{"id":366299,"date":"2025-10-05T02:00:13","date_gmt":"2025-10-05T05:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=366299"},"modified":"2025-10-04T11:12:46","modified_gmt":"2025-10-04T14:12:46","slug":"oco-de-sentimentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/oco-de-sentimentos\/","title":{"rendered":"Oco de sentimentos"},"content":{"rendered":"<p>Quando voc\u00ea quer machucar um homem, voc\u00ea d\u00e1 um soco. Quando voc\u00ea quer ofender, voc\u00ea lhe mete um tapa na cara. D\u00f3i menos, mas machuca na alma. No entanto, ao que parece, o que arrebenta mesmo com a autoestima do sujeito \u00e9 a trai\u00e7\u00e3o, ainda mais naqueles t\u00e3o acostumados a configurar no polo ativo do adult\u00e9rio e, de repente, se percebem como o \u00faltimo a saber.<\/p>\n<p>Rog\u00e9rio, cuja embalagem enganava quase todas, nunca teve muito conte\u00fado. T\u00e1 bom! Mas quem nunca se encantou por aquele colorido papel de presente, ainda mais quando acompanhado de um belo la\u00e7o? Pois o gajo era exatamente isso. O problema era quando a azarada abria a caixa e, para seu espanto, s\u00f3 encontrava o vazio, repleto de ar, que lhe parecia faltar nos pulm\u00f5es.<\/p>\n<p>A despeito de tamanho desapontamento, convenhamos, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil abrir m\u00e3o de algo t\u00e3o prazeroso aos olhos. Por isso, a ofuscada pela luz do Rog\u00e9rio, n\u00e3o conseguia enxergar o \u00f3bvio, que era largar o osso e seguir em frente. Arlete, mulher de seus 35 anos, bem resolvida sob v\u00e1rios aspectos, levou um tempo para perceber que aquele gato era um mato sem cachorro. Todavia, quando a raz\u00e3o lhe chegou em uma cinzenta manh\u00e3 de julho, a mulher despertou.<\/p>\n<p>Arlete n\u00e3o fez alarde. Saiu de mansinho e, a partir daquele momento, n\u00e3o atendeu mais aos chamados do Rog\u00e9rio, que, a princ\u00edpio, at\u00e9 gostou. Afinal, aquela era a oportunidade para o homem sair \u00e0 ca\u00e7a e, a certeza estava ao seu lado, logo encontraria outra beldade para se satisfazer. E foi o que fez.<\/p>\n<p>Rog\u00e9rio se envolveu com L\u00facia, M\u00e1rcia, Rafaela, Lorena, Francisca, Leandra, Roberta&#8230; Ih, a lista era t\u00e3o extensa, que at\u00e9 o gal\u00e3 se confundia com aquele malabarismo para que uma n\u00e3o descobrisse a exist\u00eancia da outra. E tudo corria muito bem, at\u00e9 que o inesperado aconteceu. Quer dizer, inesperado para ele, j\u00e1 que, aos olhos da Arlete, era o inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o era poss\u00edvel! Como \u00e9 que \u00e9? Rog\u00e9rio n\u00e3o acreditava naquela cena, digamos, adocicada que nem quindim. Pois l\u00e1 estava a Arlete, a sua Arlete, aos beijos e abra\u00e7os com o Ant\u00f4nio. Sim, com o Ant\u00f4nio! Como \u00e9 que podia uma coisa daquelas? Com o Ant\u00f4nio? Ah, n\u00e3o! Aquilo j\u00e1 era demais!<\/p>\n<p>Rog\u00e9rio se sentiu afrontado por descobrir que a sua Arlete estava completamente enla\u00e7ada no seu melhor amigo. Amigo? S\u00f3 se for da on\u00e7a! E, de tanto olhar, acabou por ser descoberto pelos enamorados, que lhe acenaram sorrindo, como se aquela fosse a situa\u00e7\u00e3o mais normal do mundo. Na verdade, at\u00e9 era, mas n\u00e3o para algu\u00e9m como Rog\u00e9rio, t\u00e3o repleto de emp\u00e1fia.<\/p>\n<p>Determinado a n\u00e3o demonstrar consterna\u00e7\u00e3o, Rog\u00e9rio sorriu aquele sorriso amarelo dos constrangidos. Seja como for, arranjou um pouco da coragem que sempre lhe fora desconhecida e, ent\u00e3o, deu alguns passos em dire\u00e7\u00e3o aos pombinhos. A vontade era de esganar o colega, mas este era mais parrudo e, era prov\u00e1vel tomar uma surra. Quanto \u00e0 Arlete, o tra\u00eddo n\u00e3o teve \u00e2nimo nem de olh\u00e1-la nos olhos.<\/p>\n<p>Passado o constrangimento, Rog\u00e9rio se despediu e, com o corpo cambaleante e a mente a mil, tentou encontrar o rumo do lar, doce lar. Mal entrou, se sentou no amplo sof\u00e1 da sala e chorou as l\u00e1grimas que nunca lhe fizeram companhia. E, por mais estranhas que fossem, pareciam honestas. Como \u00e9 que aquilo teria acontecido justamente com ele, filho \u00fanico de dona Solange e seu Valdemar? N\u00e3o, n\u00e3o e n\u00e3o!<\/p>\n<p>Desesperado, Rog\u00e9rio pensou em acabar com a pr\u00f3pria vida. Sim, era o \u00fanico jeito que resolveria aquela situa\u00e7\u00e3o. At\u00e9 imaginou Arlete, arrependida, agarrada ao seu caix\u00e3o e vertendo o choro das ad\u00falteras arrependidas. Sim! Isso! Certamente, a mulher nunca mais teria coragem de tocar os l\u00e1bios com os de outrem.<\/p>\n<p>Sem a intrepidez necess\u00e1ria para cortar a garganta com uma faca ou pular do seu apartamento do quinto andar, Rog\u00e9rio pareceu encontrar a arma que o livraria de todo aquele sofrimento. Um alfinete. Sim! Um m\u00edsero alfinete.<\/p>\n<p>Determinado, o homem pegou aquele min\u00fasculo objeto e, com brilho nos olhos, o ergueu por um instante. Bravo que se sentiu, o levou at\u00e9 a ponta do mindinho da m\u00e3o esquerda e, impetuoso, o espetou. Rog\u00e9rio se sentiu assombrado com aquilo e, quase de imediato, saiu pela janela que nem bal\u00e3o furado. Nunca mais foi visto.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando voc\u00ea quer machucar um homem, voc\u00ea d\u00e1 um soco. Quando voc\u00ea quer ofender, voc\u00ea lhe mete um tapa na cara. D\u00f3i menos, mas machuca na alma. 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