{"id":367084,"date":"2025-10-14T00:30:44","date_gmt":"2025-10-14T03:30:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=367084"},"modified":"2025-10-12T08:45:59","modified_gmt":"2025-10-12T11:45:59","slug":"pedrinho-o-touro-miura-de-niteroi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pedrinho-o-touro-miura-de-niteroi\/","title":{"rendered":"Pedrinho, o touro mi\u00fara de Niter\u00f3i"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o foi num domingo, logo depois da missa, ou haveria mais gente indo pra casa, testemunhas do acontecido. Foi antes, em alguma hora profana. E talvez nem tenha sido num domingo, h\u00e1 seis chances em sete contra essa possibilidade.<\/p>\n<p>O que se sabe com certeza \u00e9 que foi em Niter\u00f3i, no bairro de Santa Rosa, na rua Professor Miguel Couto, no quarteir\u00e3o em que se encontra a igrejinha de Santana, quase na esquina com a Est\u00e1cio. Isso, na \u00e9poca, final dos anos 1950. Hoje, a avenida Est\u00e1cio de S\u00e1 chama-se avenida Roberto Silveira, e a Miguel Couto, cheia de restaurantes e bares da moda, foi incorporada ao elegante bairro litor\u00e2neo de Icara\u00ed. Quest\u00e3o de status.<\/p>\n<p>A arena estava montada. Na cal\u00e7ada da igrejinha, seguindo para a Est\u00e1cio, caminhavam duas mulheres, uma senhora e uma jovem, provavelmente sua neta. Perto da cal\u00e7ada oposta \u2013 n\u00e3o, no meio da rua \u2013, bufando que nem um touro Mi\u00fara, vinha Pedrinho, pedalando velozmente sua Monark.<\/p>\n<p>N\u00e3o era uma magrela de corrida, cheia de marchas intrincadas, e sim uma bicicleta de freio contrapedal. E Pedrinho n\u00e3o era um atleta do ciclismo ou de qualquer outro esporte, e sim um menino gordinho, de dez anos. N\u00e3o ia r\u00e1pido demais, corria como o fazem os garotos de sua idade, desde que tenham a sorte de possuir uma bicicleta. N\u00e3o prestava aten\u00e7\u00e3o a coisa alguma, moleques de 10 anos em geral s\u00e3o desatentos e entregues a devaneios. Talvez pensasse na sele\u00e7\u00e3o de 1958, campe\u00e3 do mundo, talvez sonhasse com Garrincha, joia de seu Botafogo, n\u00e3o d\u00e1 pra saber.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que Pedrinho\/Mi\u00fara, sem que soubesse como nem por qu\u00ea, aproximou-se cada vez mais da cal\u00e7ada oposta, perdeu o controle da Monark, n\u00e3o conseguiu pisar no freio, subiu pela cal\u00e7ada e atingiu em cheio a senhora, lan\u00e7ando-a no ch\u00e3o. O sangue manchou a cal\u00e7ada. Apavorado, \u00e0 beira das l\u00e1grimas, Pedrinho pronunciou a frase mais est\u00fapida de sua vida.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o foi minha culpa!<\/p>\n<p>Claro que tinha sido culpa dele, de quem mais seria? A senhora n\u00e3o havia se lan\u00e7ado pela arena como uma intr\u00e9pida toureira, para enfrentar o touro sobre duas rodas. Culpa dele, sim. N\u00e3o por um ato deliberado, n\u00e3o era um psicopata, mas por uma demonstra\u00e7\u00e3o de imprud\u00eancia, imper\u00edcia, por uma brincadeira de mau gosto dos deuses, o escambau. A jovem olhou-o com desprezo e rosnou:<\/p>\n<p>&#8211; Some daqui, menino, ou te cubro de porrada!<\/p>\n<p>Pedrinho levantou do ch\u00e3o a bicicleta semidestro\u00e7ada e, afastando-se da Est\u00e1cio, desceu a Miguel Couto sem olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o veio a culpa, avassaladora. \u201cA velha n\u00e3o vai andar nunca mais, vai pra cadeira de rodas\u201d, pensava o tempo todo. Comprou jornais em busca de alguma not\u00edcia do atropelamento, nada. Passou a conviver com a culpa, a arrast\u00e1-la consigo. Aos 10 anos, tornou-se um garoto mais quieto, sua vida ficou menos luminosa. A fam\u00edlia gostou da mudan\u00e7a de comportamento, sem perceber a carga colossal que era levada pelo menino.