{"id":366136,"date":"2025-10-06T00:45:19","date_gmt":"2025-10-06T03:45:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=366136"},"modified":"2025-10-02T22:20:56","modified_gmt":"2025-10-03T01:20:56","slug":"paranaense-de-origem-alema-papagueava-todos-os-postulados-do-reacionarismo-raiz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/paranaense-de-origem-alema-papagueava-todos-os-postulados-do-reacionarismo-raiz\/","title":{"rendered":"Paranaense de origem alem\u00e3, papagueava todos os postulados do reacionarismo raiz"},"content":{"rendered":"<p>Otto era um direit\u00e3o cascudo. Paranaense de origem alem\u00e3, papagueava todos os postulados do reacionarismo raiz. Estava convencido de que a vacina introduzia no vivente chinezinhos min\u00fasculos que controlavam sua cabe\u00e7a; desconfiava que a Terra era plana; e tinha certeza de que o mito era o messias, enviado para salvar o Brasil e o mundo do comunismo. S\u00f3 n\u00e3o era muito conservador nos costumes \u2013 tamb\u00e9m, n\u00e3o podia. Aos 23 anos, solteiro, morava com os pais, n\u00e3o tinha uma esposa recatada e do lar, nem crian\u00e7as para proteger da ideologia de g\u00eanero, nem bebezinhos cujos l\u00e1bios inocentes deviam ser resguardados da mamadeira de piroca; n\u00e3o tinha nem namorada e sa\u00eda na m\u00e3o todo santo dia.<\/p>\n<p>O que singularizava Otto em meio ao gado mitista era o seu militarismo. Nas manifesta\u00e7\u00f5es de 7 de setembro, do golpe que deu chabu, comparecera de terno verde, igualzinho ao do veio da Havan, portando um cartaz manuscrito que exigia: \u201cVamos invadir a Argentina, a Bol\u00edvia, a Venezuela e Cuba e esmagar o comunismo\u201d. Era demais, at\u00e9 para os rea\u00e7as mais doidinhos; acharam que ele era um provocador esquerdista e deram no jovem da Havan uma surra de criar bicho. Quando recuperou os sentidos, rodo mo\u00eddo, Otto concluiu, \u201cFui v\u00edtima de comunas infiltrados; preciso denunciar esse risco a meus par\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>Na cabecinha de Otto havia espa\u00e7o para dois her\u00f3is: o homem, o mito, o salvador do Brasil, e seu bisav\u00f4, membro da SS nazista, que morrera em 1943, na luta contra o Ex\u00e9rcito Vermelho. O jovem herdara dele o fasc\u00ednio pelas armas, a cren\u00e7a de que s\u00f3 uma ditadura podia assegurar a ordem \u2013 e um antissemitismo raivoso. Como s\u00e3o poucos os judeus no Brasil, tamb\u00e9m passou a ter um forte ran\u00e7o de negros, nordestinos, homossexuais, o time inteiro. No fundo, desejava um Brasil ariano, para descendentes de alem\u00e3es que nem ele (s\u00f3 que, pra azar seu, tinha cabelos e olhos castanhos).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o veio o ataque russo \u00e0 Ucr\u00e2nia. Otto descolou uma grana com os pa\u00eds, dizendo que era para alugar e equipar um apartamento (aliviados por o filh\u00e3o finalmente sair do ninho, atenderam ao pedido sem muitas perguntas), e voou para a Pol\u00f4nia. Tr\u00eas dias depois, estava na Ucr\u00e2nia, numa instala\u00e7\u00e3o perto da fronteira polonesa, destinada aos volunt\u00e1rios estrangeiros e mercen\u00e1rios que vinham combater os russos. O ariano brazuca n\u00e3o falava uma palavra de ucraniano, russo, polon\u00eas ou ingl\u00eas, s\u00f3 portugu\u00eas e umas coisinhas em alem\u00e3o de crian\u00e7a, do tipo \u201cNen\u00e9m qu\u00e9 pap\u00e1\u201d ou \u201cOu Nen\u00e9m fez caca\u201d, mas sorria e fazia arminhas pra todo mundo. Os ucranianos, que enfrentavam armas de verdade, olhavam-no com desprezo; um deles chegou a cuspir em sua dire\u00e7\u00e3o. Imperturb\u00e1vel, o cascud\u00e3o antissemita pensou. \u201cDeve ser judeu, eles est\u00e3o por toda parte\u201d.