u00e3o da nossa biodiversidade.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um cen\u00e1rio de queimadas cada vez mais longas e severas, o Projeto Prometeu DF re\u00fane ci\u00eancia, tecnologia e opera\u00e7\u00e3o em campo para responder a uma quest\u00e3o central: quando (e como) o uso de retardantes qu\u00edmicos faz sentido no combate a inc\u00eandios florestais \u2014 e quais impactos essa escolha traz ao ambiente. 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