{"id":366330,"date":"2025-10-05T06:48:43","date_gmt":"2025-10-05T09:48:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=366330"},"modified":"2025-10-05T06:51:38","modified_gmt":"2025-10-05T09:51:38","slug":"o-martelo-a-foice-e-o-carimbo-da-censura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-martelo-a-foice-e-o-carimbo-da-censura\/","title":{"rendered":"O martelo, a foice e o carimbo da censura"},"content":{"rendered":"<p data-start=\"399\" data-end=\"820\">Foi outro dia \u2014 desses em que a conversa come\u00e7a leve, mas termina pesada \u2014 que eu e Fernando Tolentino, veterano das trincheiras do jornalismo, troc\u00e1vamos impress\u00f5es sobre o novo cerco \u00e0 liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<p data-start=\"399\" data-end=\"820\">\u00c9ramos dois ex-combatentes de reda\u00e7\u00e3o, hoje com os cabelos mais brancos que os prateados das mesas de edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p data-start=\"399\" data-end=\"820\">As mensagens pingavam no <em>WhatsApp<\/em>, essa nova forma de bilhete cifrado dos tempos modernos.<\/p>\n<p data-start=\"822\" data-end=\"1200\">Tolentino, sempre com aquele humor que tempera o amargor, escreveu:<\/p>\n<p data-start=\"822\" data-end=\"1200\">\u2014 Eu sa\u00edra, com o Francisco Gualberto, nosso amigo fot\u00f3grafo, para cobrir uma pauta surreal: um duelo.<\/p>\n<p data-start=\"822\" data-end=\"1200\">\u2014 Duelo? \u2014 retruquei.<\/p>\n<p data-start=\"822\" data-end=\"1200\">\u2014 Duelo, sim, meu caro. Com dia, hora e local marcados. Aconteceria na pra\u00e7a central de Valpara\u00edso. Faroeste a 50 km de Bras\u00edlia. Pauta da editoria de cidade do <em data-start=\"1176\" data-end=\"1197\">Correio Braziliense<\/em>.<\/p>\n<p data-start=\"1202\" data-end=\"1274\">Ri. O absurdo era parte da rotina. Mas a hist\u00f3ria virava mais curiosa.<\/p>\n<p data-start=\"1276\" data-end=\"1893\">Tolentino prosseguiu:<\/p>\n<p data-start=\"1276\" data-end=\"1893\">\u2014 A pauta furou. Talvez a \u00fanica frustrada da minha passagem pelo jornal. Mas na volta, Gualberto avistou uma cena ins\u00f3lita: oper\u00e1rios ultimando os detalhes do <em data-start=\"1459\" data-end=\"1489\">Memorial dos Povos Ind\u00edgenas, <\/em>coladinha no<em data-start=\"1459\" data-end=\"1489\"> Memorial JK<\/em>. A obra fora destravada numa audi\u00eancia de Dona Sarah com o general-presidente Figueiredo, costurada por ningu\u00e9m menos que S\u00edlvio Caldas.<\/p>\n<p data-start=\"1276\" data-end=\"1893\">\u2014 S\u00edlvio Caldas?! O cantor?<\/p>\n<p data-start=\"1276\" data-end=\"1893\">\u2014 O pr\u00f3prio. O trovador serviu de ponte entre o poder e a arte. E foi assim que se venceu a resist\u00eancia dos fardados mais exaltados, aqueles que viam em Niemeyer, o arquiteto comunista, uma amea\u00e7a de concreto armado.<\/p>\n<p data-start=\"1895\" data-end=\"2031\">Tolentino riu, mas o riso veio amargo:<\/p>\n<p data-start=\"1895\" data-end=\"2031\">\u2014 Diziam que a torre projetava, sobre o Setor Militar Urbano, a sombra da foice e do martelo.<\/p>\n<p data-start=\"2033\" data-end=\"2355\">O que veio depois, contou-me como quem revira uma ferida antiga:<\/p>\n<p data-start=\"2033\" data-end=\"2355\">\u2014 Paramos a kombi, Gualberto saltou, enquadrou e clicou. O oper\u00e1rio, de martelo na m\u00e3o, diante da torre curvada. O s\u00edmbolo comunista estava ali, desenhado pelo acaso e pelo sol.