{"id":366569,"date":"2025-10-09T01:15:54","date_gmt":"2025-10-09T04:15:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=366569"},"modified":"2025-10-08T08:29:30","modified_gmt":"2025-10-08T11:29:30","slug":"quando-a-lei-matou-o-papagaio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quando-a-lei-matou-o-papagaio\/","title":{"rendered":"Quando a lei matou o papagaio"},"content":{"rendered":"<p>Esta hist\u00f3ria aconteceu num sub\u00farbio carioca, h\u00e1 coisa de uns vinte anos mais ou menos, e j\u00e1 n\u00e3o encontro ningu\u00e9m que lhe possa atestar a veracidade, tampouco dizer que \u00e9 mentira. Pois, assim, vai relatada com o maior n\u00famero de detalhes que possa lembrar.<\/p>\n<p>Ocorreu que uma senhora, de nome Dalva, morava numa casa antiga com o quintal bem grande. Era vi\u00fava fazia uns meses e, como estava triste e vivia s\u00f3, uns compadres foram visit\u00e1-la e levaram uma surpresa: um papagaio, bem pequeno, com as penas ainda desarrumadas e o bico sem qualquer desenvolvimento, cara de assustado.<\/p>\n<p>Dalva chegou a se assustar quando abriu a caixa de sapato onde o bicho viajara. Mas logo se apiedou do estado em que ele se encontrava, aquele pesco\u00e7o magro, o olhar de espanto. Pensou, sem falar nada, o que iria fazer com a ave. E a comadre, intuindo, talvez, a d\u00favida, vendo a cara de surpresa da mulher, logo foi sugerindo:<\/p>\n<p>\u2014 O Jorginho comprou esse louro na feira de Acari, Dalva. Voc\u00ea n\u00e3o imagina! Eu disse: que desprop\u00f3sito, meu filho, onde \u00e9 que eu vou enfiar isso? Mas foi pensando em lhe dar que ele comprou. Voc\u00ea sozinha agora, aqui neste palacete! Ao menos ter\u00e1 com que se distrair.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, \u00e9 preciso que se diga que a comadre exagerava enormemente ao chamar de palacete a modesta casa de tr\u00eas quartos e quintal em Bonsucesso. Depois, que Dalva quase p\u00f4s os dois pra fora, com papagaio e tudo, pois achou aquilo tudo inoportuno. Agora que estava vi\u00fava e se tornara pensionista, a \u00faltima coisa que queria era mais uma boca para alimentar \u2014 for\u00e7a de express\u00e3o, porque, com aquele biquinho mi\u00fado, o papagaio mal comia. Mas \u00e9 que, no fim da vida, o marido, sempre ranzinza e controlador, dera muito trabalho, e Dalva n\u00e3o queria saber de obriga\u00e7\u00f5es. Ansiava mesmo era sombra e \u00e1gua fresca.<\/p>\n<p>O pobre bichinho estava l\u00e1, no entanto, rec\u00e9m-sa\u00eddo de uma casca de ovo, e era preciso dar-lhe um destino. Algo havia em seus olhos e na cabe\u00e7a desproporcionalmente grande que inspirava uma vontade de cuidar em Dalva. Assim, vencendo a reserva inicial, aceitou o presente dos compadres e, fazendo tro\u00e7a com a mem\u00f3ria do falecido, que se chamava Hildebrando, batizou o amigo de penas com o apelido do falecido, Badinho.<\/p>\n<p>Badinho passou os primeiros meses entre um morre-n\u00e3o-morre, pois, certa tarde, Dalva fora ao banco pagar umas contas e deixou a gaiolinha onde ele vivia pendurada na \u00e1rea, perto do tanque. Caiu uma chuva daquelas inesperadas, de ver\u00e3o carioca, e deixou Badinho completamente encharcado, t\u00e3o molhado que pareceu at\u00e9 haver perdido as penas, empapadas que estavam. Teve de ser enrolado numa toalhinha de rosto, para secar-se convenientemente, enquanto fazia d\u00e9beis ru\u00eddos de conforto na seguran\u00e7a dos cuidados prestados por Dalva.