{"id":366458,"date":"2025-10-08T01:15:54","date_gmt":"2025-10-08T04:15:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=366458"},"modified":"2025-10-06T17:09:48","modified_gmt":"2025-10-06T20:09:48","slug":"cinco-poemas-de-teofilo-tostes-daniel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cinco-poemas-de-teofilo-tostes-daniel\/","title":{"rendered":"Cinco poemas de Teofilo Tostes Daniel"},"content":{"rendered":"<p><strong>P\u00f3s-verdade<\/strong><\/p>\n<p>Na art\u00e9ria do tempo,<br \/>\na boca do povo escolhe<br \/>\numa palavra governante.<br \/>\nAo acaso.<\/p>\n<p>Enfia, goela abaixo<br \/>\nda palavra escolhida,<br \/>\nboatos, significados<br \/>\ne nonsenses.<br \/>\nA verve do verbo infla, plur\u00edvoca,<br \/>\nparecendo vaga e deslizante.<\/p>\n<p>No entanto, com esse incha\u00e7o<br \/>\nsem\u00e2ntico, cada vez mais<br \/>\na palavra,<br \/>\nfarta e enfastiada,<br \/>\nfica vazia<\/p>\n<p>de sentido.<\/p>\n<p><strong>Pandemonium<\/strong><\/p>\n<p><em>a dor se candidatou a presidente no meu pa\u00eds<\/em><br \/>\n<em>tem maioria no congresso<\/em><br \/>\n<em>distribui mentiras<\/em><br \/>\n<em>diz que nada d\u00f3i<\/em><\/p>\n<p><em>Marcus Vinicius Santana Lima<\/em><\/p>\n<p>adestrados pela indiferen\u00e7a das horas<br \/>\ncruzamos ruas e cidades<br \/>\ncomo se a morte<br \/>\nn\u00e3o estivesse vol\u00e1til<br \/>\n\u00e0 espreita<\/p>\n<p>no ar que falta aos pulm\u00f5es<br \/>\nmil \u00e1rvores queimam<br \/>\nmil florestas sucumbem<br \/>\ne num \u00fanico dia 3.125 cora\u00e7\u00f5es<br \/>\nchegaram a secar como rios<\/p>\n<p>em tempos virais<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o<br \/>\npara enterrar os mortos<br \/>\nmelhor lan\u00e7\u00e1-los<br \/>\naos abutres ou aos corvos<\/p>\n<p>inventaram chamar<br \/>\nde p\u00e1tria<br \/>\na terra m\u00e3e<br \/>\ne encher-lhe de venenos<br \/>\npara se tornar f\u00e9rtil<\/p>\n<p>inventaram chamar de paz<br \/>\nas bocas costuradas<br \/>\nque n\u00e3o podem gritar<br \/>\na orfandade de m\u00e3es<br \/>\ne filhos<\/p>\n<p>e o pai manda o menino<br \/>\nengolir o choro<br \/>\nporque homem que \u00e9<br \/>\nhomem<br \/>\nn\u00e3o sente<\/p>\n<p><strong>Homo predatoris<\/strong><\/p>\n<p>o mais temido dos predadores<br \/>\nn\u00e3o tem garras poderosas<br \/>\nsuas p\u00e1lidas unhas<br \/>\nao menor esfor\u00e7o<br \/>\nvergam e ferem a pr\u00f3pria carne<\/p>\n<p>n\u00e3o tem dentes longos<br \/>\ne afiados como sabres<br \/>\nsua denti\u00e7\u00e3o s\u00f3 lhe vale<br \/>\npara macerar a carne das frutas<br \/>\ne suas gengivas inflamam<\/p>\n<p>sua for\u00e7a mal \u00e9 capaz de sustentar<br \/>\no pr\u00f3prio peso<br \/>\nsobre os galhos das \u00e1rvores<br \/>\nsua pele n\u00e3o suporta nem mesmo<br \/>\nos espinhos de uma rosa<\/p>\n<p>o mais temido dos predadores<br \/>\nn\u00e3o tem a rapidez de um jaguar<br \/>\na vis\u00e3o de uma \u00e1guia<br \/>\nnem o tresloucado destemor<br \/>\nde um texugo-do-mel<\/p>\n<p>o mais temido dos predadores<br \/>\ntem um c\u00e9rebro crescido<br \/>\npor esp\u00e9cies e gera\u00e7\u00f5es<br \/>\ncomo um tumor maligno que consome<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 um quinto de sua energia<\/p>\n<p>mas tamb\u00e9m muitas vezes a energia<br \/>\nda aquosa poeira c\u00f3smica<br \/>\nque ele habita h\u00e1 t\u00e3o pouco<br \/>\nno provis\u00f3rio dos tempos<br \/>\ngeol\u00f3gicos e intergal\u00e1cticos<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o h\u00e1 \u00eaxtases na ideia de artif\u00edcio<\/strong><\/p>\n<p><em>Eu n\u00e3o percebo onde tem alguma coisa que n\u00e3o seja natureza. Tudo \u00e9 natureza. O cosmos \u00e9 natureza. Tudo em que eu consigo pensar \u00e9 natureza.