{"id":368727,"date":"2025-10-30T00:15:25","date_gmt":"2025-10-30T03:15:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=368727"},"modified":"2025-10-28T12:08:07","modified_gmt":"2025-10-28T15:08:07","slug":"olimpio-era-chamado-de-coronel-mas-a-rigor-seria-quando-muito-major","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/olimpio-era-chamado-de-coronel-mas-a-rigor-seria-quando-muito-major\/","title":{"rendered":"Ol\u00edmpio era chamado de coronel, mas, a rigor, seria quando muito major"},"content":{"rendered":"<p>Em um dos livros da monumental s\u00e9rie de fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica centralizada nos personagens Jack Aubrey, da Royal Navy, e no m\u00e9dico, naturalista e agente secreto Stephen Maturin, o romancista ingl\u00eas Patrick O\u2019 Brian cria um concurso liter\u00e1rio entre os oficiais de um navio. Um dos oficiais recita um poema e \u00e9 muito aplaudido.<\/p>\n<p>Outro oficial se aproxima dele e diz, hesitante:<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe, senhor, creio que esse poema \u00e9 de autoria de Coleridge&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida. Um dos meus poetas favoritos!<\/p>\n<p>&#8211; Mas o concurso \u00e9 de poemas escritos pelos participantes!<\/p>\n<p>&#8211; Um poema meu? N\u00e3o sou poeta! \u2013 retrucou, ofendido, o oficial.<\/p>\n<p>Foi essa a inspira\u00e7\u00e3o para o conto que voc\u00eas v\u00e3o ler.<\/p>\n<p>A coisa se passou em Cafund\u00f3 do Judas, cidadezinha esquecida do interiorz\u00e3o brasileiro, nos anos 1920. Um latifundi\u00e1rio local, o coronel Ol\u00edmpio, tinha pretens\u00f5es pol\u00edticas, queria se eleger deputado estadual e sair daquela desgraceira. Ele era chamado de coronel, mas, a rigor, seria quando muito major: havia outros coron\u00e9is na regi\u00e3o bem mais poderosos e influentes, todos deputados na capital distante, todos gozando de seu conforto&#8230;<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o se aproximava e, durante uma reuni\u00e3o de campanha, um assessor observou:<\/p>\n<p>-Coronel Ol\u00edmpio, vai ser dif\u00edcil. O senhor tem menos terras, menos agregados e jagun\u00e7os que outros latifundi\u00e1rios candidatos. Ent\u00e3o ser\u00e1 quase imposs\u00edvel se eleger segundo o esquem\u00e3o tradicional, de compra de votos, queima de urnas, falsifica\u00e7\u00e3o de atas eleitorais, porrada nos com\u00edcios dos advers\u00e1rios&#8230;<\/p>\n<p>O aspone tomou f\u00f4lego e prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; Dif\u00edcil, repito, mas n\u00e3o imposs\u00edvel. Al\u00e9m de garantir o voto de seus pe\u00f5es, sugiro que o senhor explore um fil\u00e3o que seus advers\u00e1rios ignoram ou desprezam: as camadas urbanas de Cafund\u00f3 do Judas, as elites locais, que tenho a honra de integrar.<\/p>\n<p>O coronel explodiu.<\/p>\n<p>&#8211; Elites locais? Essa disgrama n\u00e3o tem nada, s\u00f3 o padre, o juiz, dois ou tr\u00eas advogados, dois ou tr\u00eas m\u00e9dicos, um punhado de meganhas, outro tanto de professoras prim\u00e1rias, uns 30 comerciantes, uns 50 funcion\u00e1rios da prefeitura&#8230; Tudo somado, n\u00e3o s\u00e3o mais que 150 pessoas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sempre esquecidas pelos coron\u00e9is enviados ao Legislativo \u2013 cortou o assessor. \u2013 Se o senhor se aproximar dessas elites, pode obter no m\u00ednimo uns 120 votos e, com os da pe\u00e3ozada, tem boas chances de se eleger.<\/p>\n<p>O coronel Ol\u00edmpio co\u00e7ou q cabe\u00e7a, afagou a barba, mas terminou por embarcar no esquema.