<\/p>\n<p>Intimamente ela sentiu-se p\u00e9ssima por haver negligenciado, ainda que de maneira involunt\u00e1ria, aquela criatura que havia sido confiada a seus cuidados.<\/p>\n<p>Prometeu silenciosamente que aquilo jamais se repetiria.<\/p>\n<p>Badinho n\u00e3o s\u00f3 se salvou, como, alimentado a gr\u00e3os de arroz e p\u00e3o molhado, transformou-se num belo papagaio que, ao longo dos meses, foi se tornando cada vez mais \u00edntimo e carinhoso com Dalva, a quem confiava a cabecinha para ser co\u00e7ada.<\/p>\n<p>Claro que, conforme crescia, foi preciso providenciar-lhe uma gaiola maior. Ao fim, Dalva mandara fazer um gigantesco viveiro sob uma frondosa mangueira de seu quintal, onde Badinho passava as tardes de dias in\u00fateis a taramelar, imitando o som de outras aves que por ali passavam, e Dalva, sentada numa cadeirinha de vime, \u00e0 sombra da mesma \u00e1rvore, ia lhe ensinando falas humanas que Badinho, vez por outra, repetia animado.<\/p>\n<p>O viveiro de Badinho, constru\u00eddo com estrutura de madeira e tela met\u00e1lica de tran\u00e7ado fino, era coberto de telhas. Alto, permitia que Dalva entrasse por uma portinhola e limpasse o fundo de areia coada de rio, bem como, em pequenas prateleiras dispostas convenientemente, pusesse frutas e gr\u00e3os variados, para seu verde amigo de penas.<\/p>\n<p>Para que se divertisse, Badinho tinha poleiros, al\u00e9m de um tronco de \u00e1rvore com alguns galhos que, instalado dentro do viveiro, permitia que ele subisse e descesse, se exercitando. A \u00e1gua, sempre fresca, era colocada em dois vasilhames de cer\u00e2mica, num dos quais a ave tomava demorados banhos, fizesse frio ou calor.<\/p>\n<p>Aos poucos, Dalva passou a ver o bicho como parte indispens\u00e1vel de sua vida, que ganhava um sentido perdido enquanto ia cuidando do animal.<\/p>\n<p>Ele divertia sua dona falando coisas engra\u00e7adas, cantando e mesmo produzindo sons sem nenhum sentido. A certa altura, Dalva descobriu, surpresa, que ele dera para imitar o apito do trem que parava a duas quadras de onde moravam, na esta\u00e7\u00e3o local. Era a conta do trem soar, e o papagaio, apoiado num dos galhos do tronco em seu viveiro, ressoava igual:<\/p>\n<p>\u2014 F\u00f3\u00f3\u00f3\u00f3\u00f3innnn&#8230;<\/p>\n<p>Dalva ca\u00eda na gargalhada, depois imitada por Badinho no mesmo tom.<\/p>\n<p>Houve uma ocasi\u00e3o em que, olhando pela janela lateral da casa, Dalva reparou que o c\u00e9u estava se fechando rapidamente, e pesadas nuvens amea\u00e7avam desabar um tor\u00f3 daqueles. Ela lembrou-se imediatamente da roupa na corda, e foi aos fundos da casa para recolh\u00ea-la. Antes, chegou perto do viveiro do papagaio:<\/p>\n<p>\u2014 Coitadinho do meu Badinho&#8230; Vai chover, e voc\u00ea vai ficar a\u00ed fora encolhidinho! Acho que vov\u00f3 vai pegar voc\u00ea e trazer aqui pra dentro. Voc\u00ea n\u00e3o foge?<\/p>\n<p>\u2014 AAAAh, coitadinho&#8230;, respondeu a ave.