{"id":368618,"date":"2025-10-28T00:00:12","date_gmt":"2025-10-28T03:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=368618"},"modified":"2025-10-27T16:45:32","modified_gmt":"2025-10-27T19:45:32","slug":"o-narigudo-sonhador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-narigudo-sonhador\/","title":{"rendered":"O narigudo sonhador"},"content":{"rendered":"<p>Desde a adolesc\u00eancia, Dermeval se identificava a um personagem inusitado, bem diferente dos roqueiros, jogadores de futebol e outros avatares da galera: Cyrano de Bergerac.<\/p>\n<p>Aos 15 anos, ele preenchia todos os requisitos para isso. Trazia no lombo uma boa dose de romantismo, que nem Cyrano; era meio mal acabado de focinho (tinha dentes saltados, lembrava os generais japoneses nos quadrinhos americanos ambientados na Segunda Guerra Mundial), seu \u00eddolo tinha um narig\u00e3o de responsa; manejava bem as palavras, \u00e0 semelhan\u00e7a do poeta-duelista; e gostava do fuzu\u00ea, sonhava em arranjar uma parceira de amor eterno e de cama por\u00e9m, tadinho, era virgem de marr\u00e9 de si.<\/p>\n<p>Outro requisito preenchido a contento, teve aulas de Franc\u00eas no Ensino M\u00e9dio e, nelas, conheceu passagens da bela pe\u00e7a teatral de Edmond Rostand. Chegou a incorporar, como um bord\u00e3o pr\u00f3prio, as desafiadoras palavras finais da pe\u00e7a, pronunciadas por Cyrano antes de morrer, algo que ele conservaria at\u00e9 o fim, sem manchas: mon panache, meu brio.<\/p>\n<p>O tempo passou, Dermeval fez um tratamento odontol\u00f3gico e corrigiu os dent\u00f5es, perdeu a virgindade, namorou, cursou jornalismo, arranjou um emprego em um di\u00e1rio carioca, casou, descasou&#8230; Vida comum, o de sempre, ao molho. Certo dia, vasculhando um sebo do Rio de Janeiro, deu de cara com um livro coberto de poeira, intitulado La vraie histoire de Cyrano de Bergerac, a verdadeira hist\u00f3ria de Cyrano de Bergerac. N\u00e3o havia assinatura de autor.<\/p>\n<p>Comprou-o e, de volta para casa, lan\u00e7ou-se \u00e0 leitura. Meio decepcionado, deparou-se com informa\u00e7\u00f5es que j\u00e1 conhecia. Seu her\u00f3i n\u00e3o era fruto da imagina\u00e7\u00e3o de Rostand mas existiu realmente, nasceu em Paris em 1619 e recebeu o nome de Hector Savinien de Cyrano (o Bergerac s\u00f3 foi incorporado em 1638). Foi soldado e notabilizou-se como duelista. Tamb\u00e9m foi poeta e romancista. Pioneiro do g\u00eanero fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, escreveu os romances Hist\u00f3ria C\u00f4mica dos Estados e Imp\u00e9rios da Lua e Hist\u00f3ria C\u00f4mica dos Estados e Imp\u00e9rios do Sol. No primeiro, publicado em 1657, dois anos ap\u00f3s sua morte, apresentou a primeira descri\u00e7\u00e3o de um mecanismo para viagens espaciais.<\/p>\n<p>Impaciente, j\u00e1 sabedor de tudo isso, Dermeval pensou em largar o livro, quando se deparou com um subt\u00edtulo sugestivo: Le nez, o nariz. Na pe\u00e7a, o enorme tamanho do ap\u00eandice nasal era a fonte dos infort\u00fanios do poeta; o que teria se passado na realidade? Prosseguiu com a leitura e deparou-se com um relato picante (ou naso-xoxotante, neologismo mais apropriado, dadas as circunst\u00e2ncias).<\/p>\n<p>Com seu nariz desmesurado, maior que qualquer l\u00edngua, maior que qualquer bilau, Cyrano fazia a alegria das senhoras da nobreza da Fran\u00e7a (e de algumas donzelas mais saidinhas). Era s\u00f3 encaixar o narig\u00e3o e em pouco tempo elas chegavam ao cl\u00edmax. Por sorte, ele gostava do odor da coisa; sen\u00e3o, teria o destino da pobre \u00e1guia que todos os dias devorava o f\u00edgado de Prometeu, diariamente regenerado, e que, tadinha, detestava f\u00edgado&#8230;<\/p>\n<p>O autor desconhecido prosseguiu, lembrando que mucosas nasais s\u00e3o delicadas e vulner\u00e1veis. Informou em seguida que, certa noite, Cyrano recebeu de uma duquesa madura, mais que rodada, uma dose cavalar de uma doen\u00e7a sexualmente transmiss\u00edvel. Uma semana depois, num baile de gala, o poeta-espadachim teve um acesso incontrol\u00e1vel de espirros e espalhou por todos os lados a DST. Em seguida, nos palacetes, houve choros e ranger de dentes, incrimina\u00e7\u00f5es e grossa pancadaria. Afinal, muitos atingidos e atingidas ousaram discutir a calamidade e terminaram por identificar o disseminador da quase pandemia: Cyrano de Bergerac, aquele fiodeuma\u00e9gua.<\/p>\n<p>A DST n\u00e3o impediu os maridos dod\u00f3is de armarem uma emboscada contra a pobre v\u00edtima da velha dama indigna e levarem a melhor, pela for\u00e7a dos n\u00fameros, diante do tem\u00edvel duelista. E assim tombou Cyrano, o corpo trespassado de l\u00e2minas que nem uma almofada de alfinetes. Com uma DST das brabas. Sem um pingo de panache.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde a adolesc\u00eancia, Dermeval se identificava a um personagem inusitado, bem diferente dos roqueiros, jogadores de futebol e outros avatares da galera: Cyrano de Bergerac. Aos 15 anos, ele preenchia todos os requisitos para isso. 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