{"id":368387,"date":"2025-10-26T01:15:00","date_gmt":"2025-10-26T04:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=368387"},"modified":"2025-10-24T22:46:45","modified_gmt":"2025-10-25T01:46:45","slug":"nem-tudo-foram-flores-na-vida-da-escritora-maura-lopes-cancado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nem-tudo-foram-flores-na-vida-da-escritora-maura-lopes-cancado\/","title":{"rendered":"Nem tudo foram flores na vida da escritora Maura Lopes Can\u00e7ado"},"content":{"rendered":"<p>A retratada de hoje em O Lado B da Literatura publicou seus dois \u00fanicos livros na d\u00e9cada de 1960 e desde muito pequena, gostava de contar hist\u00f3rias. Maura Lopes Can\u00e7ado, mineira, era conhecida pela comunidade liter\u00e1ria carioca, bem como era tida como grande promessa. Mas nem tudo foram flores na sua vida.<\/p>\n<p>Nascida em uma fam\u00edlia numerosa, Maura era a nona de onze filhos. Jos\u00e9 Maria Lopes Can\u00e7ado, primo do pai da escritora, foi um dos parlamentares que participaram da Constituinte de 1946. J\u00e1 a m\u00e3e de Maura descendia de Dona Joaquina de Pompeu, personagem hist\u00f3rica de Minas Gerais.<\/p>\n<p>Maura era muito criativa. Tanto \u00e9 que adorava inventar hist\u00f3rias como, por exemplo, de que seria filha de russos, e que um dos seus tios teria nascido na China.<\/p>\n<p>Sofria de crises epil\u00e9ticas e, segundo dizia, teria sofrido abuso sexual por empregados que trabalhavam para a fam\u00edlia. Se isso era ou n\u00e3o verdade, n\u00e3o me conv\u00e9m duvidar, mesmo porque casos assim aconteciam e, infelizmente, continuam acontecendo.<\/p>\n<p>Estudou no col\u00e9gio Sacre-Coeur de Marie, ainda em Minas Gerais. J\u00e1 aos 14 anos, integrou o aeroclube, onde acabou conhecendo seu marido, com quem teve seu \u00fanico filho, Cesarion Praxedes, que veio a se tornar escritor e jornalista. Seja como for, logo ap\u00f3s o nascimento da crian\u00e7a, Maura se separou do marido.<\/p>\n<p>Aos 18 anos, ela se internou voluntariamente na Casa de Sa\u00fade Santa Maria, em Belo Horizonte. Foi l\u00e1 que ela foi diagnosticada com esquizofrenia. Na ocasi\u00e3o, ela disse: \u201cNingu\u00e9m entendeu esta interna\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser eu mesma: necessitava desesperadamente de amor e prote\u00e7\u00e3o\u2026 o sanat\u00f3rio parecia-me rom\u00e2ntico e belo. Havia um certo mist\u00e9rio que me atra\u00eda.\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o, Maura passou a ter uma vida bo\u00eamia. Ela bebia em demasia, al\u00e9m de se tornar ass\u00eddua frequentadora da noite na capital mineira. Herdeira, viveu do dinheiro da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Quatro anos ap\u00f3s, j\u00e1 aos 22 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, com o intuito de ser escritora. Publicou contos e cr\u00f4nicas no Jornal do Brasil e no Correio da Manh\u00e3. Todavia, n\u00e3o apenas de glamour foram seus dias na ent\u00e3o capital do pa\u00eds, j\u00e1 que tamb\u00e9m apareceu por diversas oportunidades nas p\u00e1ginas policiais, pois eram constantes as brigas com seu empres\u00e1rio e, em 1955, tentou suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Em 1958, ano importante da hist\u00f3ria brasileira, Maura publicava ao lado de in\u00fameros ilustres jornalistas da \u00e9poca: M\u00e1rio Faustino, Ferreira Gullar, Carlos Heitor Cony e Reynaldo Jardim. Inclusive um dos seus contos, &#8220;No quadrado de Joana&#8221;, cuja personagem era uma paciente catat\u00f4nica, causou furor entre os in\u00fameros leitores.<\/p>\n<p>Maura Lopes Can\u00e7ado publicou seus dois \u00fanicos livros nos conturbados anos 1960. &#8220;O hosp\u00edcio \u00e9 Deu&#8221;, 1965, e &#8220;O Sofredor do ver&#8221;, 1968. O primeiro retrata o seu per\u00edodo de interna\u00e7\u00e3o no Hospital do Engenho de Dentro, na Zona Norte do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Autora prol\u00edfera, Maura publicava frequentemente em peri\u00f3dicos da \u00e9poca, com destaque para o Jornal do Brasil. Isso at\u00e9 que, em 1972, a escritora estrangulou e matou uma paciente na Cl\u00ednica de Sa\u00fade Doutor Eiras, em Botafogo. Acabou condenada por homic\u00eddio e, por ter sido considerada inimput\u00e1vel, ficou internada no Hospital Penal da Penitenci\u00e1ria Lemos de Brito, em cub\u00edculo sujo e infestado de percevejos, onde passou seis anos.<\/p>\n<p>Maltratada e praticamente cega e desnutrida, a antes proeminente escritora precisou de cuidados psiqui\u00e1tricos para o resto da vida, inclusive ap\u00f3s a sua liberta\u00e7\u00e3o, em 1980. A partir da\u00ed, foi internada em diversas cl\u00ednicas at\u00e9 que sucumbiu a um infarto no dia 19 de dezembro de 1993, ainda no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Eis algumas falas da nossa autora retratada:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o d\u00e3o ao louco nem o direito de ser louco. Por que ningu\u00e9m castiga o tuberculoso, quando \u00e9 v\u00edtima de uma hemoptise e vomita sangue? Por que os \u2018castigos\u2019 aplicados ao doente mental quando ele se mostra sem raz\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s, mulheres despojadas, sem ontem nem amanh\u00e3, t\u00e3o livres que nos despimos quando queremos. Ou rasgamos os vestidos (o que d\u00e1 ainda um certo prazer). Ou mordemos. Ou cantamos, alto e reto, quando tudo parece tragado, perdido. (\u2026) N\u00f3s, mulheres soltas, que rimos doidas por tr\u00e1s das grades \u2014 em excesso de liberdade. (\u2026)\u201d<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/p>\n<p><strong>Cassiano Cond\u00e9, 82, ga\u00facho, deixou de teclar reportagens nas reda\u00e7\u00f5es por onde passou. Agora finca os p\u00e9s nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai p\u00e9rolas que se transformam em cr\u00f4nicas.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A retratada de hoje em O Lado B da Literatura publicou seus dois \u00fanicos livros na d\u00e9cada de 1960 e desde muito pequena, gostava de contar hist\u00f3rias. Maura Lopes Can\u00e7ado, mineira, era conhecida pela comunidade liter\u00e1ria carioca, bem como era tida como grande promessa. Mas nem tudo foram flores na sua vida. Nascida em uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":368388,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-368387","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/368387","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=368387"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/368387\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":368390,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/368387\/revisions\/368390"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/368388"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=368387"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=368387"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=368387"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}