{"id":366378,"date":"2025-10-07T02:00:42","date_gmt":"2025-10-07T05:00:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=366378"},"modified":"2025-10-05T22:39:02","modified_gmt":"2025-10-06T01:39:02","slug":"a-vida-nao-e-tao-simples-assim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-vida-nao-e-tao-simples-assim\/","title":{"rendered":"A vida n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim"},"content":{"rendered":"<p>Ludmila, mas pode me chamar de Lud. Nem precisa de senhora, pois sei que sou velha, n\u00e3o preciso de ningu\u00e9m para me lembrar disso a todo instante. Ent\u00e3o, Lud ou, caso n\u00e3o se sinta \u00e0 vontade, que seja Ludmila, como as nossas idades fossem quase um abismo intranspon\u00edvel para algu\u00e9m t\u00e3o cheio de regras que nem&#8230; Bem, que nem voc\u00ea!<\/p>\n<p>Tudo aconteceu nos idos de 1963, quase in\u00edcio de 1964. Festa de Natal na casa de Dalva, tia do Jaime, com quem me casei t\u00e3o novinha. Gente, como \u00e9 que fui permitir que mam\u00e3e fizesse tamanho descalabro comigo? Tempos outros, quando as mocinhas, mal largavam as bonecas, j\u00e1 eram preparadas para o cas\u00f3rio. E comigo n\u00e3o foi diferente.<\/p>\n<p>Jaime Gon\u00e7alves do Amaral, um jovem advogado, provavelmente alvo de algumas garotas, haja vista o futuro promissor. Nem o conhecia direito. Quer dizer, sabia quem era, pois frequentava a casa dos meus pais h\u00e1 quase dois anos. Na \u00e9poca, imaginava se tratar de neg\u00f3cios imobili\u00e1rios ou coisa do tipo, at\u00e9 perceber, j\u00e1 perto do final da minha festa de debutante, que o neg\u00f3cio, na verdade, era eu.<\/p>\n<p>\u2014 Ludmila, minha filha, este \u00e9 o Jaime, seu futuro marido.<\/p>\n<p>Boquiaberta, olhei para minha m\u00e3e, que fora incumbida por papai a me dar a not\u00edcia logo ap\u00f3s a valsa. Desesperan\u00e7ada, busquei os olhos do meu pai em busca de conforto, mas s\u00f3 senti n\u00e1useas quando ele me sorriu.<\/p>\n<p>\u2014 Feliz?<\/p>\n<p>Feliz? Como \u00e9 que o meu pai, justamente quem deveria me proteger, poderia me fazer tamanha pergunta? Gente, eu era apenas uma pobre e indefesa garotinha de 15 anos. J\u00e1 imaginou a cena?<\/p>\n<p>Sem ter a quem recorrer, abaixei os olhos e respondi que sim. O que eu poderia ter feito? Fugido ao som de rock and roll, t\u00e3o em voga naquela \u00e9poca? Apesar de muito nova, n\u00e3o era ing\u00eanua a ponto de imaginar que o Elvis ou o Marlon Brando fosse me salvar, ainda mais porque sempre tive uma queda pelo\u00a0Montgomery Clift.<\/p>\n<p>Mam\u00e3e me preparou, mas sem entrar em detalhes. Disse-me o b\u00e1sico do b\u00e1sico, como se aquilo fosse resolver todos os meus problemas. Pelo contr\u00e1rio, pois me trouxe outros ap\u00f3s me deparar com a realidade.<\/p>\n<p>Casei-me no ano seguinte sem nem mesmo conhecer direito o homem que, a partir daquele momento, se tornou meu marido pelos pr\u00f3ximos 43 anos, at\u00e9 ele sucumbir. Confesso que os \u00faltimos anos ao seu lado foram de profunda cumplicidade, pois desenvolvemos fortes la\u00e7os de amizade, mas nunca de amor. Amor, creio que voc\u00ea bem sabe, \u00e9 coisa mais complicada.<\/p>\n<p>Tornamo-nos amigos, mesmo que o in\u00edcio n\u00e3o tenha sido um mar-de-rosas, quando meu marido, talvez querendo mostrar ao mundo algo que n\u00e3o era, tentou, a todo custo, me engravidar. Conseguiu seu intento e, nove meses ap\u00f3s, nasceu Augusto, nosso \u00fanico filho. A partir de ent\u00e3o, enquanto cuidava da crian\u00e7a, vi meu marido se entreter com meu primo Carlos, solteir\u00e3o convicto, em viagens de \u00faltima hora, como se os dois fossem salvar o planeta da ent\u00e3o quase certa Terceira Guerra Mundial, cada vez mais temida por todas as na\u00e7\u00f5es logo ap\u00f3s a invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos orquestrada pelos Estados Unidos em 1961.