{"id":367588,"date":"2025-10-24T01:15:10","date_gmt":"2025-10-24T04:15:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=367588"},"modified":"2025-10-17T10:37:17","modified_gmt":"2025-10-17T13:37:17","slug":"a-conta-que-nunca-fecha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-conta-que-nunca-fecha\/","title":{"rendered":"A Conta que Nunca Fecha"},"content":{"rendered":"<p><strong>(CONT\u00c9M CENAS DE VIOL\u00caNCIA)<\/strong><\/p>\n<p>Eu, meus irm\u00e3os, meus pais, todos mor\u00e1vamos na fazenda. A casa era do Doutor Ab\u00edlio. Mentira, foi do pai dele, Coronel Malvino, depois ele \u00e9 que tomou conta. Teve contenda com um irm\u00e3o dele, o Fl\u00e1vio, mas levou a melhor. Ficou mesmo com tudo. Casou com uma mo\u00e7a na cidade e voltou pra l\u00e1 quando o Coronel Malvino ficou doente. O coronel morreu um tempo depois, e ele entrou a morar mesmo na casa. Sozinho com a esposa. Depois \u00e9 que vieram os filhos. Eu lembro pouco dessa primeira \u00e9poca. A casa da fazenda ficava numa subida. Num morrinho. De l\u00e1 voc\u00ea via tudo embaixo, at\u00e9 onde a vista n\u00e3o alcan\u00e7ava mais. A gente morava num lugar logo perto da entrada da fazenda, que o pessoal chamava de avenida. Tinha, perto da nossa casa, o postinho m\u00e9dico, que de vez em quando abria, e um armaz\u00e9m onde meu pai comprava as coisas pra casa e anotavam num caderninho. L\u00e1 em casa \u00e9ramos seis irm\u00e3os, meu pai e minha m\u00e3e. Eles trabalhavam pra diabo e o dinheiro nunca chegava. A gente sempre estava devendo mais no caderninho do que o pai e a m\u00e3e ganhavam trabalhando na ro\u00e7a. A conta nunca fechava. Um dia, ouvi meu pai reclamando para o Per\u00e1cio, que era o administrador da fazenda. Ele disse que o problema do meu pai era o cigarro e a cacha\u00e7a, e que, se ele quisesse conferir o caderninho, precisava esperar o Doutor Ab\u00edlio chegar da capital. Nesse tempo, ele s\u00f3 ia pra fazenda mais no final de semana, n\u00e3o morava l\u00e1 porque os filhos j\u00e1 estavam estudando em col\u00e9gio bom, e n\u00e3o tinha nenhum na cidade e nas redondezas. Mas o tal Per\u00e1cio disse que parecia falta de confian\u00e7a no patr\u00e3o, e que ele n\u00e3o gostava de gente desconfiada, que era deslealdade. Eu n\u00e3o sei se aquilo era ideia do capataz ou tinha sido o patr\u00e3o que mandou falar. Aconteceu do meu pai baixar a crista e n\u00e3o tocar mais no assunto. Depois, ficou doente, acharam que era do f\u00edgado, custou a ver m\u00e9dico. N\u00e3o durou um ano e tamb\u00e9m morreu. Foi um tendep\u00e1 l\u00e1 em casa, minha av\u00f3 veio at\u00e9 morar com a gente, ficou um tempo, mas ajudava pouca coisa, j\u00e1 estava velhinha.<\/p>\n<p>Um dos filhos do Doutor Ab\u00edlio, chamado M\u00e1rcio, veio morar na fazenda. N\u00e3o sei bem por que, mas disseram que ele tinha sa\u00eddo fugido de um lugar onde ele j\u00e1 fazia faculdade, teve algum problema, se desentendeu com um rapaz e, na briga, matou ele. N\u00e3o sei se era verdade, era o que o povo dizia. E ele ficou l\u00e1, morando na mesma casa que tinha sido do av\u00f4 e do pai dele. E ele era que mandava no Per\u00e1cio, colocou ordem nas coisas que pareciam que estavam muito frouxas. Um dia, a gente estava em frente de casa, na avenida. Minha m\u00e3e tinha sa\u00eddo pra lida, minha v\u00f3 ficava deitada, e ele passou com um Fusquinha vermelho. Parou l\u00e1 e veio perguntar quem era aquela mo\u00e7a toda bonita que estava sentada na cal\u00e7adinha. Era minha irm\u00e3, Laura, que cham\u00e1vamos de Lalinha, e era a maior de n\u00f3s seis. Devia ter uns dezessete anos nessa \u00e9poca, e o M\u00e1rcio ficou se engra\u00e7ando. Todo dia passava l\u00e1, queria falar com ela, mandava chamar se ela