{"id":366115,"date":"2025-10-04T00:30:57","date_gmt":"2025-10-04T03:30:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=366115"},"modified":"2025-10-02T09:56:36","modified_gmt":"2025-10-02T12:56:36","slug":"lorena-entrou-por-ultimo-fechou-a-porta-e-aguardou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lorena-entrou-por-ultimo-fechou-a-porta-e-aguardou\/","title":{"rendered":"Lorena entrou por \u00faltimo, fechou a porta e aguardou"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7ou com uma brincadeira.<\/p>\n<p>&#8211; Lorena, pode vir na minha sala, por favor?<\/p>\n<p>O convite\/ordem viera de Ednardo, diretor de reda\u00e7\u00e3o em uma editora carioca. Ele seguiu para a sala sem olhar para tr\u00e1s, mas conhecia seu gado, podia ver mentalmente a careta de Lorena, de \u201cPutz, t\u00f4 com algum problema?\u201d, logo substitu\u00edda por um sorriso triunfante, de \u201cN\u00e3o, acho que vem promo\u00e7\u00e3o por ai\u201d. Ele tamb\u00e9m sorriu, lembrando de uma passagem de Grande Sert\u00e3o: Veredas, na qual um personagem diz algo como na raiz de todos os males, est\u00e1 um desmedido amor a si mesmo. \u201cEsse \u00e9 o problema de Lorena, boa redatora, mas se acha o \u00faltimo biscoito do pacote\u201d, pensou.<\/p>\n<p>No caminho, parou na salinha de Soraya, vice-diretora de reda\u00e7\u00e3o. Era mais que isso, era sua melhor amiga e sua c\u00famplice. Convocou-a a participar da reuni\u00e3o e acrescentou em voz baixa:<\/p>\n<p>&#8211; Esta noite se improvisa.<\/p>\n<p>Foi o suficiente.<\/p>\n<p>Lorena entrou por \u00faltimo, fechou a porta e aguardou.<\/p>\n<p>&#8211; Lorena, aprecio seu trabalho, vou lhe contar como as coisas funcionam realmente por aqui \u2013 improvisou Ednardo. \u2013 Uma vez, por m\u00eas, de noite&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Noite de lua cheia \u2013 complementou Soraya, entrando na brincadeira.<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; de lua cheia \u2013 retomou Ednardo \u2013, eu e Soraya vestimos longas capas escuras, colocamos m\u00e1scaras no rosto e seguimos at\u00e9 um cemit\u00e9rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ou a uma igreja abandonada \u2013 complementou a c\u00famplice. \u2013 \u00c9 importante que seja solo consagrado.<\/p>\n<p>&#8211; Consagrado \u2013 ele concordou. \u2013 Ali, em sil\u00eancio, colocamos os mantos e as m\u00e1scaras e abrimos uma urna contendo os nomes de todos os membros da reda\u00e7\u00e3o. N\u00f3s nos alternamos na leitura de cada nome, e movemos o polegar para cima ou para baixo. Dois polegares para cima, possibilidade de promo\u00e7\u00e3o; em dire\u00e7\u00f5es opostas, nada acontece, um neutraliza o outro. Mas dois polegares para baixo&#8230; \u2013 e sacudiu a cabe\u00e7a, como se estivesse pesaroso.<\/p>\n<p>&#8211; Demiss\u00e3o sum\u00e1ria \u2013 interveio a vice-diretora. \u2013 Ou muito pior \u2013 acrescentou com voz l\u00fagubre.<\/p>\n<p>Lorena tremia que nem vara verde. Nem lembrou que os dois nunca haviam demitido funcion\u00e1rio algum. E n\u00e3o ousou perguntar se j\u00e1 havia sido avaliada. Ou o que significava o \u201cmuito pior\u201d de Soraya.<\/p>\n<p>&#8211; Bom, \u00e9 isso a\u00ed \u2013 disse Ednardo, concluindo a reuni\u00e3o. \u2013 N\u00e3o comente com ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Ficou um \u201cou ent\u00e3o&#8230;\u201d soando silenciosamente na sala. Todos o ouviram, em especial a pobre redatora, que deixou o recinto, meio tr\u00f4pega.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma anta convencida, metida a besta \u2013 resumiu Soraya.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 sim \u2013 concordou seu c\u00famplice. \u2013 \u00c9 o que a torna a v\u00edtima perfeita. Precisamos dessas brincadeiras de improviso, do contr\u00e1rio n\u00e3o aguentar\u00edamos esse trampo.<\/p>\n<p>O tempo passou, Ednardo foi demitido, Soraya, bem mais jovem, arranjou emprego em outra editora. Oito anos depois, ela recebeu um pacote em sua casa, na serra fluminense. Abriu-o e viu uma capa negra e uma m\u00e1scara de lobo. Havia tamb\u00e9m um bilhete sem assinatura: \u201cMinha casa, s\u00e1bado, \u00e0s 23 horas\u201d. Ela soube na hora de quem era.<\/p>\n<p>Na hora marcada, a c\u00famplice chegou \u00e0 casa de Ednardo. Ele abriu a porta em sil\u00eancio, mostrou sua capa preta, sua m\u00e1scara de tigre, e s\u00f3 ent\u00e3o falou:<\/p>\n<p>&#8211; Siga-me no seu carro.<\/p>\n<p>Era noite de lua cheia, mas n\u00e3o se dirigiram a um cemit\u00e9rio, nem a uma igreja abandonada, e sim a um lix\u00e3o deserto. Ele envolveu-se no manto e colocou a m\u00e1scara, ela fez o mesmo. Em sil\u00eancio, ele entregou-lhe um punhal. Depois, abriu o porta-malas e tirou de l\u00e1 a v\u00edtima \u2013 n\u00e3o a imbecil da Lorena, mas um garot\u00e3o sarado, vestido com uma camisa da sele\u00e7\u00e3o canarinho.<\/p>\n<p>&#8211; Eu o vi ateando fogo em um sem-teto e rindo que nem um dem\u00f4nio.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve polegares apontados para baixo, n\u00e3o foram necess\u00e1rios. Com um rosnado, os dois c\u00famplices cravaram os punhais no peito do carinha. Depois retiraram as armas \u2013 seriam \u00fateis no futuro \u2013, deixaram o cad\u00e1ver ali, sobre o monturo de lixo, e foram embora sem se despedir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7ou com uma brincadeira. &#8211; Lorena, pode vir na minha sala, por favor? O convite\/ordem viera de Ednardo, diretor de reda\u00e7\u00e3o em uma editora carioca. 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