{"id":367889,"date":"2025-10-24T00:00:12","date_gmt":"2025-10-24T03:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=367889"},"modified":"2025-10-19T21:51:11","modified_gmt":"2025-10-20T00:51:11","slug":"o-maior-classico-do-futebol-agora-e-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-maior-classico-do-futebol-agora-e-outro\/","title":{"rendered":"O maior cl\u00e1ssico do futebol agora \u00e9 outro"},"content":{"rendered":"<p>Este texto \u00e9 baseado em meus contos sobre o Flaporco (j\u00e1 escrevi uns tr\u00eas) e no texto Rezar \u00e9 preciso<\/p>\n<p>Domingo, 19 de outubro, houve mais um Flaporco, o maior cl\u00e1ssico atual do futebol brasileiro. Disputas com codinome, tipo Fla-Flu, Grenal, Bavi, Sans\u00e3o, ou com apostos descritivos \u2013 Cl\u00e1ssico dos Milh\u00f5es, Cl\u00e1ssico das Multid\u00f5es, Cl\u00e1ssico Vov\u00f4, Majestoso e por a\u00ed vai \u2013, tudo isso ficou pra tr\u00e1s. J\u00e1 dizia o poeta Luiz de Cam\u00f5es, \u201cCesse tudo que a musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta\u201d.<\/p>\n<p>Jorge sabia de tudo isso, e suava a camisa para assegurar uma vit\u00f3ria ap\u00f3s outra do seu amado Meng\u00e3o. O pre\u00e7o fora um quase retorno \u00e0s cren\u00e7as familiares. Ele, que era ateu de carteirinha, tornara-se agn\u00f3stico \u2013 algu\u00e9m que n\u00e3o acredita em Deus, mas n\u00e3o nega a possibilidade de sua exist\u00eancia \u2013 e estava em vias de regressar ao catolicismo de seus pais. Tudo por causa do Malvad\u00e3o.<\/p>\n<p>A coisa come\u00e7ara quando, ao passar por uma loja de artigos religiosos, viu uma imagem de s\u00e3o Judas Tadeu. Era bonita, o pre\u00e7o era baixo, o santo era o protetor de seu time do cora\u00e7\u00e3o&#8230; comprou-a. Colocou-a em uma estante na sala, perto da televis\u00e3o. Antes dos jogos do Meng\u00e3o, dizia sempre, meio brincando, meio a s\u00e9rio, frases do tipo:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos l\u00e1, s\u00e3o Judas. Proteja nosso time, p\u00f4!<\/p>\n<p>Aparentemente, funcionou. Mas \u00e0s vezes vinha um per\u00edodo de vacas magras, de empates e raras derrotas. Jorge sentiu que precisava dar um passo adiante em suas conversinhas com s\u00e3o Judas, fazendo algo de que vinha fugindo como o diabo foge da cruz: terminando os pedidos de favorecimento ao Meng\u00e3o com a palavrinha \u201cam\u00e9m\u201d, assim seja. Ele tinha consci\u00eancia de isso tornava seus papos com o santo em ora\u00e7\u00f5es, e que, por mais que nunca mencionasse Deus, o santo era, no m\u00ednimo, par\u00e7a da divindade. Ora, n\u00e3o h\u00e1 fiof\u00f3 de ateu (ou agn\u00f3stico, v\u00e1 l\u00e1) que aguente isso; estava resvalando perigosamente para o catolicismo em vers\u00e3o popular medieval, em que os santos eram extremamente reverenciados, mais que a divindade \u2013 mas vit\u00f3rias do Meng\u00e3o valiam uma ora\u00e7\u00e3ozinha ou outra. Afinal, era uma quest\u00e3o de f\u00e9. E, como ensinou mestre Gilberto Gil, a f\u00e9 n\u00e3o costuma falhar.