<\/p>\n<p>Ao voltar-se para pegar as pe\u00e7as no varal, Dalva pisou em algo de consist\u00eancia entre mole e arredondada. Olhou para baixo e, horrorizada, percebeu que havia sujado o p\u00e9 direito e o chinelo no sangue de uma rolinha com a cabe\u00e7a decepada. Teve nojo.<\/p>\n<p>Correu para o tanque e, tirando o chinelo, lavou a sola. Pensou em quem, ou no qu\u00ea, poderia ter feito aquilo com o pobre passarinho. Um gamb\u00e1? Um menino com bodoque? Antes mesmo de concluir a tarefa que a levara para o quintal, foi para dentro de casa, andando desajeitada, limpar o p\u00e9 no banheiro.<\/p>\n<p>Deu para aparecer por ali o Barnab\u00e9, um gato enorme, desses amarelos, que sempre vinha da casa da vizinha, Dona Isaura.<\/p>\n<p>Certa manh\u00e3, Dalva estava na cozinha, terminando de preparar o almo\u00e7o, e ouviu o louro dando uma sequ\u00eancia de gritos esgani\u00e7ados, completamente incomuns. Ela correu para acudi-lo no quintal e viu Barnab\u00e9 agarrado \u00e0 tela do viveiro, com suas unhas projetadas para fora, o pelo eri\u00e7ado, tentando, sem sucesso, enfiar uma das patas dianteiras pela trama fina da tela. Badinho agitava as asas e mais gritava.<\/p>\n<p>Dalva, branca de susto, correu para o viveiro gritando \u201cpsssit, saaaai, larga&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 Passa da\u00ed, seu fedorento, n\u00e3o v\u00e1 maltratar o meu Badinho.<\/p>\n<p>Barnab\u00e9 saiu em disparada, dando grandes pulos.<\/p>\n<p>Dali para a frente, foi um desassossego. Dalva foi conferir, depois que o gato fugira a pinote, se as telas de arame do viveiro estavam bem presas \u00e0 estrutura que lhe dava forma. Resolvera at\u00e9 chamar Cesinha, o faz-tudo que a ajudava com as manuten\u00e7\u00f5es que, vez em quando, a casa reclamava, para verificar se o ref\u00fagio da ave fora abalado pela for\u00e7a do gato, ou continuava seguro. Cesinha a tranquilizou.<\/p>\n<p>Passaram-se os dias sem nova visita do felino, mas Dalva, sempre sobressaltada, ia ao quintal toda hora, ao menor ru\u00eddo, ver se tudo corria bem com Badinho.<\/p>\n<p>Numa tardinha de muito calor, sentada na cadeirinha de vime do costume, \u00e0 sombra da mangueira, ao lado do viveiro de Badinho, Dalva, entre sonolenta e desligada, transitava os olhos por entre as linhas de um livro de Andr\u00e9 Luiz, enquanto os canarinhos amarelos ciscavam o milho picado que ela espalhara por ali.<\/p>\n<p>Badinho, em sil\u00eancio, estava no fundo do viveiro roendo um biscoito que, de quando em quando, molhava na \u00e1gua do mesmo vasilhame de cer\u00e2mica no qual tomava banho.<\/p>\n<p>De repente, surgindo n\u00e3o se sabe de onde, o gato Barnab\u00e9 avan\u00e7ou por sobre os passarinhos e, num bote certeiro, pegou um dos canarinhos e passou correndo entre as pernas de Dalva, com o pobrezinho se debatendo preso em sua boca, dando um salto enorme at\u00e9 desaparecer pelo muro que dava na casa da vizinha.<\/p>\n<p>Mal ela teve tempo de entender a cena, ainda gritou, desarvorada:<\/p>\n<p>\u2014 Ah, gato malvado, eras tu a atacar os passarinhos! Eu te esgano, hein&#8230; Voc\u00ea n\u00e3o venha aqui!