{"id":366011,"date":"2025-10-07T00:45:54","date_gmt":"2025-10-07T03:45:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=366011"},"modified":"2025-10-02T00:34:05","modified_gmt":"2025-10-02T03:34:05","slug":"vaga-lumes-alquimistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/vaga-lumes-alquimistas\/","title":{"rendered":"Vaga-lumes alquimistas"},"content":{"rendered":"<p>Era o m\u00eas de junho. Pela noite fria, o espocar dos roj\u00f5es e os muitos bal\u00f5es cintilando no c\u00e9u da cidadezinha. Era o tempo das festas dos santos padroeiros. O circo ia sendo armado com aquele ritual de engenharia mambembe. Montar e desmontar e depois montar de novo. Tantas vezes eu vivi que parecia sempre como a primeira vez.<\/p>\n<p>Circo armado, tudo preparado para a estr\u00e9ia triunfal. Aquela seria a noite de boas vindas \u00e0s autoridades da cidade. Creio que est\u00e1vamos em Dracena, Alta Paulista do Estado de S\u00e3o Paulo, no come\u00e7o dos anos 60. O pai fazia as honras da companhia circense Motinha e Nh\u00e1 Fia empunhando o viol\u00e3o. Em volta da fogueira, a grande roda de pessoas acomodadas em cadeiras e as crian\u00e7as sentadas no ch\u00e3o. Era o espet\u00e1culo fora do espet\u00e1culo, pelo lado de dentro. O palco, o fundo do terreno do circo com nossas casas ambulantes fechando um semic\u00edrculo. O terreno fora cedido pela par\u00f3quia dos frades Capuchinhos.<\/p>\n<p>Hoje posso afirmar que o meu primeiro contato pr\u00e1tico com o divino, o sagrado, a magia -ou algum sentimento mais pr\u00f3ximo dessas categoriza\u00e7\u00f5es sobre-humanas-, ocorreria naquela noite. Ao longo da vida, nosso pai jamais deixou de contar e (re)contar a est\u00f3ria do \u00fanico padre honesto, alegre e verdadeiramente humilde que conhecera: o italian\u00edssimo e aut\u00eantico padre\/artista Frei Fernando.<\/p>\n<p>O pai convidou delicadamente nossa m\u00e3e para o in\u00edcio da cantoria; ali, a dupla Motinha e Nh\u00e1 Fia j\u00e1 dava o ar da gra\u00e7a, antecipando assim uma rela\u00e7\u00e3o de hospitaleira cumplicidade antes mesmo da estr\u00e9ia oficial. E Nh\u00e1 Fia foi logo improvisando:<\/p>\n<p>\u2014 Caros amigos, agradecemos a presen\u00e7a de todos ap\u00f3s o dia duro de trabalho e oferecemos o que sabemos melhor fazer; que a noite fria n\u00e3o congele os nossos cora\u00e7\u00f5es, caso contr\u00e1rio, a fogueira e o garraf\u00e3o de vinho est\u00e3o a\u00ed para que a gente se lembre que tudo come\u00e7a por um bom come\u00e7o!<\/p>\n<p>Como sempre, nos momentos decisivos de nossas vidas, era nossa m\u00e3e Nair\/Nh\u00e1 Fia quem tomava a frente das decis\u00f5es e da palavra. Durante toda a estrada foi assim: o pai, o mano, eu e o Divino, quatro homens apaixonadamente dependentes daquela &#8220;imensa mulher pequenina&#8221; \u2013exatos um metro meio, da botininha \u00e0 ponta do la\u00e7o de fita tamb\u00e9m vermelha, no alto de sua cabe\u00e7a- mas de coragem, sabedoria e cora\u00e7\u00e3o infinitos.<\/p>\n<p>E seguiram-se polcas, mazurcas, desafios, improvisos, xotes e muitas, muitas toadas sertanejas -as que eu mais gostava. N\u00e3o tardou para que o frei capuchinho gordo, com barbas em cachos, bochechas avermelhadas, vestindo uma surrada batina marrom e cal\u00e7ando sand\u00e1lias de fransciscano, surpreendesse \u00e0 todos da companhia soltando a poderosa voz com forte sotaque italiano enquanto esgrimava, com denotado saber\/prazer, o abrir e fechar de fole da sanfona vermelha feito suas bochechas. Cabe aqui lembrar que o espanto inicial ficou restrito aos integrantes da companhia circense, pois o delegado, o prefeito &#8211; um ex-major da reserva- e o vener\u00e1vel representante da Loja Ma\u00e7\u00f4nica local, que estavam presentes &#8220;fiscalizando&#8221; aquele bando de poss\u00edveis ciganos comunistas, j\u00e1 sabiam dos rompantes e dos antecedentes art\u00edsticos do bom Fernando.