{"id":367014,"date":"2025-10-12T01:15:41","date_gmt":"2025-10-12T04:15:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=367014"},"modified":"2025-10-11T10:40:38","modified_gmt":"2025-10-11T13:40:38","slug":"oswald-de-andrade-genio-rebelde-e-chato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/oswald-de-andrade-genio-rebelde-e-chato\/","title":{"rendered":"Oswald de Andrade, g\u00eanio, rebelde e&#8230; chato"},"content":{"rendered":"<p>Muito j\u00e1 foi dito e \u00e9 conhecido sobre Jos\u00e9 Oswald de Sousa de Andrade, paulista, nascido em 11 de janeiro de 1890. Um dos fundadores do modernismo brasileiro, figura importante na poesia, no teatro e na prosa, foi preso treze vezes, casou-se cinco, tendo entre suas esposas Tarsila do Amaral e Pagu, e foi pai de quatro filhos.<\/p>\n<p>Foi um personagem cuja genialidade liter\u00e1ria dividia espa\u00e7o com uma vida marcada por contradi\u00e7\u00f5es e excessos. Herdeiro de uma fam\u00edlia abastada, formou-se em Direito, mas nunca exerceu a profiss\u00e3o. Preferiu dedicar-se \u00e0 boemia, \u00e0s viagens e \u00e0 escrita, sempre movido por uma inquieta\u00e7\u00e3o intelectual que o colocava em constante conflito com o meio em que vivia. Amava provocar. Sua pena foi arma de guerra contra o conservadorismo liter\u00e1rio, mas tamb\u00e9m contra os pr\u00f3prios colegas modernistas quando julgava que haviam se desviado do esp\u00edrito de ruptura. Oswald fazia da pol\u00eamica um m\u00e9todo e, da ironia, uma forma de express\u00e3o filos\u00f3fica.<\/p>\n<p>Considerava-se ocupante da primeira posi\u00e7\u00e3o na literatura nacional. Por tr\u00e1s da imagem p\u00fablica de vanguarda, havia um homem de temperamento inst\u00e1vel, muitas vezes arrogante e contradit\u00f3rio. Era capaz de defender ideias marxistas enquanto mantinha h\u00e1bitos de elite. Criticava o academicismo, mas buscou reconhecimento institucional na Academia Brasileira de Letras, para a qual se candidatou em 1940, laureado com apenas um voto, dado por Cassiano Ricardo, a quem considerava um dos maiores poetas do Brasil, ao lado de Drummond. J\u00e1 Manuel Bandeira era, para ele, um chato que fizera seis poemas muito bons e, depois, montou e seguiu cavalgando em cima deles, enquanto Cec\u00edlia Meireles era autora de livros que sequer deveriam ter sido publicados, assim como os de Nelson Rodrigues, a quem chamava de teatr\u00f3logo analfabeto.<\/p>\n<p>Dizia que, no Brasil, havia romances, mas n\u00e3o romancistas, pois n\u00e3o via regularidade na qualidade das obras liter\u00e1rias. Esta qualidade atribu\u00eda a obras como S. Bernardo, de Graciliano Ramos, Jubiab\u00e1, de Jorge Amado, e Marafa, de Marques Rebelo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s vezes, surgem livros formid\u00e1veis, que a gente jura n\u00e3o ter sido escrito pelos autores, muitas vezes uns calhord\u00f5es.<\/p>\n<p>Suas constantes brigas afastaram amigos e parceiros intelectuais. Mesmo M\u00e1rio de Andrade, com quem partilhou o n\u00facleo inicial do modernismo, distanciou-se ap\u00f3s desentendimentos ideol\u00f3gicos e pessoais. Essa mesma intensidade o levou a rompimentos passionais e a crises financeiras frequentes, que contrastavam com o brilho de sua figura p\u00fablica.<\/p>\n<p>Simpatizou com o comunismo e chegou a filiar-se ao Partido Comunista Brasileiro na d\u00e9cada de 1930, mas logo se desiludiu com a rigidez partid\u00e1ria. Sua ades\u00e3o parecia mais est\u00e9tica do que doutrin\u00e1ria: via no marxismo uma extens\u00e3o do gesto antropof\u00e1gico, a possibilidade de &#8220;devorar&#8221; o capitalismo e reinventar o Brasil. Contudo, sua atua\u00e7\u00e3o foi criticada por militantes e intelectuais de esquerda, que o viam como um burgu\u00eas exc\u00eantrico e pouco comprometido com as lutas sociais reais. Essa ambiguidade o isolou tanto da elite conservadora quanto dos c\u00edrculos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos de vida, Oswald de Andrade mergulhou em reflex\u00f5es filos\u00f3ficas e espirituais, buscando sentido num mundo que j\u00e1 n\u00e3o respondia ao seu \u00edmpeto iconoclasta.<\/p>\n<p>Polemista implac\u00e1vel, cr\u00edtico mordaz dos contempor\u00e2neos, no final declarou que a vida era devora\u00e7\u00e3o pura, e s\u00f3 havia uma conduta a seguir, o estoicismo. Segundo ele, a devora\u00e7\u00e3o presidira a vida das sociedades primitivas, muito superiores \u00e0s ditas civilizadas, que se serviram do messianismo para estabelecer a servid\u00e3o de corpos e esp\u00edritos, al\u00e9m de ilus\u00f5es de toda esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Quando completou 60 anos, declarou-se \u201csex-appeal-agen\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Morreu aos 64, no dia 22 de outubro de 1954, amado e odiado, admirado e ridicularizado, mas nunca ignorado. Sua \u201cantropofagia\u201d, mais que um manifesto liter\u00e1rio, permanece como s\u00edmbolo do desejo de o Brasil devorar o mundo para reinventar-se.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/p>\n<p><strong>Cassiano Cond\u00e9, 82, ga\u00facho, deixou de teclar reportagens nas reda\u00e7\u00f5es por onde passou. Agora finca os p\u00e9s nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai p\u00e9rolas que se transformam em cr\u00f4nicas.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito j\u00e1 foi dito e \u00e9 conhecido sobre Jos\u00e9 Oswald de Sousa de Andrade, paulista, nascido em 11 de janeiro de 1890. 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