<\/p>\n<p>Houve v\u00e1rios outros epis\u00f3dios em que Barnab\u00e9 fora um visitante inc\u00f4modo em sua casa, como numa vez em que Dalva foi pegar o regador de metal, que usava para molhar algumas plantinhas de uma horta, e havia xixi de gato nele, bem na al\u00e7a. Noutra, era a pr\u00f3pria horta que se encontrava revirada \u2014 o gato havia enterrado seu \u201ctesouro\u201d entre p\u00e9s de couve&#8230; E Dalva come\u00e7ou a se aborrecer. Afinal, seu bicho n\u00e3o incomodava ningu\u00e9m, n\u00e3o sa\u00eda do viveiro para atacar a outros, e sentia que o gato era um invasor de seus dom\u00ednios, um inc\u00f4modo, e lhe ocorreu que a vizinha poderia ter mais cuidado, procurando manter Barnab\u00e9 dentro de sua pr\u00f3pria casa.<\/p>\n<p>Isso foi se sucedendo at\u00e9 que, tomada de uma fatal resolu\u00e7\u00e3o, Dalva saiu de casa e foi bater na porta da vizinha, desenrolando-se o seguinte di\u00e1logo:<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o, Dona Dalva, tudo bem com a senhora?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o est\u00e1 nada bem, Dona Isaura. A senhora poderia ajudar a melhorar se fizesse o favor de prender seu bicho em casa. Ele vem sendo um inc\u00f4modo. Revira minha horta, suja minhas coisas, ataca os passarinhos no meu quintal e, um dia, at\u00e9 tentou pegar o meu louro.<\/p>\n<p>\u2014 Que bicho?<\/p>\n<p>\u2014 Por favor, a senhora n\u00e3o se fa\u00e7a de sonsa, \u00e9 aquele gato amarelo da sua casa.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, o Barnab\u00e9! Ele \u00e9 da minha filha Sueli. Mas eu n\u00e3o sou sonsa n\u00e3o, \u00e9 que a senhora me pegou desprevenida.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o a senhora fale para essa Sueli ter mais cuidado. Bicho se prende em casa, e n\u00e3o se tem para ficar dando inc\u00f4modo para os outros. Tem que ter educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu sei dar educa\u00e7\u00e3o para as minhas filhas, a senhora \u00e9 que est\u00e1 muito engra\u00e7adinha&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Engra\u00e7adinha uma ova!<\/p>\n<p>E aconteceu uma escalada na discuss\u00e3o entre as vizinhas, que passaram a gritar tanto uma com a outra, que at\u00e9 outras pessoas da vizinhan\u00e7a vieram \u00e0 janela ver o que se passava. Foram usados termos pesados, que n\u00e3o vem ao caso repetir. A pr\u00f3pria Sueli, suposta dona do gato, tomou parte da peleja e houve xingamentos m\u00fatuos. Um horror.<\/p>\n<p>Dias depois da discuss\u00e3o, Dalva ainda ficava com a pele do rosto rubra e o cora\u00e7\u00e3o batendo mais forte quando se lembrava da raiva que sentira de Sueli, de Dona Isaura, do gato e do fato de ter vizinhas t\u00e3o abusadas. Tomava caf\u00e9 da manh\u00e3 na mesa da cozinha e reparou que o papagaio, falante \u00e0quela hora, achava-se meio quieto. Estranhou e foi observar. J\u00e1 da porta da cozinha que dava para o quintal, seu cora\u00e7\u00e3o gelou, e teve a sensa\u00e7\u00e3o de haver ca\u00eddo por dentro. A portinhola do viveiro estava entreaberta. Teria sido ela a esquec\u00ea-la assim quando foi tratar dele de manh\u00e3 cedinho? Era poss\u00edvel que talvez, num descuido, n\u00e3o tivesse fechado bem a tramelinha met\u00e1lica que trancava, por fora, o acesso \u00e0 casa de Badinho.