{"id":367851,"date":"2025-10-21T00:15:19","date_gmt":"2025-10-21T03:15:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=367851"},"modified":"2025-10-20T11:02:41","modified_gmt":"2025-10-20T14:02:41","slug":"conto-inspirado-na-composicao-tango-negro-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/conto-inspirado-na-composicao-tango-negro-2\/","title":{"rendered":"Conto inspirado na composi\u00e7\u00e3o Tango negro"},"content":{"rendered":"<p>Juarez era um antrop\u00f3logo ga\u00facho fascinado pelas diferentes manifesta\u00e7\u00f5es da cultura afro-brasileira. O samba carioca e o samba baiano, o candombl\u00e9 iuorub\u00e1 e o de Angola, a umbanda, a quimbanda e a mandinga dos feiticeiros, o tambor de mina e o tambor de crioula do Maranh\u00e3o, a congada de Minas Gerais, o batuque ga\u00facho, o carnaval do Rio, de Salvador, de Recife e Olinda, o maracatu pernambucano e o afox\u00e9 da Bahia \u2013 tudo isso ele pesquisou, nos lugares em que essas manifesta\u00e7\u00f5es culturais eram mais fortes. Outra paix\u00e3o sua, paix\u00e3o arrebatadora, era o tango, gostava das composi\u00e7\u00f5es, das letras e da dan\u00e7a. Quando soube das origens africanas da milonga, do candombe e, segundo muitos autores, de seu ritmo predileto, todos origin\u00e1rios da regi\u00e3o platina, n\u00e3o hesitou: pediu licen\u00e7a na universidade onde lecionava e partiu para Buenos Aires.<\/p>\n<p>Na Rainha do Prata, fez contato com pesquisadores de interesses similares aos seus e confirmou: o tango tinha mesmo ra\u00edzes africanas; sua designa\u00e7\u00e3o vinha, segundo alguns, do nome do orix\u00e1 Xang\u00f4 e, segundo outros, dos tambores usados no candombe, chamados de tang\u00f3s. Chegou a ficar comovido ao encontrar, na boca de uma multid\u00e3o de descendentes de imigrantes, termos bem familiares, tais como congos e mandinga. J\u00e1 delineava seu pr\u00f3ximo objeto de pesquisa: as influ\u00eancias rec\u00edprocas entre a Am\u00e9rica de l\u00edngua portuguesa e a de l\u00edngua espanhola, um processo que levara o candombe do Uruguai e da Argentina para Minas Gerais e estava levando, a todo vapor, a umbanda e o candombl\u00e9 para a bacia do Prata.<\/p>\n<p>E, claro, sua vida em Buenos Aires estava longe de se limitar \u00e0 pesquisa. Havia muitas casas de tango a conhecer, na companhia de lindas colegas que o ensinavam a bailar \u2013 preliminar para uma noite de del\u00edrio. Foi uma delas, Consuelo, com quem j\u00e1 transara duas vezes, que o convidou:<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1s a conocer el tango negro.<\/p>\n<p>&#8211; Tango negro?<\/p>\n<p>&#8211; S\u00ed, una maravillosa composici\u00f3n de Juan Carlos C\u00e1ceres.<\/p>\n<p>Ela explicou que a pe\u00e7a seria o grande final de um concerto tanguero. Ele devia prestar aten\u00e7\u00e3o na letra, que descrevia o embranquecimento por que passara o tango, e sobretudo, acompanhar a onomatopeia dos tambores, algo inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>E l\u00e1 se foram os dois, beijando-se avidamente, dispostos a fazer da noche de tango o esquenta para um amorzinho de responsa, t\u00e3o inesquec\u00edvel quanto a supracitada onomatopeia.<\/p>\n<p>O concerto foi excelente, uma sele\u00e7\u00e3o de tangos cl\u00e1ssicos pontilhada pela exibi\u00e7\u00e3o de mestres e mestras de tango, bailarinos renomados. Afinal, soaram os acordes vibrantes do Tango negro. Juarez constatou que Consuelo tinha raz\u00e3o: a letra lastimava que os gringos, filhos e netos de imigrantes, tivessem alterado a maneira de dan\u00e7ar. Lamentava tamb\u00e9m a perda do sentido ritual do ritmo, embora alguns comparsas \u2013 grupos de candombe \u2013 continuassem a percorrer as callecitas de Buenos Aires e, sobretudo, de Montevid\u00e9u. L\u00e1 pelas tantas, Consuelo apertou forte a m\u00e3o de Juarez e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Ahora entran los tambores!<\/p>\n<p>Ele esperava algo semelhante \u00e0 percuss\u00e3o do Yl\u00ea Ay\u00ea ou, no m\u00ednimo, do afox\u00e9 Filhos de Gandhi. Ou \u00e0 bateria de uma escola de samba. Em vez disso escutou: \u201cBorocot\u00f4, borocot\u00f4, chas chas, borocot\u00f4, borocot\u00f4, chas chas\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Bah, que diabo \u00e9 isso, guria? \u2013 perguntou em gauch\u00eas, num tom meio r\u00edspido.<\/p>\n<p>&#8211; Los tambores&#8230; \u2013 respondeu ela, sem gra\u00e7a, consciente de que, por algum motivo, los tambores n\u00e3o estavam agradando.<\/p>\n<p>A coisa piorou no final da pe\u00e7a, com uns dois minutos ininterruptos de borocot\u00f4, borocot\u00f4, cha cha.<\/p>\n<p>Terminado o concerto, foram para o apartamento de Consuelo e transaram. Foi gostoso, mas n\u00e3o tanto quanto das outras vezes. \u201cCulpa do borocot\u00f4\u201d, pensou Juarez, amargurado. O encanto era vidro, e se quebrou. Na hora, decidiu voltar ao Brasil, apesar de amar o tango e las pebetas argentinas. \u201cSamba, milonga, candombe e tango podem ser primos-irm\u00e3os\u201d, disse a si mesmo, \u201cseus nomes prov\u00eam de palavras dos idiomas de Angola, mas n\u00e3o d\u00e1 pra viver num pa\u00eds que reproduz o magn\u00edfico som de tambores com aquele \u2018borocot\u00f4 cha cha\u2019. Deu pra mim\u201d.<\/p>\n<p>No dia seguinte, enquanto consultava as datas e hor\u00e1rios dispon\u00edveis para um voo Buenos Aires \u2013 Porto Alegre, cantarolava, sem dar pela coisa, Bum bum, Paticumbum, Prugurundum \u2013 uma onomatopeia consagrada para bateria, t\u00edtulo do enredo com que a Imp\u00e9rio Serrano venceu o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro em 1982. Vers\u00e3o brasileira, muito mais redonda e sensual (talvez pelo bum bum inicial), do borocot\u00f4 borocot\u00f4 chas chas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juarez era um antrop\u00f3logo ga\u00facho fascinado pelas diferentes manifesta\u00e7\u00f5es da cultura afro-brasileira. 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