<\/p>\n<p>No interrogat\u00f3rio com o comandante ucraniano, recorrendo \u00e0 m\u00edmica. Otto conseguiu informar que n\u00e3o tinha nenhuma experi\u00eancia militar, nunca havia disparado uma arma na vida, mas estava disposto a morrer pela Ucr\u00e2nia. O oficial olhou-o em sil\u00eancio por algum tempo, depois decretou:<\/p>\n<p>&#8211; Destacamento Especial Volod.<\/p>\n<p>A noite j\u00e1 havia ca\u00eddo quando Otto, depois de se perder algumas vezes, chegou ao alojamento Volod. Foi recebido por um homem alto e p\u00e1lido, todo de preto: botas pretas, cal\u00e7as pretas, casaco de couro preto. Parecia imune ao frio ucraniano, que fazia Otto tremer.<\/p>\n<p>O ariano de araque disse o nome, apontou para o peito e falou \u2013 Brasileiro \u2013, depois apontou para a boca e disse \u2013 Portugu\u00eas \u2013, dando em seguida um sorrisinho de desculpas. Mas teve uma boa surpresa. O homem de preto respondeu-lhe em portugu\u00eas casti\u00e7o, com um sotaque inindentific\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8211; Portugu\u00eas est\u00e1 bem. Eu c\u00e1 falo todas as l\u00ednguas da Europa. Morei em Portugal faz muito, muito tempo \u2013 e abriu um leve sorriso monalisesco, cheio de mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>Animado, Otto perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Como voc\u00eas combatem?<\/p>\n<p>&#8211; O Destacamento Volod sai \u00e0 noite. Para ca\u00e7ar.<\/p>\n<p>Otto imaginou-se rastejando, todo de preto e empunhando uma faca, at\u00e9 uma sentinela russa, para cortar-lhe a garganta. Uau! E retomou um tema familiar.<\/p>\n<p>&#8211; Soube que h\u00e1 muitos judeus entre os russos, ser\u00e1 um prazer acabar com esses subumanos.<\/p>\n<p>O homem de preto ficou s\u00e9rio e balan\u00e7ou a cabe\u00e7a em nega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o somos antissemitas. Os homens s\u00e3o todos iguais. Todos feitos de carne, ossos e sangue.<\/p>\n<p>Deu uma guinada na conversa.<\/p>\n<p>&#8211; O comandante ucraniano informou-me que n\u00e3o tens a menor experi\u00eancia militar. Ainda assim, ser\u00e1s \u00fatil ao Destacamento Volod.<\/p>\n<p>Nova guinada.<\/p>\n<p>&#8211; O destacamento tem o meu nome, Volod. Conheces a palavra?<\/p>\n<p>Chateado por seu antissemitismo ter sido sumariamente descartado, Otto fez que n\u00e3o, em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez conhe\u00e7as as formas russas e romenas da palavra? Vlad? O presidente russo chama-se Vladimir, o ucraniano, Volodomir. \u00c9 o mesmo nome. Mas uso Volod apenas aqui, em outros pa\u00edses sou conhecido por Vlad. \u00c9 o nome de um parente romeno. J\u00e1 ouviu falar em Vlad Tepes, tamb\u00e9m conhecido como Vlad Dracul?<\/p>\n<p>Otto negou, em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9, fa\u00e7o quest\u00e3o de mencionar esse nome como uma esp\u00e9cie de aviso do que vem por a\u00ed. Alguns entendem e tentam fugir, mas nunca conseguem. Outros ficam a\u00ed, me encarando sem entender nada, que nem tu.<\/p>\n<p>Mais uma guinada na conversa.<\/p>\n<p>&#8211; Sinto muito, n\u00e3o vais lutar contra judeus russos ou crist\u00e3os russos. Mas vai-nos servir. Nem sempre sa\u00edmos para ca\u00e7ar, mas toda noite temos de nos alimentar. Para proteger seus homens, o oficial ucraniano enviou-te. Um lanchinho. Uma fruta ex\u00f3tica, tropical.<\/p>\n<p>Assoviou e os quatro homens do Destacamento Volod \u2013 todos p\u00e1lidos, todos vestidos de preto \u2013 reuniram-se em torno de Otto. O chefe cravou os caninos em sua jugular.<\/p>\n<p>Dividido entre o pavor absoluto e a indigna\u00e7\u00e3o, Otto ainda pensou: \u201cAbsurdo, n\u00e3o sou ex\u00f3tico, tropical. Sou um ari&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Depois, mais nada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Otto era um direit\u00e3o cascudo. 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