<\/p>\n<p data-start=\"2033\" data-end=\"2355\">Era capa. N\u00e3o havia d\u00favida. A perfeita combina\u00e7\u00e3o da arte com a paranoia.<\/p>\n<p data-start=\"2357\" data-end=\"2553\">Mas, como toda boa hist\u00f3ria de jornal em tempos de chumbo, o final foi previs\u00edvel:<\/p>\n<p data-start=\"2357\" data-end=\"2553\">\u2014 No dia seguinte, Gualberto passou pela minha mesa. O olhar dizia tudo. \u201cN\u00e3o vai ser publicada\u201d, murmurou.<\/p>\n<p data-start=\"2555\" data-end=\"2651\">Tolentino suspirou, digitando como quem revive:<\/p>\n<p data-start=\"2555\" data-end=\"2651\">\u2014 \u201cMas, se quiser, fa\u00e7o uma c\u00f3pia pra voc\u00ea.\u201d<\/p>\n<p data-start=\"2653\" data-end=\"2845\">Claro que quis. Mandou emoldurar a foto. Orgulhoso da pequena insubordina\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, pendurou-a na parede do escrit\u00f3rio. S\u00f3 percebeu um detalhe tarde demais: o autor esquecera de assinar.<\/p>\n<p data-start=\"2847\" data-end=\"3020\">D\u00e9cadas depois, rastreou Gualberto, que ainda respirava o cheiro de revelador e acetona. Pediu o aut\u00f3grafo.<\/p>\n<p data-start=\"2847\" data-end=\"3020\">\u201cAgora sim\u201d, disse. \u201cA foto e a censura, juntas, aut\u00eanticas.\u201d<\/p>\n<p data-start=\"3022\" data-end=\"3156\">Tolentino encerrou o relato com uma pergunta que ficou vibrando na tela, sem resposta:<\/p>\n<p data-start=\"3022\" data-end=\"3156\">\u2014 Sentiu a for\u00e7a que tem a censura pra mim?<\/p>\n<p data-start=\"3158\" data-end=\"3522\">Sim, senti. Porque a censura nunca morre \u2014 ela apenas troca de uniforme.<\/p>\n<p data-start=\"3158\" data-end=\"3522\">Antes vinha de coturno; hoje, veste toga, jaleco, gravata, crach\u00e1 corporativo ou codinome digital. Continua decidindo o que pode ser dito, visto, sentido.<\/p>\n<p data-start=\"3158\" data-end=\"3522\">E n\u00f3s, jornalistas, seguimos tentando furar o bloqueio, mesmo sabendo que o pr\u00f3ximo \u201cn\u00e3o vai ser publicado\u201d j\u00e1 est\u00e1 a caminho.<\/p>\n<p data-start=\"3524\" data-end=\"3744\">No fim, o que resta \u00e9 o mesmo retrato pendurado na parede da mem\u00f3ria \u2014 o oper\u00e1rio, o martelo, a torre, a sombra da foice \u2014 e a eterna pergunta de Tolentino:<\/p>\n<p data-start=\"3524\" data-end=\"3744\">Ser\u00e1 que algum dia publicaremos, sem medo, a verdade inteira?<\/p>\n<p data-start=\"3524\" data-end=\"3744\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p data-start=\"3524\" data-end=\"3744\"><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 diretor da Sucursal Regional Nordeste de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi outro dia \u2014 desses em que a conversa come\u00e7a leve, mas termina pesada \u2014 que eu e Fernando Tolentino, veterano das trincheiras do jornalismo, troc\u00e1vamos impress\u00f5es sobre o novo cerco \u00e0 liberdade de express\u00e3o. \u00c9ramos dois ex-combatentes de reda\u00e7\u00e3o, hoje com os cabelos mais brancos que os prateados das mesas de edi\u00e7\u00e3o. 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