<\/p>\n<p>Ela entrou em desespero, pois o papagaio n\u00e3o estava l\u00e1 dentro. Teria fugido? O gato da vizinha dera cabo dele? Ela p\u00f4s-se a chorar e a gritar, lamentosa:<\/p>\n<p>\u2014 Badinho. Ah, meu Badinho, para onde foi voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>E chorava, chorava.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a procurar, pelo ch\u00e3o do quintal, algum ind\u00edcio de que pudesse ter sido atacado. Uma peninha solta, a pegada de um gato, mas n\u00e3o viu nada. Apenas reparou, a certa altura, que Barnab\u00e9 dormia, tranquilo, no muro de divisa entre os dois quintais, enrolado em si mesmo. Mas nada de Badinho.<\/p>\n<p>At\u00e9 que ouviu um grito caracter\u00edstico. E, em seguida, o som do apito do trem imitado por sua voz inconfund\u00edvel. E viu, entre incr\u00e9dula e aliviada, que Badinho se encontrava no telhado da casa, perto de um galho da mangueira que para ele avan\u00e7ava. E entendeu o quadro. Provavelmente, por descuido, ela deixara a porta do viveiro aberta. O papagaio, esperto, aproveitara para fugir e explorar o ambiente.<\/p>\n<p>O al\u00edvio durou uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, pois Dalva come\u00e7ou a se preocupar com que o papagaio fugisse e n\u00e3o voltasse, ou sofresse algum perigo. Barnab\u00e9 estava por perto. E come\u00e7ou a falar:<\/p>\n<p>\u2014 Vem aqui, Badinho, vem com a vov\u00f3. N\u00e3o foge n\u00e3o. Olha, vem c\u00e1, eu te dou biscoitinho.<\/p>\n<p>De cima do telhado, o papagaio, indiferente, taramelava, agitava as asinhas ao sol e, com o bico, co\u00e7ava as pr\u00f3prias penas.<\/p>\n<p>E a pobre Dalva insistia:<\/p>\n<p>\u2014 Vem, Badinho. Vem com a vov\u00f3, vem, meu bonzinho.<\/p>\n<p>E a ave olhou em sua dire\u00e7\u00e3o, armou um voo e veio pousar exatamente em seu ombro, deixando Dalva cheia de satisfa\u00e7\u00e3o e orgulho. Beijou-lhe a cabecinha, comovida pela fa\u00e7anha matinal do papagaio. Levou-o, com cuidado, para dentro do viveiro, onde ele mesmo galgou o tronco com galhos que lhe servia de brinquedo, e ficou l\u00e1, dizendo coisas incompreens\u00edveis, arrematadas por um AAAAh, coitadinho.<\/p>\n<p>Por dias, Dalva pensou que, talvez, se deixasse Badinho solto, ele poderia viver livre pelo quintal, subir e descer a grande mangueira, passear pelo telhado. Que era uma pena a pobre ave desperdi\u00e7ar sua vida num viveiro, pois, ainda que grande e confort\u00e1vel, ele fora feito para voar e ganhar os espa\u00e7os. Mas, apegada, teve medo. Principalmente de que Badinho, n\u00e3o acostumado a toda essa liberdade, pudesse se distrair e levar o bote de Barnab\u00e9, que n\u00e3o cessava de espreitar por ali, a despeito das solicita\u00e7\u00f5es feitas \u00e0s vizinhas.<\/p>\n<p>Seguiram os dias normalmente, Badinho em seu viveiro no quintal, a rotina da casa, eventuais visitas do gato, sempre enxotado, at\u00e9 que, semanas depois, algu\u00e9m bateu \u00e0 porta. Dalva foi ver. Eram dois homens de uniforme.<\/p>\n<p>\u2014 O que os senhores desejam?<\/p>\n<p>\u2014 Somos da Pol\u00edcia Ambiental, senhora, recebemos uma den\u00fancia que a senhora tem um animal silvestre em cativeiro, irregularmente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho nada silvestre, n\u00e3o, s\u00f3 o Badinho, meu papagaio.