estivesse l\u00e1 pra dentro. Eu chamava. Lalinha era linda. Minha m\u00e3e dizia que tinha cara de mo\u00e7a de boa fam\u00edlia. Que havia de se destacar na vida. Era raro ver uma menina como ela, os cabelos pretos cacheados, os ombros largos, um rosto bonito. Um porte diferente mesmo. M\u00e1rcio tinha uma cara de bobo. Ele, mais de uma vez, entrou comigo na venda e me deu doce, me deu pirulito, refrigerante. Aceitei da m\u00e3o dele mesmo. Eu era crian\u00e7a, e gostava. E, enquanto eu me refestelava nos doces, ele colocava a mana dentro do Fusca e sa\u00eda para dar uma volta. Mas a\u00ed, um tempo depois, eu vi que tinha algum problema dentro de casa, que minha av\u00f3 e minha m\u00e3e andavam brigando muito, um dia vi elas duas gritando com minha irm\u00e3, e ela saiu correndo, chorando. Eu n\u00e3o entendi nada. Depois \u00e9 que fui saber que minha irm\u00e3 ia ter um nen\u00e9m, e eu fiquei pensando como \u00e9 que ia ter nen\u00e9m se nunca tinha casado. Eu s\u00f3 via as mo\u00e7as terem filho depois de casar, tinha sido assim com a Terezinha, uma vizinha nossa que era at\u00e9 madrinha de um dos meus irm\u00e3os, era muito boa. O Per\u00e1cio veio uma vez dizer pra gente que o Doutor Ab\u00edlio ia l\u00e1, pessoalmente, conversar com minha m\u00e3e, que na hora n\u00e3o estava. Uns dias depois, eu voltava do grupo, onde eu j\u00e1 estudava, e encontrei eles na sala de casa, minha m\u00e3e estava uma fera. Eu continuava sem entender. Minha irm\u00e3 viajou com o Doutor Ab\u00edlio, ficou um tempo fora da fazenda, e voltou com a nen\u00e9m, minha sobrinha. Aquela crian\u00e7a era um raio de sol na nossa casa. Eu ficava um temp\u00e3o cuidando dela, adorava ver ela rir. Era um brinquedo. Muito bonitinha. A v\u00f3, que virou bisa, at\u00e9 remo\u00e7ou ajudando com ela. Mas minha irm\u00e3 ficou pouco tempo, e depois foi embora e n\u00e3o voltou mais. Deixou a menina. Levei tempo pra descobrir o que tinha sido feito dela, coitada. Endoidou, ou ficou triste de vez, n\u00e3o quis mais morar com a fam\u00edlia. Eu vi que minha m\u00e3e ficou muito chateada, mas segurou tudo nas unhas, e a gente viveu uns anos l\u00e1, foi crescendo. Depois, o M\u00e1rcio saiu da fazenda tamb\u00e9m e demoramos a ouvir falar dele.<\/p>\n<p>Meu irm\u00e3o mais velho, abaixo da Lalinha, era o Tino. O nome dele era Cristino, mas todo mundo o chamava de Tino. Ele disse que, um dia, ia pra cidade buscar nossa irm\u00e3, e que minha m\u00e3e n\u00e3o ficasse chateada n\u00e3o, ele dava um jeito nas coisas, e que se vingava de quem tinha feito mal a ela. Na minha mente eu n\u00e3o conseguia compreender o que ele estava falando. Mas ele dizia isso e dava \u00e1gua nos olhos dele. Minha m\u00e3e dizia pra ele parar de falar nisso, e amargava. \u201cA gente \u00e9 para o que nasce\u201d. Que ele calasse a boca, que n\u00e3o ia fazer diferen\u00e7a nenhuma mais. Cresci e s\u00f3 depois entendi a raiva dele.<\/p>\n<p>Mas passaram uns anos, o Per\u00e1cio, administrador, teve um incha\u00e7o nas pernas e n\u00e3o trabalhava mais, ficava s\u00f3, numa casinha no caminho pra serra, porque a mulher tinha largado dele. A fazenda caiu muito, declinou com o tempo, acho que a fam\u00edlia dos donos andou cansada daquilo tudo, e nem ia mais passar as f\u00e9rias l\u00e1. A casa, em cima do morrinho, ficava a maior parte do tempo fechada. E meu irm\u00e3o, um dia, veio com a ideia da gente entrar l\u00e1 e pegar as coisas, pra vender. Eu era garoto, tinha uns 14 anos, mas j\u00e1 desconfiei que aquilo era errado. \u201cTino, n\u00e3o fa\u00e7a isso, se a m\u00e3e descobre vai descer o pau na gente\u201d. E ele n\u00e3o se importava, nada tirava da cabe\u00e7a dele, queria entrar na casa, pegar as coisas. E me falou dos