{"id":367875,"date":"2025-10-23T00:30:42","date_gmt":"2025-10-23T03:30:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=367875"},"modified":"2025-10-19T17:57:18","modified_gmt":"2025-10-19T20:57:18","slug":"circo-mambembe-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/circo-mambembe-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"CIRCO MAMBEMBE S\u00c9CULO XXI"},"content":{"rendered":"<p>1.<\/p>\n<p>Circo ao avesso. E naquele domingo, a \u00faltima sess\u00e3o matin\u00ea. O lobo bom comeu o ca\u00e7ador mau e fugiu para sempre com a vovozinha. A menina de capuz vermelho vaga solta pela floresta.<\/p>\n<p>2.<\/p>\n<p>Circo tr\u00e1gico. E naquela madrugada, a mulher barbada cortou os pulsos com gillete. O palha\u00e7o Piment\u00e3o jamais foi visto desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>3.<\/p>\n<p>Circo transcendental. E naquela sexta-feira 13, Valeska, a vidente dos olhos de cobra, decidiu n\u00e3o mais pensar ou adivinhar; estava s\u00f3. &#8220;O que adivinhei at\u00e9 aqui virou p\u00f3&#8221;.<\/p>\n<p>4.<\/p>\n<p>Circo temporal. E naquela noite, evidenciou-se o dilema do chin\u00eas perform\u00e1tico ao sentir-se, pela primeira vez, incapaz de equilibrar e manter girando mais que um prato no ar.<\/p>\n<p>5.<\/p>\n<p>Circo ranzinza. Nunca, jamais, Palpitoso, o palha\u00e7o triste, esbo\u00e7ara um sorriso. Naquela noite, no final da com\u00e9dia, ele teve um ataque de risos ao ver a imensa mulher cair de costas do \u00faltimo degrau da arquibancada. Pano r\u00e1pido.<\/p>\n<p>6.<\/p>\n<p>Circo da m\u00fasica. A dupla Motinha e Nh\u00e1 Fia entravam pelo picadeiro cantando &#8220;Boa noite, minha gente \/ Boa gente do lugar \/ N\u00f3s viemos aqui contente \/ Contente vamos cantar&#8230;&#8221;. Foram quase duas d\u00e9cadas de arte mambembe e plateias encantadas. Cero dia ficaram roucos para sempre.<\/p>\n<p>7.<\/p>\n<p>Circo palhacinhos. Os dois meninos entravam pelo picadeiro como dois alucinados. Esquetes, tombos, cambalhotas. Todos os dias aprendiam mais e mais do of\u00edcio de encantar plateias. Depois de anos eles cresceram e ficaram adultos. E pintaram as carinhas para sempre.<\/p>\n<p>8.<\/p>\n<p>Circo em chamas. E veio o dia da tristeza. 1961, ano de um Brasil em ebuli\u00e7\u00e3o. De chofre o pano\/encerado do circo est\u00e1 em chamas. E com as chamas l\u00e1 se foram os sonhos da companhia. Mas estrada permececeu para sempre em suas almas.<\/p>\n<p>9.<\/p>\n<p>Circo final. E naquela madrugada, o dono do circo &#8211; que tamb\u00e9m era o atirador de facas -, decidiu pelo fim da companhia. Perdeu a batalha para os tremores nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>10.<\/p>\n<p>Circo mem\u00f3ria. E naquele terreno baldio, na tabuleta deixada sobre empanados, t\u00e1buas da arquibancada, mastareis e a velha lona cheia de furos ficaram apenas as palavras escritas para sempre com tinta alvaiade escorrendo no tempo: &#8220;Saudades de todos n\u00f3s, ignorantes conscientes e inconscientes deste horizonte de eventos&#8221;.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista e professor\/pesquisador e sobrevivente da arte circense em que nasceu e cresceu. Vive, hoje, na Guarda do Emba\u00fa, pequena comunidade de pescadores no litoral Sul de SC.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. Circo ao avesso. E naquele domingo, a \u00faltima sess\u00e3o matin\u00ea. O lobo bom comeu o ca\u00e7ador mau e fugiu para sempre com a vovozinha. A menina de capuz vermelho vaga solta pela floresta. 2. Circo tr\u00e1gico. 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