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei exatamente se foi o medo de que a popula\u00e7\u00e3o mundial fosse dizimada ou o al\u00edvio pelo nascimento do filho que empurrou Jaime para se aventurar com Carlos. Confesso que senti certo al\u00edvio pela situa\u00e7\u00e3o, mesmo porque andava exausta, apesar da presen\u00e7a constante de Fel\u00edcia e Maria Aparecida, nossas empregadas.<\/p>\n<p>Quando Augusto j\u00e1 estava em idade que n\u00e3o necessitava mais de tantos cuidados maternos, eis que comecei a olhar ao redor. E foi justamente naquele Natal de 1963, que meus olhos se cruzaram pela primeira vez com os do Renato, s\u00f3cio do meu esposo no escrit\u00f3rio. Ainda tentei disfar\u00e7ar meu interesse pegando uma castanha na ampla mesa. Entretanto, p\u00e9ssima atriz que sempre fui desde a noite de n\u00fapcias, n\u00e3o consegui convencer aquele homem t\u00e3o&#8230; Bem, n\u00e3o estou aqui buscando reden\u00e7\u00e3o. Admito, Renato foi meu maior desvio de car\u00e1ter.<\/p>\n<p>Nosso primeiro encontro aconteceu em uma biblioteca p\u00fablica. Estava eu folheando um exemplar de\u00a0Dom Casmurro\u00a0quando Renato, sorrateiro, se aproximou por tr\u00e1s e pousou a m\u00e3o esquerda sobre meu ombro. Quase gritei, mas me contive, ainda mais porque n\u00e3o queria ser descoberta, mesmo em local t\u00e3o discreto.<\/p>\n<p>Conversamos trivialidades, at\u00e9 que fui convencida (ou ser\u00e1 que fui eu a faz\u00ea-lo?) a irmos para um ambiente mais apropriado. Confesso que n\u00e3o gostei do hotel escolhido, mas n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00e3o de protestar. Seja como for, Renato me fez atingir notas que, at\u00e9 ent\u00e3o, desconhecia.<\/p>\n<p>Apesar de amedrontada pela situa\u00e7\u00e3o, afinal, era uma mulher casada e com filho, o desejo falou mais alto e, n\u00e3o sei de onde, arranquei coragem que at\u00e9 ent\u00e3o desconhecia possuir. \u00c9 \u00f3bvio que morria de medo de ser descoberta, e acabei sendo por algu\u00e9m que eu nem desconfiava que iria aceitar aquilo.<\/p>\n<p>\u2014 Lud, discri\u00e7\u00e3o \u00e9 tudo. N\u00e3o estou aqui para censur\u00e1-la, pois cada um possui seus desejos. E vontades, quando pega, n\u00e3o tem quem segura.<\/p>\n<p>Incr\u00e9dula, olhei para o meu marido, que me abra\u00e7ou. A partir daquele dia, a nossa rela\u00e7\u00e3o melhorou tanto, que passamos a ser confidentes. Ele me apoiava e, quando necess\u00e1rio, acobertava as minhas escapadas para os encontros furtivos e cada vez mais frequentes. E foi assim at\u00e9 que o meu Renato, que tamb\u00e9m era da Maria Cristina, faleceu em um acidente de carro.<\/p>\n<p>Jaime e eu, como casal, comparecemos ao enterro e cumprimentamos a vi\u00fava, que chorava copiosamente. N\u00e3o sei se ela sabia do nosso caso, talvez at\u00e9 desconfiasse, mas jamais me tratou mal ou com indiferen\u00e7a. Pelo contr\u00e1rio, Maria Cristina sempre me considerou como uma fiel amiga, inclusive insistindo para que eu e meu marido f\u00f4ssemos padrinhos do seu ca\u00e7ula, Leonardo.<\/p>\n<p>A amizade era tanta, que a esposa do meu amante, certa vez, me procurou para desabafar. Seus olhos azuis, marejados que estavam, eram de dar dor. Ela fitou-me e, em seguida, desabou em choro. Procurei confort\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Lud, tenho certeza de que o Renato tem outra.<\/p>\n<p>O medo tomou conta do meu corpo, mas tentei controlar aquele turbilh\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 O Renato? Tem certeza?<\/p>\n<p>\u2014 Olhe o que encontrei ca\u00eddo no banco do carro.