planos. Ia entrar, de madrugadinha ou no in\u00edcio da manh\u00e3, porque sabia que n\u00e3o ia ter ningu\u00e9m tomando conta. Tinha um ronda, que passava logo depois da hora do servi\u00e7o, vinha sempre com um cachorro, mas ele n\u00e3o ficava at\u00e9 o dia clarear e, depois, s\u00f3 teria movimento umas sete da manh\u00e3. A gente entrava, ia pegando as coisas de vagarinho, escondia no galp\u00e3o velho, que ficava do lado da venda e estava abandonado, e ia, depois, dando um jeito de vender. O dinheiro podia ser bastante, havia objeto importante na casa. Prataria, coisa antiga. Dava uma grana boa. E eu sempre resisti, n\u00e3o queria. Meu irm\u00e3o for\u00e7ava a barra, que s\u00f3 podia contar comigo e que, se eu falasse pra algu\u00e9m, metia uma bala na cabe\u00e7a e ia ver s\u00f3 como a m\u00e3e ia morrer em seguida. Eu ficava apavorado, mas, depois de muito negar, eu concordei em ir com ele. Fiquei espantado com a facilidade com que ele abriu uma porta perto da cozinha e conseguiu entrar na casa, que h\u00e1 muito tempo andava desabitada. Com certeza ele tinha ido muitas vezes antes ali, estudou cada peda\u00e7o, observou cada janela, cada porta, o modo pelo qual ia entrar e se mover l\u00e1 dentro, no escuro. E fizemos isso umas tr\u00eas vezes, eu ficava apavorado. Lev\u00e1vamos um saco de estopa e \u00edamos guardando as coisas dentro. Umas coisas de metal, que tiramos da sala, coisas menores que achamos nos quartos. Nem sei como \u00e9 que far\u00edamos para esconder aquilo muito tempo, e tamb\u00e9m n\u00e3o queria imaginar a gente com que Tino estava metido, que ia comprar aquilo tudo. Demorei a descobrir. Foi um trabalho longo, sempre repetido. Depois da terceira vez, n\u00e3o estava mais apavorado, e cheguei a perguntar uma vez a ele, quando deu a hora de ir dormir, se naquela madrugada ia ter excurs\u00e3o. Ele falou que sim, mas disse, de novo, que ningu\u00e9m podia saber.<\/p>\n<p>Aquelas miudezas que tiramos da casa renderam um dinheirinho. Tino deu a parte que me havia prometido. A maioria ficou com ele mesmo. Ele disse que eu era crian\u00e7a, e que ele precisava receber mais, porque ia para a cidade buscar reparar o que haviam feito com nossa irm\u00e3. Umas pe\u00e7as de selaria antiga, uns casti\u00e7ais, um boneco de biscuit, os enfeites da velha que era mulher do coronel, umas bolas de vidro que ficavam penduradas nas l\u00e2mpadas. A gente entrava e pegava mesmo. Ningu\u00e9m dava falta, a casa ficava vazia. Acho at\u00e9 que come\u00e7aram a desconfiar, pois algu\u00e9m pode ter entrado l\u00e1 para limpar, ou pra pegar alguma coisa, n\u00e3o sei ao certo. O fato \u00e9 que, um dia, souberam.<\/p>\n<p>Um dia, era tarde de domingo, o Tino disse \u201cvamos na casa agora, preciso conseguir alguma coisa\u201d. N\u00e3o dava, era ainda claro, algu\u00e9m veria. E ele \u201cn\u00e3o v\u00e3o ver nada, ningu\u00e9m mais liga praquilo, a gente vai e volta r\u00e1pido, eu entro sozinho e voc\u00ea fica vigiando\u201d. Eu n\u00e3o queria, sabia dentro de mim que ia dar errado. E ele, confiante, disse que n\u00e3o daria errado n\u00e3o, sabia o que estava fazendo. Eu, temendo a nossa ru\u00edna, pedi, implorei para o Tino n\u00e3o fazer aquilo, e ele estava resoluto, disse que iria sozinho e, se descobrissem, a m\u00e3e ficava sabendo e ia ficar magoada com a gente pra sempre, e, indo junto, um acobertava o outro. E eu fui. Fomos o caminho todo em sil\u00eancio e n\u00e3o vimos ningu\u00e9m. S\u00f3 o velho Ti\u00e3o, um carroceiro, aquele verme, n\u00e3o sei se foi culpa dele, nunca vou saber. Sei que ele n\u00e3o gostava do meu pai quando o velho era vivo. Fomos, Tino e eu, e chegamos l\u00e1 no topo. Fazia frio. Entramos, f\u00e1cil como sempre. Ele vasculhou tudo. Primeira vez que a gente entrava l\u00e1 para pegar as coisas e estava t\u00e3o claro. Eu me espantei por ver como tudo estava abandonado, triste. Gasto. Era uma casa de tempos passados.