{"id":368836,"date":"2025-10-30T03:55:06","date_gmt":"2025-10-30T06:55:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=368836"},"modified":"2025-10-30T04:00:44","modified_gmt":"2025-10-30T07:00:44","slug":"brasil-vira-curral-onde-reina-a-descrenca-de-um-povo-tomado-pelo-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-vira-curral-onde-reina-a-descrenca-de-um-povo-tomado-pelo-medo\/","title":{"rendered":"Brasil vira curral onde reina a descren\u00e7a de um povo tomado pelo medo"},"content":{"rendered":"<p>Z\u00e9 Ramalho escreveu Admir\u00e1vel Gado Novo como quem desabafa por um pa\u00eds inteiro. Na can\u00e7\u00e3o, o \u201cpovo marcado, povo feliz\u201d n\u00e3o \u00e9 uma ironia qualquer; \u00e9 o retrato de uma na\u00e7\u00e3o que aprendeu a suportar o sofrimento com um sorriso de resigna\u00e7\u00e3o. D\u00e9cadas depois, a met\u00e1fora continua viva. Mudaram os figurinos, os donos do pasto e as cercas de arame. O gado, por\u00e9m, continua o mesmo: ordeiro, manso, disciplinado, seguindo o som do berrante da esperan\u00e7a que nunca se cumpre.<\/p>\n<p>Quando escrevi anos atr\u00e1s um artigo com o mesmo tema, quis retratar o que via nos corredores superlotados da sa\u00fade p\u00fablica: a fila do sofrimento, o olhar cansado, a impot\u00eancia coletiva diante da omiss\u00e3o do poder. Hoje, a met\u00e1fora se amplia. O pa\u00eds inteiro vive em currais cada vez mais sofisticados, currais da viol\u00eancia, da pobreza, da desinforma\u00e7\u00e3o e da manipula\u00e7\u00e3o. O Rio de Janeiro \u00e9 talvez o espelho mais n\u00edtido dessa trag\u00e9dia nacional, um territ\u00f3rio onde a lei se dobra \u00e0 for\u00e7a do crime e onde o cidad\u00e3o comum aprende a conviver com o medo como quem convive com a chuva.<\/p>\n<p>A criminalidade se transformou num Estado paralelo. H\u00e1 bairros onde o poder p\u00fablico s\u00f3 entra escoltado, onde o sil\u00eancio \u00e9 mais seguro que a palavra e onde a liberdade custa mais caro que a vida. \u00c9 o mesmo gado, agora tangido por fac\u00e7\u00f5es, por mil\u00edcias, por d\u00edvidas e por promessas de salva\u00e7\u00e3o. O curral \u00e9 o mesmo, apenas trocou de porteira.<\/p>\n<p>E enquanto o caos se espalha, o povo segue marcado, mas teimosamente feliz. \u00c9 a felicidade poss\u00edvel de quem aprende a rir da pr\u00f3pria dor. \u00c9 o contentamento de quem sobrevive a cada dia sem saber se haver\u00e1 outro. O povo marcado por balas perdidas, por filas, por promessas que n\u00e3o se cumprem. E ainda assim, o povo feliz, porque a esperan\u00e7a, mesmo mutilada, \u00e9 o \u00faltimo instinto do gado antes do abate.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Ramalho viu longe. O gado novo de que fala n\u00e3o \u00e9 feito de carne e osso apenas, mas de conformismo e cansa\u00e7o. O povo brasileiro virou especialista em adaptar-se. J\u00e1 n\u00e3o protesta, compartilha memes. J\u00e1 n\u00e3o exige, agradece o m\u00ednimo. J\u00e1 n\u00e3o sonha, se contenta com o poss\u00edvel. E entre uma trag\u00e9dia e outra, volta a cantar, como se cantar bastasse para esquecer.<\/p>\n<p>Vivemos, enfim, num pa\u00eds de currais invis\u00edveis. Currais de medo, de descren\u00e7a, de obedi\u00eancia. Cada um de n\u00f3s tem seu brete particular, de onde enxerga o mundo com as mesmas grades que o aprisionam. E seguimos assim, admiravelmente gado novo, tentando parecer felizes enquanto o pasto some e o mugido ecoa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Z\u00e9 Ramalho escreveu Admir\u00e1vel Gado Novo como quem desabafa por um pa\u00eds inteiro. Na can\u00e7\u00e3o, o \u201cpovo marcado, povo feliz\u201d n\u00e3o \u00e9 uma ironia qualquer; \u00e9 o retrato de uma na\u00e7\u00e3o que aprendeu a suportar o sofrimento com um sorriso de resigna\u00e7\u00e3o. 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