<\/p>\n<p>Ao final da can\u00e7\u00e3o -acho que Sole mio-, a plat\u00e9ia n\u00e3o economizou nos aplausos. E foi ent\u00e3o que teve in\u00edcio aquilo que aqui chamei de divino ou sagrado ou mesmo m\u00e1gico. O pai permanecia calado, sorrindo e a tudo observando, enquanto a voz forte e grossa de Nha&#8217;Fia saudava o frei sanfoneiro e tenor:<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! Bravo! Salim, Neto, Norico, mandem o Divino soltar mais roj\u00f5es para saudar o talento e a alegria deste amigo Frei, Frei&#8230;.ah! Fernando! Frei Fernando, pois \u00e9 uma honra receber o senhor no nosso humilde por\u00e9m descente circo; e desde j\u00e1, em nome de toda a companhia, convidamos o amigo frei para participar dos nossos espet\u00e1culos, na terceira parte, que \u00e9 quando acontece o Show Radiof\u00f4nico, pois o senhor canta e encanta com a voz, a alma e a humildade do Deus de todos n\u00f3s, aquele que est\u00e1 presente em todos os momentos e nos cora\u00e7\u00f5es sinceros e humildes!<\/p>\n<p>Era a magia da pol\u00edtica das circunst\u00e2ncias em puro estado de manifesta\u00e7\u00e3o. Naquela fria noite de junho o sagrado, o divino e o m\u00e1gico estavam apenas come\u00e7ando para mim. E eu nem sabia dos mitos e de Dion\u00edsio.<\/p>\n<p>O frei Fernando agradeceu as palavras, dando boas-vindas ao Circo Teatro Motinha e Nha&#8217;Fia. E saudou a chegada do circo, olhando diretamente e intencionalmente na dire\u00e7\u00e3o onde estavam sentados -at\u00e9 ent\u00e3o imp\u00e1vidos, soturnos, calados e colossos- o delegado, o prefeito e o vener\u00e1vel ma\u00e7om que, a partir de ent\u00e3o, como que por coincid\u00eancia, passaram a sorrir, a cantar e a aplaudir as interpreta\u00e7\u00f5es do elenco do circo no show improvisado, agora fortalecido por seu mais novo integrante: o sanfoneiro tenor da Ordem dos Capuchinhos Franciscanos.<\/p>\n<p>Hoje j\u00e1 n\u00e3o tenho d\u00favidas de que tanto a Nair\/Nha&#8217;Fia quanto o M\u00e1rio\/Motinha, tinham perfeita no\u00e7\u00e3o dos jogos de poder ocultos nas rela\u00e7\u00f5es entre o circo teatro e as chamadas for\u00e7as vivas das cidades por onde passavam; as diferentes representa\u00e7\u00f5es que poderiam ser estabelecidas e as diferentes possibilidades de arranjos de conveni\u00eancias resultantes dessas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Ao longo de minha vida, encontrei in\u00fameros ensaios liter\u00e1rios e cita\u00e7\u00f5es na cultura universal destacando a figura do errante. Tamb\u00e9m denominado andarilho, b\u00e1rbaro, mambembe, errante, vagabundo, circense ou simplesmente n\u00f4made, esses seres sempre provocam desconfian\u00e7a e fasc\u00ednio por onde passam. E continuam provocando. S\u00e3o vetores fundamentais na constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da humanidade; esp\u00e9cies de circuladores sociais. Vivendo o paradoxo do estrangeirismo, seguem em frente, libertos e libert\u00e1rios, ora com desconfian\u00e7as ora com hospitalidade -como o caso do frei Fernando em Dracena. Mas seguem sempre.