<\/p>\n<p>\u2014 Este mesmo. Precisamos entrar e verificar. A senhora permite?<\/p>\n<p>\u2014 Permito. Podem entrar, vou lev\u00e1-los no quintal e mostrar como ele vive.<\/p>\n<p>Inocentemente, Dalva franqueou a passagem aos homens da pol\u00edcia, que deixaram uma viatura estacionada em frente \u00e0 casa, com o girosc\u00f3pio ligado, e foram at\u00e9 o quintal seguindo a dona da casa.<\/p>\n<p>L\u00e1 chegando, olharam longamente o viveiro de Badinho, comentaram algo entre si, e, dirigindo-se a Dalva, decretaram:<\/p>\n<p>\u2014 Senhora, a manuten\u00e7\u00e3o deste animal aqui \u00e9 irregular. Vamos ter de autuar e recolh\u00ea-lo ao abrigo.<\/p>\n<p>\u2014 Recolher? Como assim, mo\u00e7o? O Badinho \u00e9 meu. Meu compadre Jorge \u00e9 que me deu.<\/p>\n<p>\u2014 Entendo, senhora, mas n\u00e3o pode. \u00c9 crime ambiental.<\/p>\n<p>\u2014 Crime? Como crime? Ele tem tudo de melhor. Come at\u00e9 talo de couve, fruta fresquinha. S\u00f3 n\u00e3o passeia fora do viveiro porque tenho medo do Barnab\u00e9, aquele malvado.<\/p>\n<p>\u2014 Senhora, \u00e9 contra a lei manter animais silvestres em cativeiro. Infelizmente teremos de levar ele embora.<\/p>\n<p>Dalva, aflita, entrou em desespero. Como levariam seu papagaio? E com ordem de quem?<\/p>\n<p>\u2014 Ai, mo\u00e7o, n\u00e3o fa\u00e7a isso, n\u00e3o. \u00c9 meu bichinho. Quem \u00e9 que mandou fazer isso?<\/p>\n<p>\u2014 Foi uma den\u00fancia, senhora, n\u00e3o tenho a informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea a\u00ed, mo\u00e7o, deve ter sido a Sueli ou a Isaura, aquelas diabas. Donas do gato.<\/p>\n<p>\u2014 Realmente n\u00e3o sei. Abra a gaiola, por favor. Sales, pode recolher o animal.<\/p>\n<p>O outro policial, subalterno, passou \u00e0 frente de Dalva e, mexendo na tramela, abriu a portinhola do viveiro. Badinho, assustado com os homens desconhecidos, agitou-se e, mal encontrou uma oportunidade, voou por sobre a cabe\u00e7a do policial e foi pousar no telhado, da mesma forma que fizera no outro dia.<\/p>\n<p>\u2014 Pronto, agora ele fugiu e n\u00e3o volta mais, dissimulou Dalva.<\/p>\n<p>Neste ponto, ouviu-se uma voz:<\/p>\n<p>\u2014 \u00d4, seu pol\u00edcia, \u00e9 s\u00f3 ela chamar que o papagaio vem, at\u00e9 pousa nela.<\/p>\n<p>Eram Dona Isaura e Sueli que, vendo o movimento, haviam subido em caixotes de seu lado do muro que dividia os quintais e, com as cabe\u00e7as \u00e0 mostra, observavam, indiscretas, a cena que se desenrolava na casa da vizinha.<\/p>\n<p>Dalva virou-se para elas:<\/p>\n<p>\u2014 Suas fofoqueiras, o que est\u00e3o fazendo a\u00ed? N\u00e3o t\u00eam o que fazer, n\u00e3o? V\u00e3o ca\u00e7ar servi\u00e7o, vagabundas.<\/p>\n<p>O policial subalterno virou-se para Dalva:<\/p>\n<p>\u2014 A senhora chama ele?<\/p>\n<p>\u2014 Chamo nada, elas s\u00e3o mentirosas, intriguentas. Ele fugiu, n\u00e3o tem rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>Mas o policial mais graduado falou ao inferior:<\/p>\n<p>\u2014 Sales, na viatura h\u00e1 uma escada e um pu\u00e7\u00e1. V\u00e1 buscar.<\/p>\n<p>Armou-se uma confus\u00e3o. Dalva segurou-se ao subalterno.<\/p>\n<p>\u2014 Vai buscar escada nenhuma, deixa meu papagaio.