<\/p>\n<p>Foi justinho naquele dia, quando a gente estava no segundo andar, olhei para uma janela do lado e vi, l\u00e1 embaixo, um movimento estranho. Chegava um carro novinho, azul claro, seguido de um jipe cheio de capanga. N\u00e3o entendi at\u00e9 hoje se foi coincid\u00eancia, se eles estavam esperando, ou se chamaram eles. Chamar n\u00e3o, n\u00e3o ia dar tempo. Eles deviam era estar esperando mesmo, avisados, de atalaia, deviam estar em algum lugar ali perto. Mas eu fiquei pensando, porque, justo naquele dia, em que o Tino resolveu ir mais cedo, eles apareceram do nada. S\u00f3 sei que quase mijei nas cal\u00e7as quando vi os carros indo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 subida do morro. Soltei um grito e meu irm\u00e3o veio ver o que tinha acontecido. Comecei a desesperar. E ele falou \u201cn\u00e3o liga, deixa que eu resolvo, s\u00f3 abre essas janelas aqui do lado e fica aqui em cima, desce quando eu te chamar\u201d. N\u00e3o entendi nada. A gente tinha era que correr, sair dali o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, voltar pra nossa casa na avenida. Mas n\u00e3o daria tempo. O \u00fanico caminho de volta era a estradinha que levava ao morro, o capim estava seco naquela \u00e9poca, ia ser dif\u00edcil eles n\u00e3o verem a gente. A parte dos fundos n\u00e3o ia dar pra descer. Esconder ali, pior, acabavam nos achando e \u00edamos pra cadeia, ou pro cemit\u00e9rio. Eu apavorei, agarrei a tremer, desandei a chorar, pensei o que seria de mim, ou do Tino. Pois meu irm\u00e3o, em vez de medrar, ficou na frente da casa, esperando que nem dono, com um peda\u00e7o de pau na m\u00e3o. E, n\u00e3o demorou muito, os homens chegaram. Do carro azul claro saiu o Doutor Ab\u00edlio e o M\u00e1rcio. Do outro, s\u00f3 capanga muito mal-encarado. Como os donos da fazenda estavam mudados! Fazia um tempo que n\u00e3o os via. O doutor, certamente, estava doente. Mas com aquela fei\u00e7\u00e3o dura de sempre. O M\u00e1rcio foi que falou \u201co que \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui?\u201d. E eu, de onde estava, ouvia tudo. Meu irm\u00e3o respondeu \u201cse eu chegasse antes, acho que ainda pegava eles pro senhor\u201d. E eu n\u00e3o entendia. Pegava quem? A artimanha dele&#8230; Fez os homens acreditarem que, pouco antes, v\u00edramos vir algu\u00e9m das bandas da casa grande, e que subimos o morrinho pra ver o que se passava. Chegamos l\u00e1, topamos com a casa arrombada e as janelas do lado abertas. E ele pegou um peda\u00e7o de pau e entrou na casa, com medo do que ia encontrar l\u00e1, de ter gente estranha, e demos busca em tudo que foi canto, e n\u00e3o encontramos ningu\u00e9m. Que ia me chamar, pois, ainda assim, estava com medo de eu ficar sozinho l\u00e1 dentro e sofrer alguma maldade. Ele me gritou e eu desci. E ele ainda teve a presen\u00e7a de esp\u00edrito de dizer \u201colha, o mano ficou t\u00e3o assustado que at\u00e9 se treme\u201d. A cara deles era desconfian\u00e7a, ou s\u00f3 d\u00favida mesmo. Certeza eu posso garantir que eles n\u00e3o tiveram de nada. Temi que iam matar a gente ali mesmo, n\u00e3o conhecia aqueles capangas. S\u00f3 sei que o Doutor Ab\u00edlio mandou a gente ficar calmo, que estava tudo bem, agradecia muito o empenho, estava entendendo tudo. Mas achava que, para nossa pr\u00f3pria seguran\u00e7a, n\u00e3o era bom mais que fic\u00e1ssemos morando ali. Que nos daria um prazo de tr\u00eas dias para sairmos. N\u00e3o, a m\u00e3e e os outros irm\u00e3os n\u00e3o precisavam ir. At\u00e9 porque, a m\u00e3e tinha d\u00edvida com ele. N\u00f3s dois dev\u00edamos ir embora. Tr\u00eas dias. E foi outra gritaria l\u00e1 em casa. \u201cQue velho odiento\u201d, disse a m\u00e3e, chorando. A v\u00f3, nesse tempo, j\u00e1 andava meio alheia, fraca das ideias. N\u00e3o dava mais opini\u00e3o. Eu pensei o que seria de mim, de n\u00f3s, da m\u00e3e e da v\u00f3 que ficariam sozinhas com os irm\u00e3ozinhos e a filha da Lalinha, que nesta \u00e9poca j\u00e1 era uma garotinha brilhante, cheia de g\u00eanio.