<\/p>\n<p>Encarregado de conduzir o namoro coronel-elites, o assessor inscreveu o senhor Ol\u00edmpio Bastos (o nome da fera, raramente usado) em um concurso de poesias. O coronel n\u00e3o se importou muito, gostava de ler versos, de ouvir repentistas, essas coisas. Chegou a noite do concurso, chegou a vez do coronel Ol\u00edmpio exibir seu talento. Ele mandou ver:<\/p>\n<p>\u201c\u00daltima flor do L\u00e1cio, inculta e bela&#8230;\u201d<\/p>\n<p>E foi em frente, com um sotaque cafund\u00f3dojudasense fort\u00edssimo, gaguejando nas estrofes, pronunciando mal as palavras. \u201cInculta\u201d virou \u201cincurta\u201d, foi pior em \u201ctuba de alto clangor\u201d, transformada em \u201ctuba de arto crangor\u201d. No final, ouviram-se aplausos hesitantes.<\/p>\n<p>Meio sem jeito, o assessor aproximou-se dele.<\/p>\n<p>&#8211; Foi muito bom, coronel, mas esse soneto \u00e9 de Olavo Bilac&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Claro que \u00e9 de Bilac! Meu poeta preferido, um poema supimpa! Rimas lindas, nada desses versinhos de p\u00e9 quebrado que um bando de modernistas fiosdeuma\u00e9gua est\u00e3o escrevendo no Rio e em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas coronel, o concurso \u00e9 de poesias escritas pelos participantes&#8230;<\/p>\n<p>O coronel co\u00e7ou a cabe\u00e7a, afagou a barba, pensou, \u201cPra quem t\u00e1 no inferno, Ave Maria \u00e9 lenha\u201d e anunciou ao respeit\u00e1vel p\u00fablico, todo pimp\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Senhores e senhoras, confrades de letras, recitei um soneto do imortal Olavo Bilac. Recitarei agora um poema de minha autoria, Dioneia, a rainha do cabar\u00e9.<\/p>\n<p>Era uma homenagem do adolescente Ol\u00edmpio \u00e0 puta mais rodada da regi\u00e3o, aposentada faz tempinho, que o iniciara nos prazeres do vucovuco. Poema funcionalista, descrevia cada parte da anatomia da diva, seu uso na cama e ia descendo, da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. Mencionava a boca gulosa, a l\u00edngua de ouro, os seios generosos, \u201cque se ofereciam a uma espanhola\u201d, os mamilos durinhos \u201cque imploravam por lambidas\u201d, o ventre curvo, \u201c\u00e1vido de mordidas&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Quando o coronel louvou o umbigo de Dioneia e se preparava para seguir em frente, imp\u00e1vido, as damas presentes tiveram faniquitos (ou fingiram que). J\u00e1 os senhores ficaram indignados (ou fingiram que; alguns enxugaram l\u00e1grimas furtivas, fruto da saudade de Dioneia, desvirginadora de tantos deles). O resultado foi que o coronel teve de interromper o p\u00e9riplo pelo corpo da atleta e deixou o palco sob uma chuva de vaias e palavr\u00f5es.<\/p>\n<p>No dia seguinte, toda a popula\u00e7\u00e3o de Cafund\u00f3 do Judas comentava as desventuras do coroneta, o coronel-poeta. O apelido se alastrou como fogo em pasto seco, o \u201c\u00e9\u201d de poeta logo deu lugar ao \u201c\u00ea\u201d de perneta, coron\u00eata o coronel se tornou. E assim permaneceu. Mas transforma\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas ocorrem o tempo todo, e coron\u00eata passou a ser pronunciado corneta. Ningu\u00e9m achava que era uma refer\u00eancia ao instrumento musical. Para azar do coronel, era um termo regional para marido tra\u00eddo.<\/p>\n<p>Na elei\u00e7\u00e3o, o coroneta-corneta levou a maior surra de sua vida, abandonado pelos pe\u00f5es e agregados, at\u00e9 pelos que mais dependiam dele para sobreviver. Quando os jagun\u00e7os iam castigar os traidores, ouviam como resposta:<\/p>\n<p>&#8211; Podem me bater, mas n\u00e3o voto em corno!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um dos livros da monumental s\u00e9rie de fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica centralizada nos personagens Jack Aubrey, da Royal Navy, e no m\u00e9dico, naturalista e agente secreto Stephen Maturin, o romancista ingl\u00eas Patrick O\u2019 Brian cria um concurso liter\u00e1rio entre os oficiais de um navio. 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