<\/p>\n<p>\u2014 Senhora, estamos apenas realizando nosso trabalho. N\u00e3o somos n\u00f3s que fizemos a lei, queira largar-me, por favor.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas n\u00e3o podiam nem entrar na minha casa sem ordem de juiz.<\/p>\n<p>\u2014 Senhora, foi a senhora que abriu a porta e nos permitiu entrar. Sales, v\u00e1 buscar o pu\u00e7\u00e1. Pe\u00e7o que a senhora se contenha.<\/p>\n<p>Enquanto o policial se desvencilhou de Dalva e foi ao carro cumprir a ordem, ela se voltou ao papagaio.<\/p>\n<p>\u2014 Foge, Badinho, n\u00e3o fica a\u00ed, n\u00e3o, o mo\u00e7o vai te pegar.<\/p>\n<p>Percebendo a agita\u00e7\u00e3o, Badinho batia as asas e taramelava forte, o bico estava aberto e agressivo. As vizinhas, fofoqueiras, entre interessadas e vitoriosas, ainda assistiam \u00e0 cena de seu lado do muro.<\/p>\n<p>O policial que ficara mexia numa grande prancheta, preenchendo um formul\u00e1rio. Dalva chegou perto dele.<\/p>\n<p>\u2014 Coloca a\u00ed nesse papel que o papagaio \u00e9 bem tratado, mo\u00e7o. E deixa ele aqui comigo. Isso \u00e9 intriga dessas desocupadas.<\/p>\n<p>O militar, impass\u00edvel, continuava concentrado no papel.<\/p>\n<p>Enquanto isso, com destreza, o outro policial j\u00e1 esticara a escada de alum\u00ednio at\u00e9 o telhado, e, vagarosamente, subira com o pu\u00e7\u00e1 preso ao cinto. Mas, pressentindo a aproxima\u00e7\u00e3o do homem, Badinho se deslocara para o outro lado, inating\u00edvel por aquele \u00e2ngulo, e subira no galho da mangueira.<\/p>\n<p>\u2014 Sales, ele veio para a \u00e1rvore.<\/p>\n<p>\u2014 Diz pra ela chamar o bicho, mo\u00e7o, ele desce, interveio Sueli, de intrometida.<\/p>\n<p>\u2014 Cala a boca, sua diaba, vai procurar o que fazer. Para de olhar minha casa.<\/p>\n<p>Sales deslocara a escada em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mangueira, mas Badinho, livre e maroto, j\u00e1 havia se movido novamente para o telhado.<\/p>\n<p>\u2014 Olha l\u00e1, seu pol\u00edcia, o papagaio voltando pro telhado, advertiu Dona Isaura.<\/p>\n<p>Dalva ficou transtornada, pegou um punhado de areia leve no fundo do viveiro e arremessou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s vizinhas, atingidas em cheio nos olhos.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e3o aprender a n\u00e3o bisbilhotar na minha casa, suas raparigas.<\/p>\n<p>O policial mais graduado foi em dire\u00e7\u00e3o a Dalva e procurou cont\u00ea-la. Vendo de longe a cena, Badinho, em voo rasante, veio direto sobre a cabe\u00e7a do militar, gritando e bicando-o, fazendo um ru\u00eddo agudo e amea\u00e7ador, como a defender sua dona.<\/p>\n<p>O homem se defendeu com o bra\u00e7o, ao mesmo tempo em que tentava capturar a ave. Levou uma bicada.<\/p>\n<p>\u2014 Sales, o pu\u00e7\u00e1!<\/p>\n<p>Mas o subalterno, desajeitado, deixara cair o instrumento no ch\u00e3o, e Dalva, num \u00e1timo, chutara-o para longe, levando o outro militar a tentar cont\u00ea-la de novo.<\/p>\n<p>\u2014 Por favor, senhora, n\u00e3o fa\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>O papagaio, agitado, gritava, agora pousado no ombro de Dalva. Respirava r\u00e1pido, e seu peito enchia e esvaziava de uma forma esquisita. Dalva foi lev\u00e1-lo em dire\u00e7\u00e3o ao viveiro, quando o policial graduado, num gesto r\u00e1pido, pousou a m\u00e3o sobre ele. No entanto, Badinho se esquivou, e abriu as asas, bem esticadas, dando tempo para Dalva desviar-se. E mais ele gritava.