<\/p>\n<p>Maria Cristina esticou o bra\u00e7o e abriu a m\u00e3o. L\u00e1 estava um brinco. N\u00e3o um brinco qualquer, mas com a letra &#8220;L&#8221;. Gelei! E quando tudo parecia perdido, eis que surgiu o Jaime de armadura montado em um belo cavalo branco. Bem, n\u00e3o foi exatamente assim, apesar que, devido \u00e0s circunst\u00e2ncias, parecia estar.<\/p>\n<p>Delicadamente, ele tomou o brinco das m\u00e3os da Maria Cristina e sorriu.<\/p>\n<p>\u2014 Olha s\u00f3, meu amor, o seu brinco! Que cabe\u00e7a a minha!<\/p>\n<p>Estarrecida, voltei os olhos para Jaime, que continuou com seu teatro. Ali\u00e1s, devo confessar que ele sempre foi o Paulo Autran da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 Maria Cristina, aposto que deixei cair no carro do Renato. N\u00e3o foi l\u00e1 que voc\u00ea o encontrou?<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Como voc\u00ea sabe disso?<\/p>\n<p>\u2014 A Lud me pediu para pegar esse brinco no ourives, que ela havia deixado para arrumar esse ganchinho. Como \u00e9 mesmo o nome, amor?<\/p>\n<p>\u2014 Fecho.<\/p>\n<p>\u2014 Sim! Fecho! Voc\u00ea me disse esse nome tantas vezes, que n\u00e3o sei como \u00e9 que fui me esquecer. Aqui est\u00e1 o seu brinco de volta, meu amor. Voc\u00ea me perdoa? Por favor, diz que me perdoa.<\/p>\n<p>Maria Cristina e eu nos olhamos e, ent\u00e3o, sorrimos do meu apaixonado marido que, apesar de atrapalhado, era um amor.<\/p>\n<p>\u2014 Claro que perdoo, seu bobo!<\/p>\n<p>Para n\u00e3o restar d\u00favida, Jaime e eu encenamos um beijo quase cinematogr\u00e1fico diante da agora aliviada Maria Cristina. A minha amiga me abra\u00e7ou e, logo ap\u00f3s aceitar tomar ch\u00e1 com torradas, retornou para os bra\u00e7os do seu marido fiel, ao menos aos seus olhos azuis ing\u00eanuos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a morte do Renato, pensei que nunca mais me envolveria com qualquer homem. J\u00e1 estava beirando os 60 anos e me sentia deveras isolada desse jogo de sedu\u00e7\u00e3o. Todavia, h\u00e1 coisas que, mesmo n\u00e3o sejam provenientes do cora\u00e7\u00e3o, o corpo necessita. E foi assim que conheci o \u00c1lvaro, vi\u00favo que havia se mudado para o pr\u00e9dio. Chegamos a trocar algumas figurinhas, mas logo percebi que ele s\u00f3 possu\u00eda repetidas, enquanto as que eu carregava na bolsa eram todas premiadas.<\/p>\n<p>Do \u00c1lvaro para o Marcelo, pouco mais jovem, cuja disposi\u00e7\u00e3o me encantou por um m\u00eas, at\u00e9 que desisti antes que ele enjoasse de mim. Mas n\u00e3o pense voc\u00ea que sa\u00ed do jogo, e fui \u00e0 luta. Tive outros casos, inclusive alguns com maridos de amigas, at\u00e9 que fui surpreendida por um telefonema do Carlos. Ele estava em p\u00e2nico e n\u00e3o sabia como proceder.<\/p>\n<p>Jaime e meu primo haviam viajado em um final de semana, como h\u00e1 d\u00e9cadas faziam. Meu esposo, enquanto dormia, teve um enfarte e n\u00e3o mais despertou. Nem sei como arrumei for\u00e7as, mas precisava honrar a hist\u00f3ria do meu querido marido e, ent\u00e3o, peguei um voo e, poucas horas depois, l\u00e1 estava eu no quarto da pousada em Salvador.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os tr\u00e2mites legais, consegui que o corpo do Jaime fosse trasladado para Bras\u00edlia. E l\u00e1 estava eu, a vi\u00fava, sem ch\u00e3o. Carlos e eu, desolados, divid\u00edamos l\u00e1grimas sobre o caix\u00e3o do homem de nossas vidas.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n<div id=\"wpdevar_comment_4\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ludmila, mas pode me chamar de Lud. Nem precisa de senhora, pois sei que sou velha, n\u00e3o preciso de ningu\u00e9m para me lembrar disso a todo instante. 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