{"id":368175,"date":"2025-10-30T01:15:12","date_gmt":"2025-10-30T04:15:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=368175"},"modified":"2025-10-23T00:46:55","modified_gmt":"2025-10-23T03:46:55","slug":"um-circulo-de-aromas-e-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-circulo-de-aromas-e-historias\/","title":{"rendered":"Um c\u00edrculo de aromas e hist\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<p>Pizza, ah, pizza! Orbito em volta de teu c\u00edrculo perfeito de aromas e del\u00edcia. Neruda, dentre todas as suas odes, partiu devendo uma ode \u00e0 pizza, que eu faria se me achasse melhor poeta e estivesse para isso habilitado. Mas n\u00e3o, apenas aprecio o conjunto de suas harmonias. Quantas celebra\u00e7\u00f5es e alegrias, conversas e confiss\u00f5es foram feitas num restaurante, em volta de uma pizza. Em casa tamb\u00e9m se faz, ou se come a que \u00e9 encomendada pelo aplicativo de comida. Todos ficam ansiosos, quase tensos, achando que o perfeito alimento vem demorando, e consultam se j\u00e1 saiu para entrega. O al\u00edvio quando toca a campainha ou se escuta a buzina da motocicleta do entregador:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 a pizza!<\/p>\n<p>Sempre achei que a do restaurante \u00e9 melhor que a feita em casa, embora, \u00e0s vezes, tamb\u00e9m me vista de mestre cuca improvisado e fa\u00e7a eu mesmo a massa, separe os tomates para o molho e selecione os queijos da cobertura \u2013 que estranhamente muitos chamam de \u201crecheio\u201d \u2013 usando como base a sempre \u00fatil mu\u00e7arela, e incrementando com outros, de mais sabor, como o gorgonzola e o canastra bem mineiro. Azeite de oliva e bom or\u00e9gano s\u00e3o ingredientes que n\u00e3o podem faltar, dos mais nobres!<\/p>\n<p>Mas sigo preferindo a do restaurante. A pizza com amigos, com a fam\u00edlia, ou com aquela linda dama que queremos namorar. Em volta da pizza v\u00e3o se fazendo confiss\u00f5es, ajustes e at\u00e9 tra\u00e7ando a rota at\u00e9 o matrim\u00f4nio. A pizza \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o! Um verdadeiro estado de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>N\u00e3o me recordo de haver, nestes quase 46 anos de vida, ter comido uma pizza sozinho. Desconhe\u00e7o cena mais triste que chamar um gar\u00e7om, estando-se solit\u00e1rio \u00e0 mesa, e pedir uma pizza. Nesse caso, qualquer tamanho ficaria impr\u00f3prio, mesmo uma brotinho. Pizza pressup\u00f5e boas conversas, uma raz\u00e3o relevante para estar reunido em volta dela, a quem se deve tratar com uma certa rever\u00eancia.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a pizza!<\/p>\n<p>N\u00e3o gosto dessa conota\u00e7\u00e3o pejorativa que se inventou entre n\u00f3s, para dizer que situa\u00e7\u00f5es ilegais e injustas, cheias de prevarica\u00e7\u00e3o, \u201cacabam em pizza\u201d. \u00c9 no m\u00ednimo um desdouro \u00e0 gentil majestade desse nobil\u00edssimo alimento que, ao contr\u00e1rio do que dizem algumas m\u00e3es preocupadas com a nutri\u00e7\u00e3o dos filhos, \u00e9 uma refei\u00e7\u00e3o completa sim, e estamos combinados!<\/p>\n<p>Os paulistas, conhecedores das melhores pizzas do Brasil, ressentem-se do carioqu\u00edssimo h\u00e1bito de p\u00f4r-lhe catchup, ou a hedionda mostarda amarela. Outros irm\u00e3os brasileiros deitam-lhe maionese e at\u00e9 pimenta em cima. Para mim basta a pizza, em toda a sua pureza original.