{"id":368291,"date":"2025-10-29T01:15:18","date_gmt":"2025-10-29T04:15:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=368291"},"modified":"2025-10-23T22:51:37","modified_gmt":"2025-10-24T01:51:37","slug":"por-conta-de-elogio-que-recebeu-do-eduardo-martinez-cadu-matos-quase-borra-as-calcas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/por-conta-de-elogio-que-recebeu-do-eduardo-martinez-cadu-matos-quase-borra-as-calcas\/","title":{"rendered":"Por conta de elogio que recebeu do Eduardo Mart\u00ednez, Cadu Matos quase borra as cal\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p>Terra de surucucu, on\u00e7a e lobisomem, Campos dos Goytacazes. E eu, niteroiense de quatro costados, tive de ir \u00e0 prov\u00edncia para encarar uma besta-fera mais tem\u00edvel que essas, o coronel Ponciano de Azeredo Furtado, protagonista do imortal romance <em>O coronel e o lobisomem<\/em>, de Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Carvalho. Tudo culpa do Eduardo Mart\u00ednez.<\/p>\n<p>Sucedeu que o escritor-mor do <strong>Notibras<\/strong> jurou por todos os santos que eu era o maior expoente do realismo m\u00e1gico nas letras brasileiras. Pav\u00e3o liter\u00e1rio, abri a cauda de puro prazer; mas quando ele declarou que eu era t\u00e3o bom quanto Z\u00e9 C\u00e2ndido e o superava gra\u00e7as ao grande n\u00famero de meus textos, refuguei, apresentei agravos, declarei-me tiete do Z\u00e9, condi\u00e7\u00e3o partilhada pelo pr\u00edncipe das letras notibrenses. E a vida seguiu.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o resisti, peguei meu velho exemplar do romance, e o reli. (Re)encantei-me com as brincadeiras lingu\u00edsticas do autor, com personagens como o capit\u00e3o Vermelhinho, um galinho valente \u2013 grande xod\u00f3 de Ponciano, que sempre o cumprimentava dizendo \u201cComo vai sua pessoinha?\u2019 \u2013, pela lubricidade do coronel diante das partes altas e baixas das donzelas e senhoras, separadas por uma cinturinha de pil\u00e3o, por sua senvergonhice militante com as mulheres dos cabar\u00e9s e das casas mais simples de vucovuco&#8230; Tanta coisa gostosa de acompanhar&#8230;<\/p>\n<p>Fui dormir antes de terminar a leitura. E, de repente, estava numa fazendona nos arredores de Campos. Nesse momento, vi se aproximar um homenzarr\u00e3o de quase 2 metros de altura, com uma barba maior que a minha. Eu o reconheci no ato: Ponciano de Azeredo Furtado, coronel da Guarda Nacional.<\/p>\n<p>Olhou-me com desprezo, de cima \u2013 sou baixinho, menos de 1m65 \u2013 e trovejou:<\/p>\n<p>&#8211; Como vai sua pessoinha?<\/p>\n<p>Captei a indireta \u00e0 minha parca altitude, fingi n\u00e3o ter percebido, sorri amarelo e respondi:<\/p>\n<p>&#8211; Vou bem, como Deus \u00e9 servido, gra\u00e7as \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da Virgem Maria e dos santos. E o senhor, coronel?<\/p>\n<p>(Ponciano era cat\u00f3lico, o catolicismo dominava o Brasil em 1964, quando o romance foi lan\u00e7ado. Sou agn\u00f3stico, v\u00e1 l\u00e1, ateu, mas declarar isso era a senha para levar umas porradas no meio dos cornos.)<\/p>\n<p>O coronel n\u00e3o respondeu a meu cumprimento. Fuzilou-me com o olhar e trovejou:<\/p>\n<p>&#8211; Soube que o senhor est\u00e1 se dizendo melhor romancista que meu criador, o grande Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Carvalho.<\/p>\n<p>&#8211; Cal\u00fania da grossa, coronel! N\u00e3o sou romancista, s\u00f3 escrevo contos, e sou um profundo admirador de Jos\u00e9 C\u00e2ndido! (N\u00e3o me declarei tiete dele, Ponciano n\u00e3o conhecia o termo.)<\/p>\n<p>&#8211; Humpf \u2013 meio que rosnou. \u2013 E, que mal lhe pergunte, o que vem fazer aqui?<\/p>\n<p>&#8211; Vim conhecer as belezas de Campos dos Goytacazes, e em especial as terras f\u00e9rteis do coronel Ponciano de Azeredo Furtado, com quem tenho a honra de prosear.<\/p>\n<p>Aquilo o amoleceu. Deu um meio sorriso e declarou que por pouco n\u00e3o o encontrava, estava indo para Campos e talvez entrasse no com\u00e9rcio de a\u00e7\u00facar. Eu, tendo lido o que aconteceria, n\u00e3o o preveni de que n\u00e3o ia dar certo, vai que a interven\u00e7\u00e3o de um leitor, ainda que em sonho ou numa dimens\u00e3o paralela, desfazia a magn\u00edfica trama urdida por Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Carvalho. Louvei suas perip\u00e9cias, a surra no ferrabr\u00e1s do circo, a ca\u00e7ada da on\u00e7a, a captura do lobisomem, ele gostou de eu saber tanta coisa sobre sua pessoa. Ficamos assim, jogando conversa fora, at\u00e9 que senti, n\u00e3o sei como, que seria levado de volta. Despedi-me:<\/p>\n<p>&#8211; Bom, tenho de voltar, coronel. Por favor, apresente meus cumprimentos \u00e0 pessoinha do capit\u00e3o Vermelhinho P\u00e9 de Pil\u00e3o. A meu ver, seu carinho pelo galinho valente, campe\u00e3o das rinhas, \u00e9 um dos pontos altos do romance.<\/p>\n<p>Essas palavras o conquistaram. Deu-me um abra\u00e7o de urso. Depois que consegui desvencilhar-me, me vi de volta no meu apartamento, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Antes de dormir, ou voltar a dormir, ainda pensei:<\/p>\n<p>\u201cUfa, dessa vez escapei. Mas foi por pouco, Eduardo Mart\u00ednez\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Terra de surucucu, on\u00e7a e lobisomem, Campos dos Goytacazes. 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