<\/p>\n<p>N\u00e3o t\u00ednhamos quase nada pra ajuntar na hora em que partimos. Ao menos, ainda salvamos um dinheirinho das coisas que tomamos da casa dos patr\u00f5es. Naqueles dias, n\u00e3o sobrou nada pra vender. Fomos a p\u00e9, pela avenida, sem olhar atr\u00e1s de n\u00f3s. Algumas poucas pessoas ficaram sabendo da nossa partida. O que viria a ser era, ainda, um mist\u00e9rio. \u00c9 claro que nos arranjar\u00edamos. T\u00ednhamos que nos arranjar. Tantos j\u00e1 haviam sa\u00eddo daquela fazenda triste, parada no tempo, e deram coisa boa. O Henrique, filho do No\u00e9, virou motorista de caminh\u00e3o. O Manuel Ten\u00f3rio, que matava gado, virou empregado de a\u00e7ougue. A Em\u00edlia, filha do Ladislau e da Cotinha, tinha arrumado trabalho de costureira. O Agassis era gar\u00e7om de restaurante. Acho que, se o pai n\u00e3o tivesse morrido, a gente tamb\u00e9m teria ido embora do mesmo jeito. S\u00f3 que mais seguro de si. O fato \u00e9 que t\u00ednhamos de ir, sem voltar. Ir sem pensar em retornar, porque as palavras do patr\u00e3o ainda estavam nos nossos ouvidos. Para nossa pr\u00f3pria seguran\u00e7a, n\u00e3o era bom mais que fic\u00e1ssemos morando ali. E depois de muito tempo foi que eu entendi. Eles n\u00e3o ca\u00edram na hist\u00f3ria que o mano inventou. Sei l\u00e1 se na hora, ou se antes. A nossa seguran\u00e7a era garantida se a gente desse obedi\u00eancia aos mesmos homens que podiam nos fazer mal, por meio dos capangas. Uns camaradas horr\u00edveis, que eu nunca tinha visto a fu\u00e7a deles. Fomos da porta de casa at\u00e9 a avenida, da avenida at\u00e9 a porteira, da porteira at\u00e9 a estrada, da estrada at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o, quando o trem j\u00e1 apitava. Chegamos na cidade era j\u00e1 de noite. N\u00e3o sabia direito o que fazer, Tino haveria de ter pensado alguma coisa. E pensou. Est\u00e1vamos numa rua muito comprida, iluminada a eletricidade, procurando uma casa. Tino tinha um papel com o endere\u00e7o escrito. Paramos em frente a um sobrado, meio arruinado. Tino assoviou. L\u00e1 de cima apareceu Lalinha, nossa irm\u00e3. Ela foi meio indiferente. Estava mudada. Rosto pintado, usava um cord\u00e3o com umas bolotas, brincos estranhos. Um vestido justo, que a m\u00e3e certamente n\u00e3o deixaria ela usar. Tinha a cara cansada, desanimada.<\/p>\n<p>Dormimos l\u00e1 e fomos ficando alguns dias. Algumas semanas, alguns meses. Tino deu de trabalhar num botequim no qual Lalinha o levou e apresentou ao dono. Eu passei a vender balas, chicletes e outros doces nas redondezas do bar onde Tino foi trabalhar. Come\u00e7ava de noitinha e s\u00f3 volt\u00e1vamos para casa na alta madrugada, quando o expediente terminava. \u00c0s vezes, cheg\u00e1vamos e n\u00e3o pod\u00edamos subir as escadas que levavam ao apartamento pequeno em que n\u00f3s tr\u00eas repous\u00e1vamos os esqueletos cansados. \u00c9 que Lalinha tinha visita. E ela n\u00e3o gostava que a gente visse a visita sair. Passamos assim dois anos, e o Tino sempre pensando em mudar de emprego. At\u00e9 que, um dia, conseguiu. Foi atrav\u00e9s do Agassis, nosso chegado l\u00e1 da fazenda, que ele passou a trabalhar de gar\u00e7om em restaurante. Era melhor que no botequim. N\u00e3o tinha que ajudar com