{"id":368493,"date":"2025-10-27T02:00:02","date_gmt":"2025-10-27T05:00:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=368493"},"modified":"2025-10-26T14:10:13","modified_gmt":"2025-10-26T17:10:13","slug":"a-vida-atropela-os-verborragicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-vida-atropela-os-verborragicos\/","title":{"rendered":"A vida atropela os verborr\u00e1gicos"},"content":{"rendered":"<p>Sabe aquela coisa que n\u00e3o muda a dire\u00e7\u00e3o do vento, que n\u00e3o altera a vida de um m\u00edsero gr\u00e3o de arroz, mas que instiga o sujeito a se questionar, nem que por um mil\u00e9simo de segundo? Nem sei se aconteceu exatamente assim, mas considero a vers\u00e3o t\u00e3o boa, que vou tentar exp\u00f4-la sem subterf\u00fagios para tentar agradar aos olhos curiosos ou l\u00e2nguidos de algum leitor.<\/p>\n<p>Tr\u00eas amigos, n\u00e3o mais que tr\u00eas. Se bem que j\u00e1 ouvi que havia um quarto e, n\u00e3o duvido, at\u00e9 mesmo um quinto. Seja como for, para economizar o seu tempo, ficaremos com a tr\u00edade, sendo dois aposentados, cujo compromisso naquela noite parecia ser apenas n\u00e3o chegar muito tarde e, ainda mais importante, n\u00e3o t\u00e3o embriagados, aos respectivos lares, todos a n\u00e3o mais do que alguns passos, mesmo que cambaleantes, do bar do Alberico, o terceiro, que era portugu\u00eas radicado no Brasil desde o final dos anos 1970.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do Alberico, estavam por ali o Josias e o Sousa. O primeiro havia sido banc\u00e1rio por quase 40 anos. Do Banco do Brasil, fazia quest\u00e3o de dizer, como se aquilo fosse uma ta\u00e7a, mais importante at\u00e9 do que a Jules Rimet.<\/p>\n<p>\u2014 Concurso! Passei por concurso. N\u00e3o foi pela janela, como era comum na \u00e9poca. M\u00e9-ri-to!<\/p>\n<p>J\u00e1 o Sousa, apesar de n\u00e3o ter a pompa do colega, desfrutava de condi\u00e7\u00e3o financeira praticamente id\u00eantica, com vantagem de levar vida mais modesta, pois n\u00e3o se preocupava com vestimentas e muito menos com sapatos de grifes famosas, que eram fetiches do amigo. Usava o que tinha at\u00e9 que a mulher n\u00e3o suportasse mais ver o marido trajando aquela camisa surrada e, sem qualquer aviso, a direcionasse para doa\u00e7\u00e3o ou, em casos extremos, para a lata de lixo.<\/p>\n<p>\u2014 Pois, meu amigo, como voc\u00ea bem sabe, e nunca escondi isso de ningu\u00e9m, inclusive do nobre Alberico, que h\u00e1 mais de d\u00e9cada tem a paci\u00eancia de aturar nossos porres, sejam et\u00edlicos, sejam verborr\u00e1gicos, o que consegui na vida foi por indica\u00e7\u00e3o de parente ou cupincha. Mas vida que segue, e n\u00e3o cabe aqui pito, pois ela \u00e9 curta e n\u00e3o pede passagem. Atropela!<\/p>\n<p>Alberico, nesse momento, esbo\u00e7ou seu sorriso mais sarc\u00e1stico, o que provocou interroga\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas nos parceiros. Josias, o mais cismado do trio, arregalou os olhos e cuspiu palavras.<\/p>\n<p>\u2014 Alguma coisa que n\u00e3o captei, Alberico?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 nada.<\/p>\n<p>\u2014 Como n\u00e3o \u00e9 nada?<\/p>\n<p>\u2014 Bem, na verdade, n\u00e3o sei nem por que, o que o Sousa disse me fez lembrar de algo que meu pai costumava falar.<\/p>\n<p>\u2014 Pois diga!<\/p>\n<p>\u2014 Sim, Alberico! Compartilhe aqui comigo e o nosso ansioso Josias.<\/p>\n<p>\u2014 Ansioso? Eu?<\/p>\n<p>\u2014 E quem mais seria?<\/p>\n<p>\u2014 E por que n\u00e3o voc\u00ea, Sousa?<\/p>\n<p>\u2014 Deixa quieto, ent\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 De jeito nenhum! Se ati\u00e7ou, quero saber o que o pai do Alberico dizia.<\/p>\n<p>Enquanto os dois discutiam que nem velhos amigos fazem, Alberico tentava buscar na mem\u00f3ria as exatas palavras do pai. Como \u00e9 que era mesmo que ele discursava? E, do nada, desandou a falar, o que fez os dois resmung\u00f5es pararem e prestar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Meus amigos, meu pai dizia que quase todo mundo tem que saber escrever apenas telegrama. Sabe aquela coisa sem rodeios? Pois \u00e9, nada de &#8220;ti&#8221;, &#8220;te&#8221;, &#8220;si&#8221;, &#8220;se&#8221;, &#8220;mi&#8221;, &#8220;me&#8221;. &#8220;Lhe&#8221;, &#8220;lho&#8221; e &#8220;lha&#8221;, ent\u00e3o, t\u00e1 de brincadeira! Sucinto! A vida urge! Sou comerciante, sou p\u00e1-p\u00e1-p\u00e1, p\u00e1-p\u00e1-p\u00e1, ponto! T\u00e9-t\u00e9-t\u00e9, t\u00e9-t\u00e9-t\u00e9, ponto! S\u00f3 quem tem que saber escrever \u00e9 advogado e engenheiro. Nem m\u00e9dico precisa, n\u00e9?! Porque m\u00e9dico escreve aqueles garranchos e ningu\u00e9m entende. Se ele estiver receitando veneno, n\u00e3o tem como provar. Sou econ\u00f4mico nas palavras. Sem subterf\u00fagios. Minhas ideias s\u00e3o curtas, com a maior precis\u00e3o poss\u00edvel, com o menor n\u00famero de palavras poss\u00edvel. Papai estava ou n\u00e3o certo?<\/p>\n<p>Os dois ouvintes se entreolharam e, quase em un\u00edssono, responderam:<\/p>\n<p>\u2014 Disse tudo!<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabe aquela coisa que n\u00e3o muda a dire\u00e7\u00e3o do vento, que n\u00e3o altera a vida de um m\u00edsero gr\u00e3o de arroz, mas que instiga o sujeito a se questionar, nem que por um mil\u00e9simo de segundo? 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