{"id":366236,"date":"2025-10-05T01:15:16","date_gmt":"2025-10-05T04:15:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=366236"},"modified":"2025-10-03T14:03:36","modified_gmt":"2025-10-03T17:03:36","slug":"as-migalhas-do-poeta-a-escrita-como-caminho-de-volta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/as-migalhas-do-poeta-a-escrita-como-caminho-de-volta\/","title":{"rendered":"As Migalhas do Poeta: a escrita como caminho de volta"},"content":{"rendered":"<p>Nascido no Rio de Janeiro em 1986, Guilherme de Queiroz C. da Rocha carrega em sua trajet\u00f3ria a rara conflu\u00eancia de m\u00faltiplas voca\u00e7\u00f5es. Educado no tradicional Col\u00e9gio S\u00e3o Bento e formado em Direito pela UFRJ, em 2010, cedo encontrou no mundo jur\u00eddico um espa\u00e7o de rigor e disciplina. Advogado de carreira, hoje coordena uma equipe em empresa estatal, onde ingressou por concurso p\u00fablico, especializada em contratos administrativos. Mas n\u00e3o parou por a\u00ed: em 2022, graduou-se tamb\u00e9m em Psicologia, abrindo consult\u00f3rio cl\u00ednico e acrescentando uma nova dimens\u00e3o ao olhar que sempre cultivou sobre a condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Esse olhar, no entanto, j\u00e1 se adensava muito antes. Na adolesc\u00eancia, as leituras de M\u00e1rio Quintana, Manoel de Barros, Fernando Pessoa e Paulo Leminski o despertaram para a escrita criativa. Da\u00ed nasceram cursos, exerc\u00edcios, tentativas \u2014 at\u00e9 que, em 2024, a poesia enfim se cristalizou em seu primeiro livro, <em>Esta leitura \u00e9 gratuita<\/em> (Editora Patu\u00e1). Um t\u00edtulo provocativo para uma estreia que, na verdade, anuncia a generosidade de quem compartilha, em versos, fragmentos \u00edntimos de sua pr\u00f3pria jornada.<\/p>\n<p>A escrita, para ele, tornou-se ritual. No celular, o bloco de notas \u00e9 confidente discreto, guardando cada lampejo como quem recolhe orvalho antes de evaporar. Inspirado pela teoria dos mini h\u00e1bitos da psicologia comportamental, Guilherme imp\u00f4s a si mesmo uma disciplina simples e eficiente: escrever ao menos uma frase por dia. Esse gesto m\u00ednimo tornou-se divisor de \u00e1guas, um compromisso com a cria\u00e7\u00e3o, onde frases ef\u00eameras podiam se perder, mas, em outras vezes, florescer em poemas plenos de sentido. At\u00e9 que resolveu coloc\u00e1-los em livro.<\/p>\n<p>O processo de sele\u00e7\u00e3o, entretanto, exigiu rigor. N\u00e3o bastava reunir versos soltos; era preciso costurar um di\u00e1logo interno entre eles, dar-lhes coer\u00eancia, quase uma narrativa secreta. Para isso, contou com a cr\u00edtica sens\u00edvel do poeta Luca Brand\u00e3o e com a criteriosa revis\u00e3o de Val\u00e9ria Lopes, amiga dos tempos de faculdade de Psicologia. A escolha da editora foi mais um rito de passagem, superado com paci\u00eancia e persist\u00eancia, at\u00e9 que a obra finalmente encontrasse casa.<\/p>\n<p>Quando o livro veio \u00e0 luz, o feito foi mais que editorial: foi \u00edntimo, quase confessional. O poeta fala da publica\u00e7\u00e3o como ato de partilha radical, expor o inconsciente ao mundo sem esperar retorno, oferecer palavras tanto a conhecidos quanto a estranhos. Na sua pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o, trata-se de um gesto de amor: amor pr\u00f3prio, <em>amor fati<\/em>, e sobretudo um amor emp\u00e1tico, que ultrapassa fronteiras e acolhe no outro um reflexo de si mesmo.<\/p>\n<p>O produto da autodisciplina do poeta, t\u00e3o da natureza de sua personalidade, pode ser acompanhado em seu perfil no Instagram (@guiesuaspoesias), onde, ao lado de versos seus, tem a generosidade de divulgar o de outros poetas independentes de todo o Brasil, em diferentes estilos.<\/p>\n<p>\u201cCriar algo verdadeiro\u201d, ele explica, \u201c\u00e9 praticar a honestidade da express\u00e3o pessoal. Acredito nessa verdade que se derrama em letras: inspira\u00e7\u00e3o quase espiritual unida \u00e0 lapida\u00e7\u00e3o material.\u201d<\/p>\n<p>Esse mergulho na palavra n\u00e3o \u00e9 apenas est\u00e9tico; \u00e9 tamb\u00e9m existencial. Guilherme vive o presente com aten\u00e7\u00e3o plena, mas admite que a poesia \u00e9 atravessada pelo passado e pelo futuro. Entre lapsos de mem\u00f3ria, escreve tamb\u00e9m para preservar impress\u00f5es, como quem captura instant\u00e2neos de um mundo em movimento. Ao revisitar os textos, a vontade de mexer, aparar, corrigir \u00e9 constante. \u201c\u00c9 como se aquele poema j\u00e1 n\u00e3o coubesse na consci\u00eancia que tenho hoje\u201d, confessa.<\/p>\n<p>Longe de ser um defeito, esse descompasso \u00e9, para ele, a pr\u00f3pria prova da transforma\u00e7\u00e3o. O texto permanece como testemunho do caminho, como migalhas de p\u00e3o deixadas pelo percurso. \u201cSe um dia me perder\u201d, diz, \u201csaberei como voltar.\u201d<\/p>\n<p>Assim, sua poesia se afirma como duplo gesto: pr\u00e1tica de presen\u00e7a e fio condutor da mem\u00f3ria, preservando fragmentos que poderiam se dissolver no esquecimento, mas que, em versos, encontram a chance de permanecer.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/p>\n<p><strong>Cassiano Cond\u00e9, 82, ga\u00facho, deixou de teclar reportagens nas reda\u00e7\u00f5es por onde passou. Agora finca os p\u00e9s nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai p\u00e9rolas que se transformam em cr\u00f4nicas.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascido no Rio de Janeiro em 1986, Guilherme de Queiroz C. da Rocha carrega em sua trajet\u00f3ria a rara conflu\u00eancia de m\u00faltiplas voca\u00e7\u00f5es. 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