{"id":366574,"date":"2025-10-10T01:15:04","date_gmt":"2025-10-10T04:15:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=366574"},"modified":"2025-10-07T14:39:45","modified_gmt":"2025-10-07T17:39:45","slug":"uma-cerveja-um-sogro-e-um-acerto-de-contas-com-o-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/uma-cerveja-um-sogro-e-um-acerto-de-contas-com-o-tempo\/","title":{"rendered":"Uma cerveja, um sogro e um acerto de contas com o tempo"},"content":{"rendered":"<p>Fim de tarde, numa rua agitada da zona sul do Rio de Janeiro, \u00c9rico estava aguardando, na sala de espera, a sess\u00e3o de terapia que h\u00e1 alguns meses frequentava semanalmente.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o era um consult\u00f3rio modesto, quadros de paisagens tranquilas enfeitavam as paredes. A luz suave que vinha pela janela, pouco antes do p\u00f4r do sol, iluminava o rosto de sua terapeuta, Laura.<\/p>\n<p>A cada encontro, \u00c9rico trazia nas conversas terap\u00eauticas situa\u00e7\u00f5es de sua rotina. A terapeuta conversava sobre seu passado e hist\u00f3rias de outrora, mas o foco era no momento presente, a vida hoje. O que ele fazia, quem eram seus amigos, os personagens de sua fam\u00edlia, seus horizontes e desejos de agora. Embora acreditasse que as experi\u00eancias interessantes e alegres fossem coisas do passado, em seus encontros com Laura percebia que sua vida n\u00e3o era t\u00e3o parada e sem novidades como ele sentia.<\/p>\n<p>\u2014 Oi, \u00c9rico, como foi a semana?<\/p>\n<p>\u2014 Laura, esta semana n\u00e3o fiz nada interessante, nem meus filmes ando com paci\u00eancia pra assistir, parece que faltam novidades, sempre os mesmos temas, as mesmas hist\u00f3rias&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s vezes voc\u00ea n\u00e3o percebe as coisas legais que faz durante sua semana. Lembra daquela vez que foi no hortifruti e reencontrou um amigo de anos? \u00c9 no dia a dia que coisas legais acontecem. Me conta como foi a visita da sua filha, genro e netinha no domingo passado. Voc\u00ea estava na expectativa, ent\u00e3o, como foi?<\/p>\n<p>\u2014 Eita, que j\u00e1 tinha me esquecido disso&#8230; foi um fiasco! Ultimamente, sempre que nos encontramos, vejo minha filha maltratando o marido. Sempre impaciente, dando patadas nele por qualquer coisa. Voc\u00ea acredita que ele estava l\u00e1, escolhendo o card\u00e1pio, e ela falou: \u201cAnda logo, at\u00e9 pra escolher uma comida \u00e9 dif\u00edcil!\u201d Ficamos todos com cara de tacho na mesa e ele, sem nada dizer, escolheu algo qualquer e ficou murcho o almo\u00e7o todo. Eu a vejo maltratando-o sempre, \u00e0s vezes olho para minha filha e lembro da m\u00e3e dela&#8230; vendo-a sobrecarregada com o trabalho, fam\u00edlia, vida&#8230; ela \u00e9 a for\u00e7a da casa, o centro de tudo! Percebo que ela est\u00e1 de saco cheio, que est\u00e1 muito infeliz. Descuidou-se muito nos \u00faltimos anos, parece mais velha do que \u00e9! Sempre cansada, estressada&#8230; \u00c9 muito doloroso para um pai ver sua filha viver dessa forma. Penso em chamar ela para conversar e dizer que n\u00e3o \u00e9 assim que se deve tratar seu marido, v\u00e3o acabar se separando, e tem a pequena crescendo e vendo isso tudo.<\/p>\n<p>Laura ouvia atentamente, observando como \u00c9rico estava receptivo, e pontuou:<\/p>\n<p>\u2014 O que a vida de sua filha hoje te faz lembrar da sua esposa, \u00c9rico?<\/p>\n<p>Ele, um tanto sem jeito, relatou que, a seu ver, o genro \u00e9 o reflexo do homem que um dia ele fora. Amava sua fam\u00edlia, por\u00e9m era pouco participativo nas dificuldades do cotidiano e compromissos do lar, n\u00e3o cumpria os combinados, colaborava pouco, o que afetava diretamente a sua esposa, sobrecarregando-a.<\/p>\n<p>\u2014 Eu poderia ter sido muito melhor para minha esposa, para minha fam\u00edlia, ter sido ativamente presente. Quando ela me cobrava coisas que nem deveriam ser cobradas de um pai de fam\u00edlia, eu desdenhava de suas queixas, me afastava dela&#8230; Fui ego\u00edsta, n\u00e3o era parceiro dentro de casa. Sempre tinha alguma coisa pra fazer: li\u00e7\u00f5es da escola, casa bagun\u00e7ada, mercado&#8230; Ela sempre chamava minha aten\u00e7\u00e3o, ralhava, as discuss\u00f5es tornaram-se frequentes&#8230; Depois de um tempo parou de questionar e me deixou de lado. Ela merecia muito mais do que eu ofereci! Hoje me sinto culpado, n\u00e3o tinha a maturidade e o conhecimento de hoje.<\/p>\n<p>O relato de \u00c9rico sobre uma vida, que j\u00e1 era passada, pulsava dentro da hist\u00f3ria de sua filha no presente. A rela\u00e7\u00e3o dela com o marido, marcada por farpas e desentendimentos, eram vistas e sentidas pelo pai. Ele sentia tristeza de ver que o mesmo ciclo de dor, que sua esposa viveu com ele, se repetia na vida de sua filha.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, \u00c9rico, quando os cuidados e emerg\u00eancias do lar caem em cima de uma \u00fanica pessoa, a cabe\u00e7a fica a mil e o corpo n\u00e3o acompanha o estresse. Essa carga mental drena o desejo e admira\u00e7\u00e3o pelo outro. Quando o cotidiano pesa em um s\u00f3, a admira\u00e7\u00e3o e o carinho diminuem. Se o parceiro que escolhemos para dividir a vida se torna um dependente a mais, sem a necessidade de ser, a vida vira fadiga, sendo inevit\u00e1vel as m\u00e1goas na rela\u00e7\u00e3o. Carregar o teto do nosso lar na cabe\u00e7a sem coopera\u00e7\u00e3o, quando n\u00e3o estamos sozinhos, faz a vida a dois ser injusta, o pre\u00e7o fica alto.<\/p>\n<p>Ao sair da sess\u00e3o, estava quente, um in\u00edcio de noite agrad\u00e1vel. \u00c9rico, n\u00e3o queria ir para casa t\u00e3o cedo. Ligou para seu genro:<\/p>\n<p>\u2014 Meu querido, sei que j\u00e1, j\u00e1 voc\u00ea deve sair do trabalho. Aceita doar uma hora do seu tempo, tomar uma cervejinha e bater um papo com seu velho sogro?<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fabiana Saka (@fabianasaka), escritora e psic\u00f3loga cl\u00ednica no Rio de Janeiro, \u00e9 autora de \u201cAs Aventuras de Daniel \u2013 n\u00e3o tenha medo de si mesmo\u201d (Ed. Ases da Literatura, 2024).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fim de tarde, numa rua agitada da zona sul do Rio de Janeiro, \u00c9rico estava aguardando, na sala de espera, a sess\u00e3o de terapia que h\u00e1 alguns meses frequentava semanalmente. O espa\u00e7o era um consult\u00f3rio modesto, quadros de paisagens tranquilas enfeitavam as paredes. 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