<\/p>\n<p>O subalterno veio pelas costas de Dalva e, num segundo, jogou o pu\u00e7\u00e1 por sobre o papagaio, que foi capturado. A mulher jogou-se em cima dele.<\/p>\n<p>\u2014 Devolve meu bicho, seu malvado.<\/p>\n<p>Mas foi contida pelo militar mais graduado, que a segurou pelo bra\u00e7o, enquanto o outro levava Badinho, que gritava esgani\u00e7ado, para dentro da viatura.<\/p>\n<p>As vizinhas j\u00e1 haviam reaparecido com as cabecinhas intrometidas sobre o muro e continuavam a acompanhar a cena.<\/p>\n<p>O papagaio foi acondicionado dentro de uma pequena gaiola, respirando a longos haustos, assustado. Fazia calor. Fechada a porta de tr\u00e1s do ve\u00edculo, tudo ficou escuro, e o policial que o levara voltou para dentro, a fim de assistir ao outro que terminava a preencher o formul\u00e1rio da ocorr\u00eancia, que Dalva se negava a assinar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o assino nada, n\u00e3o me conformo. Voc\u00eas v\u00e3o me pagar, dizia a dona da casa. E, dirigindo-se \u00e0s vizinhas que assistiam \u00e0 cena brutal, vaticinava:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas tamb\u00e9m, suas fofoqueiras. H\u00e3o de se ver comigo.<\/p>\n<p>Maquinalmente, o militar com a prancheta em m\u00e3os repetia que era seu servi\u00e7o, que sentia muito, mas nada podia fazer.<\/p>\n<p>Dalva soltava amargas l\u00e1grimas pelos olhos, n\u00e3o sabendo o que faria sem seu papagaio. Um calor lhe subiu no peito, a boca amargou, a vis\u00e3o se obscureceu e, sentindo um leve torpor e uma dorm\u00eancia que lhe alastrava pelo bra\u00e7o esquerdo, come\u00e7ou a perder os sentidos, tombando ao ch\u00e3o do quintal.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, no interior escuro da viatura, ca\u00eddo no fundo da gaiolinha, Badinho dava os \u00faltimos suspiros e morria vencido pela exaust\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta hist\u00f3ria aconteceu num sub\u00farbio carioca, h\u00e1 coisa de uns vinte anos mais ou menos, e j\u00e1 n\u00e3o encontro ningu\u00e9m que lhe possa atestar a veracidade, tampouco dizer que \u00e9 mentira. Pois, assim, vai relatada com o maior n\u00famero de detalhes que possa lembrar. Ocorreu que uma senhora, de nome Dalva, morava numa casa antiga [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":366570,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-366569","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/366569","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=366569"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/366569\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":366658,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/366569\/revisions\/366658"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/366570"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=366569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=366569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=366569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}