<\/p>\n<p>O tempo passou. Pedrinho, agora Pedro, estava com 22 anos e cursava Direito. A formatura seria no ano seguinte. Come\u00e7ou a namorar Rosaura, uma lourinha de 19 anos. Virgem, mas com os horm\u00f4nios em ebuli\u00e7\u00e3o, doidinha para se entregar nos bra\u00e7os de seu amado. Antes que o inevit\u00e1vel acontecesse, por\u00e9m, ela o levou para conhecer sua fam\u00edlia, talvez anunciassem ali mesmo o noivado.<\/p>\n<p>Era uma fam\u00edlia de mulheres, av\u00f3, m\u00e3e, irm\u00e3 e sua amada.<\/p>\n<p>&#8211; Pedro, essa \u00e9 minha m\u00e3e, dona Roseli.<\/p>\n<p>&#8211; Muito prazer, senhora.<\/p>\n<p>&#8211; E essa \u00e9 minha irm\u00e3, Rosa.<\/p>\n<p>O rapaz viu uma mulher que lhe pareceu estranhamente familiar. Sentiu um frio na barriga, \u00e2nsia de v\u00f4mito, n\u00e3o sabia por qu\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211; E essa \u00e9 minha av\u00f3, dona Rosalina.<\/p>\n<p>Pedro deparou-se com uma senhora risonha, que caminhava com alguma dificuldade, apoiada em uma bengala. Ele a reconheceu de imediato: era a v\u00edtima da tourada na Miguel Couto. A custo, balbuciou \u201cMuito prazer\u201d, enquanto pensava, \u201cPelo menos anda, escapou da cadeira de rodas\u201d.<\/p>\n<p>O resto da visita foi um pesadelo. Ele s\u00f3 falava quando lhe perguntavam diretamente alguma coisa \u2013 e ent\u00e3o respondia qualquer absurdo. Os familiares de Rosaura se entreolhavam, achando esquisito aquele namorado da filha ca\u00e7ula, que pena, um rapaz com um belo futuro. Uns 20 minutos depois, Pedro alegou uma indisposi\u00e7\u00e3o s\u00fabita e foi embora. Rosaura o acompanhou at\u00e9 o port\u00e3o, ele se despediu com um beijo frio na testa.<\/p>\n<p>Dias depois, terminou com a mo\u00e7a. Sem explica\u00e7\u00f5es. Ela chorou, perguntou se havia outra, ele negava e repetia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 voc\u00ea, sou eu.<\/p>\n<p>S\u00f3 que havia outra, sim. Uma constru\u00e7\u00e3o disforme e pegajosa de seu psiquismo, que se tornara sua companheira insepar\u00e1vel e continuaria a s\u00ea-lo pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos. Que culpas silenciadas n\u00e3o descem do lombo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o foi num domingo, logo depois da missa, ou haveria mais gente indo pra casa, testemunhas do acontecido. Foi antes, em alguma hora profana. E talvez nem tenha sido num domingo, h\u00e1 seis chances em sete contra essa possibilidade. O que se sabe com certeza \u00e9 que foi em Niter\u00f3i, no bairro de Santa Rosa, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":367085,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-367084","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367084","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=367084"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367084\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":367086,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367084\/revisions\/367086"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/367085"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=367084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=367084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=367084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}