<\/p>\n<p>Foi quase o que aconteceu antes deste Flaporco. Sem vergonha alguma, Jorge rezou fervorosamente a S\u00e3o Judas, lembrando-lhe que o Flamengo estava tr\u00eas pontos atr\u00e1s do Palmeiras no Brasileir\u00e3o, que se perdesse estaria a seis, que faltavam menos de dez rodadas para o fim do campeonato, e por a\u00ed foi. No final, como sempre fazia, suplicou:<\/p>\n<p>&#8211; Por favor, meu S\u00e3o Judas, conduza nosso Meng\u00e3o \u00e0 vit\u00f3ria. Am\u00e9m!<\/p>\n<p>Mas, dessa vez, foi diferente. A imagem pareceu tremer na estante e desapareceu; materializou-se diante do agn\u00f3stico-s\u00e3ojudas\u00edsta a figura de um homem j\u00e1 idoso, que sorriu para Jorge e declarou:<\/p>\n<p>&#8211; Cara, muito prazer, me chame de Judas. Ali na estante, ou\u00e7o tudo, mas n\u00e3o vejo o jogo. Hoje, sem d\u00favida, vou proteger o Flamengo, mas vim aqui pra torcer!<\/p>\n<p>&#8211; Mas o senhor vai levar o Meng\u00e3o \u00e0 vit\u00f3ria?<\/p>\n<p>&#8211; Vou fazer o poss\u00edvel. Al\u00e9m do mais o time \u00e9 bom, o jogo \u00e9 no Maraca, deve dar tudo certo.<\/p>\n<p>Jorge ficou meio desconfiado, preferia pensar no santo em uma dimens\u00e3o espiritual, n\u00e3o sentado junto a ele no sof\u00e1, um copo de cerveja nas m\u00e3os, mas aceitou.<\/p>\n<p>O jogo corria, e os dois torciam que nem malucos. Vibraram com a magistral assist\u00eancia de Pedro a Arrascaeta, que resultou no primeiro gol rubro-negro; com a perfeita cobran\u00e7a de p\u00eanalti por Jorginho, que se redimiu do susto que dera \u00e0 urubuzada, logo no in\u00edcio do jogo; e com a magn\u00edfica assist\u00eancia de Arrascaeta a Pedro, que lan\u00e7ou a bola no fundo da rede da porcada. O primeiro tempo terminou 3 x 1. Judas (ele pedira para n\u00e3o ser chamado de S\u00e3o Judas, n\u00e3o quando estivesse materializado, assistindo a jogos) despediu-se do anfitri\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Bom, Jorge, vou voltar pro plano espiritual e pra estante. N\u00e3o se preocupe, hoje o Palmeiras n\u00e3o vira, nem empata. Nem que a vaca tussa!<\/p>\n<p>-Feliz como um pinto no lixo ao ouvir essas palavras, Jorge aproveitou para perguntar:<\/p>\n<p>&#8211; Meu santo, o Flamengo vai vencer o Brasileir\u00e3o? E a Libertadores?<\/p>\n<p>&#8211; Olha, cara, n\u00e3o posso falar a respeito. Citando um locutor, vai ter emo\u00e7\u00e3o at\u00e9 o fim \u2013 e, num tom entre rancoroso e lastimoso:<\/p>\n<p>&#8211; O problema \u00e9 que essa porcada fiadeuma\u00e9gua tem muitos protetores espirituais. Tem santo italiano pra ded\u00e9u, S\u00e3o Francisco de Assis, San Gennaro&#8230; porradas deles. Sorte nossa \u00e9 que meus confrades n\u00e3o gostam de futebol!<\/p>\n<p>E, com essas palavras Judas, o torcedor, o rubro-negro doente, materializou-se outra vez como uma est\u00e1tua, na estante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto \u00e9 baseado em meus contos sobre o Flaporco (j\u00e1 escrevi uns tr\u00eas) e no texto Rezar \u00e9 preciso Domingo, 19 de outubro, houve mais um Flaporco, o maior cl\u00e1ssico atual do futebol brasileiro. 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