<\/p>\n<p>Gosto tanto que, da primeira vez que fui \u00e0 It\u00e1lia, percorri, por mais de quarenta dias, in\u00fameras cidades a bordo de um pequeno Fiat 500 com um teto solar de vidro que fazia brilhar sobre mim o mais cruel sol de ver\u00e3o, e minha compensa\u00e7\u00e3o era, em cada local, fugindo de restaurantes de turista, provar diversas pizzas. Pizzas locais, de vizinhan\u00e7a, de gente do dia-a-dia. A melhor de todas foi a de uma padaria na Via di Boccea, em Roma.<\/p>\n<p>Andei percorrendo antigas revistas e jornais brasileiros e descobri que, at\u00e9 os anos de 1950, n\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancias \u00e0 pizza entre n\u00f3s. Fiquei espantado e, ao mesmo tempo, refor\u00e7ou-se em mim a consci\u00eancia de suas indubit\u00e1veis qualidades \u2013 em pouco mais de setenta anos, um prato foi do absoluto ostracismo para a mais org\u00e2nica popularidade.<\/p>\n<p>Ela vai timidamente aparecendo ali por 1952, 1953, em colunas de jornais e revistas, com receitas cuja massa era alta e feita com farinha e batatas cozidas e, na cobertura, levava nada mais que molho de tomates e aliche, e devia ser oferecida como entrada. Sem queijo! Depois, ao longo dos anos, v\u00e3o recomendando acrescentar-lhe \u201cqueijo-cavalo\u201d, a nossa j\u00e1 conhecida mu\u00e7arela, e or\u00e9gano.<\/p>\n<p>E, assim, a pizza foi sendo, devagar, consolidada na culin\u00e1ria brasileira, no pante\u00e3o de nossos sensacionais pratos, podendo competir dignamente com qualquer acaraj\u00e9, feij\u00e3o-tropeiro, mandioca ou pato no tucupi. E n\u00e3o venham me dizer que ela \u00e9 forasteira, porque em mat\u00e9ria de alimenta\u00e7\u00e3o devemos ser universalistas, ecum\u00eanicos, sem qualquer preconceito ou xenofobia.<\/p>\n<p>A pizza \u00e9 um fato social, consolidado. E, isso eu tamb\u00e9m posso testemunhar, h\u00e1 formas de mont\u00e1-la muito populares entre n\u00f3s, mas absolutamente desconhecidas dentre seus conterr\u00e2neos italianos.<\/p>\n<p>Sempre desconfiei de gente que n\u00e3o gosta de pizza, salvo os que se justificam pela intoler\u00e2ncia ao leite e derivados. Mas isso talvez se amenize usando queijo sem lactose. Excelente solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por sorte, tenho perto de mim um restaurante, bem conhecido no Rio de Janeiro, que tem uma \u00f3tima pizza. A segunda na minha prefer\u00eancia, abaixo daquela romana. Vez ou outra, abandonando a ortodoxia, aceito at\u00e9 com\u00ea-la, no rod\u00edzio dessa casa, coberta de strogonoff, o que alguns convivas j\u00e1 classificaram como crime b\u00e1rbaro.<\/p>\n<p>Para acompanh\u00e1-la, qualquer bebida. As pizzas mais nobres v\u00e3o bem com bons vinhos ou mesmo cerveja artesanal. Se quiser ousar, pode ser at\u00e9 um \u201cspritz\u201d. As mais ordin\u00e1rias aceitam a companhia de qualquer guaran\u00e1 gelado.<\/p>\n<p>A pizza \u00e9 a pizza, rec\u00e9m sa\u00edda do forno a lenha ou de um micro-ondas. Alguns gostam dela dormida, diretamente retirada da geladeira onde passou a noite.<\/p>\n<p>Sigamos, pois, nossas vidas lembrando que as melhores horas podem ser coroadas por essa arrojada solu\u00e7\u00e3o gastron\u00f4mica que, com estima e recato, sa\u00fado sinceramente.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pizza, ah, pizza! Orbito em volta de teu c\u00edrculo perfeito de aromas e del\u00edcia. Neruda, dentre todas as suas odes, partiu devendo uma ode \u00e0 pizza, que eu faria se me achasse melhor poeta e estivesse para isso habilitado. 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