{"id":367309,"date":"2025-10-15T00:15:48","date_gmt":"2025-10-15T03:15:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=367309"},"modified":"2025-10-14T17:18:20","modified_gmt":"2025-10-14T20:18:20","slug":"o-trinomio-narrador-personagem-narratario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-trinomio-narrador-personagem-narratario\/","title":{"rendered":"O trin\u00f4mio narrador-personagem-narrat\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>Ao perguntarmos quem \u00e9 o ser que narra uma hist\u00f3ria escrita, a resposta \u00f3bvia \u00e9 dizer que \u00e9 um \u201ceu\u201d que o faz. No entanto, identificar as representa\u00e7\u00f5es envolvidas num determinado contexto narrativo demanda um esfor\u00e7o de an\u00e1lise. A narrativa em primeira pessoa \u00e9 algo inerente \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o cognitiva infantil operacionalmente concreta. No entanto, a narrativa em primeira pessoa, para efeitos da an\u00e1lise do texto liter\u00e1rio contempor\u00e2neo, demanda abstra\u00e7\u00f5es em torno da diferencia\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o entre autor e narrador.<\/p>\n<p>A perspectiva do narrador personagem \u00e9 de dentro da hist\u00f3ria. Participa de seu enredo como protagonista ou coadjuvante, usando os pronomes \u2012 eu ou n\u00f3s \u2012 para narrar.<\/p>\n<p>Quando um autor publica um texto narrativo usando o pronome eu, ocorre dos leitores suspeitarem de que a hist\u00f3ria \u00e9 ver\u00eddica. Se a tem\u00e1tica \u00e9 contempor\u00e2nea e se o narrador \u00e9 onisciente, isso far\u00e1 o leitor supor que o texto \u00e9 autobiogr\u00e1fico. O vi\u00e9s recorrente \u00e9 a leitura de mundo que os autores expressam na constru\u00e7\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o sob a pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o do momento social. Ora, o que \u00e9 vivido coletivamente no cotidiano \u00e9 chamado de realidade. No entanto, a narrativa representa a realidade, n\u00e3o sendo id\u00eantica a ela.<\/p>\n<p>\u00c9 contempor\u00e2neo pressupor que o lugar narrativo (de onde e de quem parte a hist\u00f3ria narrada) \u00e9 mais apelativo do que o conte\u00fado aned\u00f3tico daquilo que \u00e9 exposto, descrito, narrado. Atualmente livros de autoajuda se tornam \u201cbest sellers\u201d e seus autores se destacam em modalidades s\u00f3cio profissionais diferentes da de escritor. Ou seja, autor e narrador se fundem de tal forma a confundir o aprendiz de literatura na distin\u00e7\u00e3o entre ambos.<\/p>\n<p>Quando exponho um texto narrativo de minha autoria, usando o pronome eu, ocorre dos ouvintes perguntarem se \u00e9 ver\u00eddica. A distin\u00e7\u00e3o entre os pap\u00e9is de autora e o de narradora \u00e9 constru\u00edda no texto de forma revelar se a diferencia\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida ou se, ao contr\u00e1rio, se trata de uma narrativa autobiogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>A terceira op\u00e7\u00e3o \u00e9 criar um narrador com condi\u00e7\u00f5es para construir uma narrativa que instale essa d\u00favida no leitor, fazendo disso material est\u00e9tico. Na literatura brasileira do s\u00e9culo XIX, a ap\u00f3strofe \u201ccaro leitor\u201d, marca do contista brasileiro Machado de Assis, configura a exist\u00eancia de um narrat\u00e1rio ou substituto do leitor no pr\u00f3prio texto. Esse complementar do narrador \u2013 t\u00edpico dos romancistas vitorianos \u2013 \u00e9 um \u201cartif\u00edcio ret\u00f3rico, uma forma de controlar e complicar as respostas do leitor real, que permanece fora do texto.