<\/em><\/p>\n<p><em>Ailton Krenak<\/em><\/p>\n<p>\u00e9 insano cultuar somente o fogo<br \/>\nque digere e consome<br \/>\nseparado da terra<br \/>\nque acolhe e gesta<br \/>\nesquecido do vento<br \/>\nque movimenta e poliniza<br \/>\ne em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1gua<br \/>\nque refresca e fecunda<\/p>\n<p>\u00e9 insensato acreditar-se acima<br \/>\nporque n\u00e3o estamos separados<br \/>\nda vida e sua finitude<br \/>\nda natureza e sua pot\u00eancia<br \/>\ndo mundo e sua delicadeza<br \/>\ndo cosmo e sua vastid\u00e3o<\/p>\n<p>n\u00e3o h\u00e1 \u00eaxtases na ideia de artif\u00edcio<\/p>\n<p>\u00e9 preciso estar atento \u00e0s vozes<br \/>\ndos que ouvem o solo fundante das perguntas<br \/>\ndos que escutam o marulho das terras<br \/>\ndos que perscrutam a sabedoria dos sonhos<br \/>\ndos que indagam sobre as possibilidades do amanh\u00e3<br \/>\ndos que resistem junto<br \/>\nao verde das matas<br \/>\ne \u00e0 fluidez dos rios<\/p>\n<p>\u00e9 urgente aprender<br \/>\ncom quem celebra<br \/>\no prazer a dan\u00e7a o canto a chuva<br \/>\ncom quem chora a morte de um rio<br \/>\ne ainda ousa ideias<br \/>\npara adiar o fim do mundo<\/p>\n<p><strong>Invoca\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><em>Quem s\u00f3 acredita no vis\u00edvel tem um mundo muito pequeno. Os drag\u00f5es n\u00e3o cabem nesses pequenos mundos de paredes inviol\u00e1veis para o que n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel.<\/em><\/p>\n<p><em>Caio Fernando Abreu<\/em><\/p>\n<p>A escrita \u00e9 similar<br \/>\nao ato vision\u00e1rio<br \/>\nde domar drag\u00f5es.<br \/>\nPalavras t\u00eam escamas, voam<br \/>\ne soltam fogo pelas ventas.<\/p>\n<p>O verbo recende<br \/>\ncheiros verdes de ervas,<br \/>\ndesce do mundo dos sonhos<br \/>\ne deita seu palavroso corpo<br \/>\nsobre as cinzas macias do tempo.<\/p>\n<p>No ventre do verbo<br \/>\nhabita a carne sens\u00edvel<br \/>\ndo imaginado.<br \/>\nNela, mastigamos<br \/>\na beleza dos nomes sem coisa.<\/p>\n<p>Porque escrever \u00e9 despir<br \/>\no nome das coisas:<br \/>\numa fantasmagoria<br \/>\nde vestes vol\u00e1teis<br \/>\nenchidas de ar.<\/p>\n<p>Palavra \u00e9 invoca\u00e7\u00e3o.<br \/>\nL\u00ea a aura<br \/>\ninvis\u00edvel por tr\u00e1s<br \/>\ndo fundo f\u00e1tuo<br \/>\ndo vis\u00edvel verbo.<\/p>\n<p>A escrita \u00e9 quimera.<br \/>\nUm ato similar<br \/>\nao de domar drag\u00f5es.<br \/>\nAs palavras tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o conhecem o para\u00edso.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/strong><\/p>\n<p><strong>Os poemas acima est\u00e3o no livro \u201cO poeta toma a p\u00f3lis\u201d , publicado em 2023 pela Editora Patu\u00e1 (http:\/\/bit.ly\/opoetatomaapolis). Assista ao Booktrailler e a alguns v\u00eddeo-poemas do livro abaixo:<\/strong><br \/>\n<strong>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=t6o2IS7kyKQ&amp;list=PLlhSUFHoUhJc_8mMn9VNSRKnu4py5txMS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Teofilo Tostes Daniel \u00e9 poeta e escritor nas horas cheias. Pai do Ravi e companheiro de Fabiana Turci, nas horas vagas, bendiz o \u00f3cio, l\u00ea, toca viol\u00e3o e canta no chuveiro. Em hor\u00e1rio comercial \u00e9 analista de comunica\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal. \u00c9 autor de \u201cO poeta toma a p\u00f3lis\u201d (2023), \u201cTr\u00edtonos \u2013 intervalos do del\u00edrio\u201d (2015) \u2013 ambos pela Editora Patu\u00e1\u201d, al\u00e9m de \u201cPoemas para serem encenados\u201d (2008). Publicou tamb\u00e9m, pela Editora Primata, a plaquete \u201cIrmana\u00e7\u00f5es ou po\u00e9ticas fractais\u201d, escrito com sua irm\u00e3 Betine Daniel. Tem ainda contos, poemas e artigos publicados em colet\u00e2neas, revistar liter\u00e1rias e culturais.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P\u00f3s-verdade Na art\u00e9ria do tempo, a boca do povo escolhe uma palavra governante. Ao acaso. Enfia, goela abaixo da palavra escolhida, boatos, significados e nonsenses. A verve do verbo infla, plur\u00edvoca, parecendo vaga e deslizante. No entanto, com esse incha\u00e7o sem\u00e2ntico, cada vez mais a palavra, farta e enfastiada, fica vazia de sentido. 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