os pingu\u00e7os, nem limpar banheiro imundo madrugada adentro. E eu tinha arrumado uma posi\u00e7\u00e3o na faxina de um pr\u00e9dio no centro, cheio de escrit\u00f3rios. Sa\u00edmos da casa de Lalinha e fomos morar perto do restaurante onde Tino trabalhava. Ele ficava l\u00e1 das onze da manh\u00e3 at\u00e9 umas oito, nove da noite. Fim de semana, ficava at\u00e9 mais. \u00c0s vezes, no fim do expediente, eu ia at\u00e9 l\u00e1, esperava nos fundos e ele me arrumava um prato de comida. Sempre comida bem-feita, gostosa. Volt\u00e1vamos para casa j\u00e1 jantados. Era bom, gostava dessa rotina. Algumas vezes, ficava triste, sentia falta da m\u00e3e, dos outros irm\u00e3os. Ficava pensando se n\u00e3o estava faltando alguma coisa pra eles. E n\u00e3o pod\u00edamos voltar. E, nessas horas, eu detestava minha vida, que era uma desgra\u00e7a completa. Pobreza, trabalho, lixo, limpando merda de gente desconhecida naquele pr\u00e9dio de escrit\u00f3rios. Humilha\u00e7\u00e3o que n\u00e3o acabava. N\u00e3o sei o que se passava na cabe\u00e7a de Tino, mas ele deu para beber. Bebia e ficava transtornado. Disseram que at\u00e9 resto do copo dos fregueses ele tomava. Lalinha eu via pouco. N\u00e3o gostei da indiferen\u00e7a com que ela me tratou quando est\u00e1vamos na casa dela. Volta e meia a gente se cruzava, mas era raro. Depois, ela pegou doen\u00e7a do mundo e ficou mal, quase \u00e0 morte. A\u00ed a gente foi socorrer ela, que ainda estava morando no sobrado velho. Fiquei ali, observando aqueles dois irm\u00e3os, sangue do meu sangue. E reparei como eram pessoas t\u00e3o diferentes das que eu conheci. Mal via neles os la\u00e7os que nos prendiam. Acho que eu havia crescido, e n\u00e3o me sentia mais t\u00e3o dependente, ou t\u00e3o pertencente \u00e0quele grupo. Mas ainda pensava e tinha no cora\u00e7\u00e3o as pessoas que ficaram na fazenda.<\/p>\n<p>A v\u00f3 morreu naquela \u00e9poca, e o Tino descobriu que estava doente do p\u00e2ncreas. Tempos antes, ele juntou com uma mo\u00e7a, at\u00e9 muito boa, e ela cuidava dele e da casa. Eu passei a morar s\u00f3, e Tino montou um canto pra ele e a mulher. Se davam bem. Ele piorou r\u00e1pido e morreu tamb\u00e9m. Coitado do meu irm\u00e3o. Ainda conversou comigo uma vez e disse que me arrastou pra desgra\u00e7a. Eu disse \u201cbobagem, tudo bem, n\u00e3o sinta culpa\u201d. E foi a conta de nos falarmos, e ele n\u00e3o falou mais com ningu\u00e9m. Come\u00e7ou a apagar at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>Estava eu mais sozinho que nunca, naquela cidade hostil, cheia de sujeira, de pingu\u00e7os e de putas. Pensei em voltar pra fazenda. As coisas certamente haviam mudado l\u00e1, mas tamb\u00e9m n\u00e3o queria. Que se danasse a fazenda. O certo era ver quem restava e, talvez, trazer para a cidade. Ao menos n\u00e3o definhariam naquele rinc\u00e3o perdido, isolado. Aqui, apesar da merda, da cacha\u00e7a e das putas, havia vida.<\/p>\n<p>Na verdade, eu n\u00e3o sabia mais o que fazer. Qualquer coisa para mim era ruim. Ficar ou n\u00e3o ficar. Estar ou voltar. Eu queria era fugir de quem era. Fugir da hist\u00f3ria da minha vida. Mas como?<\/p>\n<p>Depois da morte de Tino, um tempo mais, acabei arrumando emprego no mesmo restaurante onde ele trabalhou. Primeiro, na faxina. Depois, comecei a fazer uns bicos de gar\u00e7om quando a casa estava cheia. At\u00e9 que fui contratado. E era bom no que fazia. Conseguia ser simp\u00e1tico com os clientes. Ganhava boas gorjetas. Era asseado e atento. Ganhei a confian\u00e7a do dono.