\u201d (LODGE, David. A Arte da Fic\u00e7\u00e3o. Trad. Bras. Porto Alegre: L&amp; PM Pocket, 2011. P. 90).<\/p>\n<p>Tal foco narrativo enriqueceria as possibilidades de o texto dialogar com o leitor? O jogo texto e leitor (criado pelo autor) facultaria o di\u00e1logo entre a d\u00edade: narrador &#8211; leitor? Esse narrador \u2013 personagem &#8211; narrat\u00e1rio espelharia o culto \u00e0 pr\u00f3pria imagem e aos valores estabelecidos culturalmente? Ou envolveria for\u00e7as diferentes em confronto e que gerariam conflito e seus desdobramentos narrativos?<\/p>\n<p>Para o trin\u00f4mio narrador-personagem-narrat\u00e1rio, destaco a quest\u00e3o: a narrativa envolve duas individualidades conscientes de sua distin\u00e7\u00e3o num ato de comunica\u00e7\u00e3o escrita? Ou o narrador e o leitor se diluem, derrocando o protagonismo e a identifica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>O protagonismo difere do estado de meras identifica\u00e7\u00f5es e galga o patamar da identidade. O termo protagonista origina-se da trag\u00e9dia grega e tem como sentido etimol\u00f3gico o primeiro combatente, ou seja, o her\u00f3i possuidor de caracter\u00edsticas humanas e divinas que luta contra o destino (des\u00edgnios dos deuses), por meio da vontade pr\u00f3pria e do ato espont\u00e2neo.<\/p>\n<p>O termo espontaneidade, utilizado por Moreno, tem sua raiz etimol\u00f3gica em sponte, que vem a ser vontade pr\u00f3pria. Moreno resgatou o sentido m\u00edtico-tr\u00e1gico para o filos\u00f3fico cient\u00edfico do her\u00f3i que \u00e9 porta-voz da ra\u00e7a humana. O protagonismo \u00e9 a condensa\u00e7\u00e3o inconsciente dos desejos da coletividade, ou seja, tem sua origem num inconsciente compartilhado, formado por hist\u00f3rias plurais e pr\u00e9-hist\u00f3rias m\u00faltiplas.<\/p>\n<p>O estado de espontaneidade depende da capacidade de inverter papeis: \u00e9 relacional e dial\u00f3gico, possibilita o encontro consigo mesmo e com o outro. O encontro \u00e9 algo atual: um evento que acontece na presen\u00e7a, na rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso da literatura, o encontro se d\u00e1 entre leitor e texto. A rela\u00e7\u00e3o entre ambos abre a possibilidade da lat\u00eancia e possibilita um encontro dial\u00f3gico sempre novo. Frente \u00e0s considera\u00e7\u00f5es anteriores e retomando a quest\u00e3o inicial aventada \u2013 quem \u00e9 o ser que narra uma hist\u00f3ria escrita? \u2013 concluo que o autor de uma narrativa liter\u00e1ria dial\u00f3gica cria, no momento de sua elabora\u00e7\u00e3o, um ser narrativo potencialmente provedor de protagonismo, de espontaneidade, de di\u00e1logo, de identidade. Em oposi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 outras narrativas escritas que se isentam daquele compromisso e permanecem monol\u00f3gicas.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/strong><\/p>\n<p><strong>Edna Domenica &#8211; DE QUE S\u00c3O FEITAS AS HIST\u00d3RIAS &#8211; 2014 &#8211; Pp 89-92 &#8211; (ISBN 978-85-62598-36-4)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao perguntarmos quem \u00e9 o ser que narra uma hist\u00f3ria escrita, a resposta \u00f3bvia \u00e9 dizer que \u00e9 um \u201ceu\u201d que o faz. No entanto, identificar as representa\u00e7\u00f5es envolvidas num determinado contexto narrativo demanda um esfor\u00e7o de an\u00e1lise. A narrativa em primeira pessoa \u00e9 algo inerente \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o cognitiva infantil operacionalmente concreta. 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