<\/p>\n<p>Claro est\u00e1 que nossos pais poderiam ter logrado longas carreiras como pol\u00edticos profissionais; preferiam um outro picadeiro, o do circo, o da vida que, convenhamos, \u00e9 bem mais humano, honesto e real que o picadeiro da pol\u00edtica oficial de poder, infestado de pilantras e pulhas de quinta categoria.<\/p>\n<p>Mas a magia n\u00e3o parou por a\u00ed. N\u00e3o era estranho para mim. Apesar de viver ainda o auge dos cinco, seis anos de idade, eu j\u00e1 convivera com a tribo do circo outras hist\u00f3rias e situa\u00e7\u00f5es onde tudo parecia se transformar, se iluminar, como que por enquanto. A diferen\u00e7a era que, desta vez, eu estava refletindo sobre os fatos ao mesmo tempo em que eles estavam acontecendo. Talvez, hoje, narrando os fatos, eu modifique uma coisinha aqui, outra ali. Afinal, quem conta um conto&#8230;<\/p>\n<p>Ocorre que s\u00e3o impress\u00f5es da inf\u00e2ncia, de um tempo fragmentado em quadros\/cenas, como fotogramas de um filme que eu n\u00e3o escrevi, n\u00e3o atuei e nem dirigi mas que teima em passar em minhas lembran\u00e7as. Poder escrever sobre ele \u00e9 captur\u00e1-lo, aprision\u00e1-lo e torn\u00e1-lo eterno. Como vaga-lumes mem\u00f3rias que sustentam a base do espelho onde se forma a mem\u00f3ria do que sou e do que as imagens refletidas significam em rela\u00e7\u00e3o ao muito do que os outros foram para mim. De certo mesmo, \u00e9 que naquela noite algo de m\u00e1gico, de m\u00edtico ocorreu&#8230; ah! ocorreu.<\/p>\n<p>J\u00e1 ia alta a madrugada e, do que me lembro ter visto e ouvido da janela do nosso \u00f4nibus-casa, destacam-se os acordes da sanfona do frei Fernando, a polifonia do coro de vozes entoando uma tradicional m\u00fasica de festas juninas&#8230; S\u00e3o Jo\u00e3o, S\u00e3o Jo\u00e3o, acende a fogueira do meu cora\u00e7\u00e3o!&#8230; enquanto uma quadrilha de epil\u00e9ticos dan\u00e7arinos serpenteava pelo quintal do circo, puxada pelo delegado e o prefeito, fielmente abra\u00e7ados a seus generosos garraf\u00f5es de vinho tinto doce Rouxinol (arrrrrhhh!). Houve tamb\u00e9m a demonstra\u00e7\u00e3o de paranormalidade e dom\u00ednio da mente superior desastrosamente impetrada pelo tresloucado vener\u00e1vel ma\u00e7om que, sem f\u00f4lego, insistia em caminhar de p\u00e9s descal\u00e7os por sobre as brasas ainda vivas da fogueira.<\/p>\n<p>O Divino, nosso secret\u00e1rio da fam\u00edlia, entre um copo e outro de quent\u00e3o, mandava aos ares estrondosos roj\u00f5es-de- vara. E a noite prosseguiu assim, m\u00e1gica.<\/p>\n<p>Da janela da casa-\u00f4nibus eu, com meus olhos arregalados de menino, teimava em ficar acordado contando estrelas e bal\u00f5es vagalumeando pelo iluminado c\u00e9u da noite junina. Um menino sonhando com o futuro num fundo de terreno de um circo rodando pelo interior do Brasil.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista e professor\/pesquisador acad\u00eamico. Nasceu num pequeno circo teatro no interior de S\u00e3o Paulo e nunca mais parou de viajar. Esta cr\u00f4nica integra o livro ainda in\u00e9dito &#8220;C\u00e9u de Vaga-lumes: Andan\u00e7as e Lembran\u00e7as de Motinha e Nh\u00e1 Fia e o Circo Imagin\u00e1rio&#8221;. Vive na Guarda do Emba\u00fa, pequena vila pesqueira no litoral Sul de SC.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era o m\u00eas de junho. Pela noite fria, o espocar dos roj\u00f5es e os muitos bal\u00f5es cintilando no c\u00e9u da cidadezinha. Era o tempo das festas dos santos padroeiros. O circo ia sendo armado com aquele ritual de engenharia mambembe. Montar e desmontar e depois montar de novo. 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