<\/p>\n<p>Houve uma noite em que, numa das mesas atendidas por outro colega, vi uma pessoa que reconheci na hora, apesar de anos mais velho e uma careca que come\u00e7ava a aparecer. Pensei que aquilo n\u00e3o era poss\u00edvel e perguntei aos outros gar\u00e7ons. Um deles me disse que era ele mesmo, um m\u00e9dico famoso por ali, muito prestante. Pois era M\u00e1rcio, filho do Doutor Ab\u00edlio, que j\u00e1 havia abotoado o palet\u00f3 h\u00e1 tempos. Estava com uma mulher do lado dele. Eita mulher bonita, uma danada de uma morena esguia, desempenada, falando pelos cotovelos. Eu fiquei ali, perto do balc\u00e3o, observando, at\u00e9 que resolvi ir perto dele. Mas ele n\u00e3o me reconheceu. Eu perguntei \u201cprecisa de alguma coisa?\u201d e ele fez que n\u00e3o com um gesto, agradeceu. A\u00ed eu falei \u201ccomo vai, Doutor M\u00e1rcio?\u201d Ele, com cara de d\u00favida, disse que ia muito bem, obrigado. E eu provoquei dizendo \u201co senhor n\u00e3o lembra de mim?\u201d. Como a cara de d\u00favida aumentou, eu disse que era tio da filha dele, e perguntei se ele tamb\u00e9m n\u00e3o se lembrava da Lalinha. Ele ficou com uma cara transtornada e disse que eu era maluco. A morena que o acompanhava parou de falar pelos cotovelos e achou estranho. Ele chamou o outro gar\u00e7om e pediu a conta, disse que estava sendo muito mal servido e se sentia incomodado. O gerente percebeu aquele movimento e foi ver o que acontecia. Eu disse que nada, eu devia ter me confundido de pessoa. Dissimulei e fingi naquela noite. Mas a cara de c\u00e3o do desgra\u00e7ado n\u00e3o me saiu da lembran\u00e7a. M\u00e9dico famoso. Ent\u00e3o tinha feito medicina aquele bosta. Pois eu havia de levantar a ficha dele. Nos dias seguintes, antes de trabalhar, eu perguntei aqui e ali e descobri tudo. Era m\u00e9dico sim, voltara \u00e0 cidade e clinicava num lugar muito chique. Cuidava do cora\u00e7\u00e3o das pessoas. Pois eu \u00e9 que devia cuidar do meu cora\u00e7\u00e3o. Deixei uma larva de \u00f3dio se instalar ali dentro e ela cresceu, ocupando cada oco, cada curva, cada lugarzinho. Fui pensando que era por causa daquele nojento que acontecera tudo que passou, a mim e aos meus. E ele ali, se divertindo no restaurante, com uma morena desempenada, bebendo uma birita da melhor qualidade. Fiquei louco de \u00f3dio e pensei no que faria. Nas folgas, rondava o lugar onde ele trabalhava, e diversas vezes o vi chegando ou saindo num carr\u00e3o preto, enorme. Bem diferente do Fusquinha vermelho com que ia fustigar a dec\u00eancia de Lalinha. Cidad\u00e3o condecorado, respeitado, relevante. Tudo n\u00e3o passava de um embuste, aquele homem era um salafr\u00e1rio. Um salafr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o devia ter carro, nem casa, nem morena, nem coisa nenhuma. Causara uma desgra\u00e7a em sequ\u00eancia, e tantas l\u00e1grimas minha m\u00e3e chorara por causa daquele bandido. Ele havia de ver.<\/p>\n<p>Ele jamais voltou no restaurante, mas eu manjei bem a rotina do malandro. A cidade era grande, mas n\u00e3o tanto a ponto de eu n\u00e3o conseguir descobrir onde ele morava. Perguntando-se aqui e ali, fazendo as amizades certas, n\u00e3o foi dif\u00edcil. Em pouco tempo, percebi a hora em que ele entrava e sa\u00eda do consult\u00f3rio, n\u00e3o raro acompanhado da morena que tamb\u00e9m trabalhava l\u00e1, s\u00f3 n\u00e3o sei se como m\u00e9dica ou qualquer outra coisa. N\u00e3o me interessei mais em acampanar o sujeito no trabalho. Fui me acercar da casa dele, ver o que conseguia. Era uma casa boa, t\u00e9rrea, meio de um terreno grande, muro baixo, grade nas janelas. Mas havia portas. E, depois de lembrar de observar como o mano fazia, n\u00e3o me foi dif\u00edcil arrombar uma delas e me sentar ali, no escuro, esperando, depois de me certificar, observando por dias, que \u00e0quelas horas, a casa permanecia completamente vazia. Ele gostava de sair do consult\u00f3rio e zanzar em restaurantes, beber seu uisquezinho, contar vantagem para a morena e, depois, ir para casa. Pois, numa dessas vezes, o casal me encontrou bem na sala quando entrou e acendeu a luz. A mulher deu um grito. Ele, covarde, deu outro, e perguntou, hesitante, \u201co que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui?\u201d E eu disse que precisava acertar umas contas, conversar com um parente saudoso. \u201cSaia ou eu vou chamar a pol\u00edcia\u201d. Disse que n\u00e3o ia, e ordenei que a mulher, a esta hora preparando um esc\u00e2ndalo, calasse a boca. Claro que n\u00e3o fiz nada disso de cara limpa. Havia bebido todas, e me certifiquei de garantir a macheza segurando uma porcaria de um rev\u00f3lver de ladr\u00e3o, que um antigo amigo dos meus tempos de vendedor de balas e doces me conseguira alugar por uns trocados. Amarrei os dois sob a mira do rev\u00f3lver. Dei uma cacetada na cabe\u00e7a da morena, para que ela parasse de gemer e sentir medo. Apaguei ela com o golpe, temi at\u00e9 t\u00ea-la matado, mas depois vi que respirava. Para o Doutor M\u00e1rcio reservei tratamento mais radical. Cortei-lhe algumas partes, enquanto ele chorava, gemia e, de vez em quando, desmaiava. E, quando isso acontecia, eu o acordava jogando-lhe \u00e1lcool naquela cara amedrontada e que n\u00e3o conservava virilidade nenhuma. Ele era desses cuja macheza ficava com os capangas. Sozinho, n\u00e3o valia nada. Era s\u00f3 um beb\u00ea chor\u00e3o. Como ele muito sangrava e sofria, fiz-lhe logo um furo no meio dos olhos num desses desmaios. Fiquei ali bem uns quarenta minutos olhando minha obra e finalizei tamb\u00e9m a morena, porque n\u00e3o queria testemunha do meu malfeito. N\u00e3o contava era com a desgra\u00e7ada de uma vizinha que, t\u00e3o tarde, tinha ins\u00f4nia e dera para olhar pela janela, justamente na hora em que eu entrava pela porta lateral. Achando estranho, ficara observando de vez em quando. Ela disse, depois, que escutou qualquer coisa ou viu umas silhuetas suspeitas projetando sombra numa cortina da sala, e acabou, na d\u00favida, ligando para a pol\u00edcia que, se houvesse chegado mais cedo, at\u00e9 haveria de salvar pelo menos a morena.<\/p>\n<p>Agora, c\u00e1 estou eu. Curtindo esta cadeia, n\u00e3o sei bem at\u00e9 quando. Aquele promotorzinho de uma figa. O advogado que mal olhava na minha cara, deve ter me defendido de m\u00e1 vontade porque sou pobre e ele n\u00e3o ganhou nada. Os jurados foram implac\u00e1veis comigo. Queria ver \u00e9 se seriam implac\u00e1veis se fosse o doutorzinho rico e prestante que estivesse sendo julgado. Rico e prestante&#8230; um nojento, isso sim.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(CONT\u00c9M CENAS DE VIOL\u00caNCIA) Eu, meus irm\u00e3os, meus pais, todos mor\u00e1vamos na fazenda. A casa era do Doutor Ab\u00edlio. Mentira, foi do pai dele, Coronel Malvino, depois ele \u00e9 que tomou conta. Teve contenda com um irm\u00e3o dele, o Fl\u00e1vio, mas levou a melhor. Ficou mesmo com tudo. Casou com uma mo\u00e7a na cidade e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":367589,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-367588","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367588","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=367588"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367588\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":367597,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367588\/revisions\/367597"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/367589"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=367588"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=367588"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=367588"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}