{"id":368925,"date":"2025-10-31T00:00:31","date_gmt":"2025-10-31T03:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=368925"},"modified":"2025-10-30T21:42:57","modified_gmt":"2025-10-31T00:42:57","slug":"o-sono-dos-justos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-sono-dos-justos\/","title":{"rendered":"O sono dos Justos"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto familiares de cidad\u00e3os cariocas ainda aguardavam o Instituto M\u00e9dico Legal, numa pra\u00e7a, ela desligou o canal da TV onde passava a chacina do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Pensou nos governos que se elegeram com discurso a favor do armamento civil.<\/p>\n<p>Conferiu: o marido j\u00e1 adormecera. Por falta de interlocutor, passou a entrevistar a &#8220;Amiga Imagin\u00e1ria&#8221; que ainda tinha a mesma face infantil.<\/p>\n<p>Como cidad\u00e3 brasileira, quem voc\u00ea foi durante o per\u00edodo hist\u00f3rico de 1985 a 2025?<\/p>\n<p>Como assistiu \u00e0 luta pela mem\u00f3ria e justi\u00e7a feita pelas mulheres das fam\u00edlias dos mortos pela ditadura?<\/p>\n<p>Onde \u00e9 seu lugar de fala, ao considerar o contexto atual e a import\u00e2ncia de refletir sobre o passado para entender o presente?<\/p>\n<p>Para voc\u00ea, as perguntas ressoam n\u00e3o apenas como uma quest\u00e3o existencial, mas tamb\u00e9m como um chamado \u00e0 reflex\u00e3o sobre nossa identidade coletiva e posi\u00e7\u00e3o na sociedade?<\/p>\n<p>Como professora de Literatura, voc\u00ea considera que inserir tal tema num conto ou poema pode influenciar a forma como os leitores interpretam a hist\u00f3ria e se engajam com as quest\u00f5es sociais?<\/p>\n<p>Encerrou a entrevista ao considerar que n\u00e3o tinha mais idade para varar noite em claro, e se preparou pra dormir.<\/p>\n<p>J\u00e1 na cama, veio aquela imers\u00e3o num texto escrito a seis m\u00e3os e publicado pelo Caf\u00e9 Liter\u00e1rio Notibras, em 11\/03\/2025.<\/p>\n<p>Trata-se de uma narrativa fragmentada que combina elementos de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, surrealismo e cr\u00edtica social.<\/p>\n<p>O texto come\u00e7a com o protagonista acordando em um planeta desconhecido, possivelmente Marte, com uma m\u00e1scara de oxig\u00eanio. Ele tenta se levantar, mas suas pernas n\u00e3o respondem. Essa cena simboliza a sensa\u00e7\u00e3o de desorienta\u00e7\u00e3o que podemos experimentar em momentos de crise ou mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>O protagonista come\u00e7a a caminhar pelo planeta desolado, procurando por algo, mas n\u00e3o sabe o qu\u00ea. Busca por significado e prop\u00f3sito na vida?<\/p>\n<p>A areia que cobre o ch\u00e3o do planeta desconhecido representa a vastid\u00e3o e a indiferen\u00e7a do universo.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio \u00e1rido, a mem\u00f3ria do protagonista sobre uma lasanha feita com uma massa diferente da habitual remete \u00e0 nostalgia por um passado mais simples e familiar.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o sobre a mudan\u00e7a e a abdu\u00e7\u00e3o representa a sensa\u00e7\u00e3o de estar perdido e desconectado do mundo ao redor.<\/p>\n<p>A cena final passa-se numa pra\u00e7a, ou seja, num espa\u00e7o coletivo com reminisc\u00eancias de pr\u00e1tica democr\u00e1tica. Na pra\u00e7a, o protagonista, visto como um vagabundo ou um delinquente, constata uma sociedade que julga e marginaliza aqueles que n\u00e3o se encaixam nos padr\u00f5es estabelecidos.<\/p>\n<p>O texto apresenta elementos surreais e fant\u00e1sticos, como a caverna vazia no planeta marciano e o botequim que conserta discos voadores. Esses elementos podem representar a imagina\u00e7\u00e3o e a criatividade como formas de escapar da realidade e encontrar significado.<\/p>\n<p>A pergunta das senhoras na pra\u00e7a sobre a desilus\u00e3o que o deixou &#8220;largado no banco de pra\u00e7a&#8221; pode ser uma reflex\u00e3o sobre a perda de identidade e prop\u00f3sito que podemos experimentar em momentos de crise.<\/p>\n<p>Feita a reflex\u00e3o sobre a condi\u00e7\u00e3o humana, a busca por significado e a rela\u00e7\u00e3o entre a realidade e a fantasia, a leitora entrou em estado hipnag\u00f3gico: aquela regi\u00e3o entre vig\u00edlia e sonho&#8230;<\/p>\n<p>Adormeceu embalada por tr\u00eas vozes que se revezavam na leitura do texto &#8220;Consertamos discos voadores&#8221;.<\/p>\n<p>E at\u00e9 a manh\u00e3 seguinte, dormiu o sono a que sua &#8220;Amiga Imagin\u00e1ria&#8221; tinha direito &#8230;<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Edna Domenica \u00e9 educadora, cronista e cidad\u00e3 brasileira. Autora de Aquecendo a produ\u00e7\u00e3o na sala de aula (Nativa, 2001), A volta do Contador de Hist\u00f3rias (Nova Letra, 2011); Cora, cora\u00e7\u00e3o (Nova Letra, 2011); No Ano do drag\u00e3o (Postmix, 2012), De que s\u00e3o feitas as hist\u00f3rias (Postmix, 2014) , Rel\u00f3gio de Mem\u00f3rias (Postmix, 2017), As Marias de San Gennaro (Insular, 2019), O Set\u00eanio (T\u00e3o Livros, 2024). Sobre ser escritora declarou em entrevista a Cec\u00edlia Baumann: &#8220;escrever \u00e9 uma empreitada existencial desafiadora [&#8230;], uma tarefa \u00e1rdua, um afeto prazeroso, um ato de cidadania&#8221;. <\/strong><br \/>\n<strong>Refer\u00eancia: https:\/\/www.notibras.com\/site\/dalem-africa-pra-ca-num-mundo-que-gira-em-torno-de-palavras\/<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto familiares de cidad\u00e3os cariocas ainda aguardavam o Instituto M\u00e9dico Legal, numa pra\u00e7a, ela desligou o canal da TV onde passava a chacina do Rio de Janeiro. Pensou nos governos que se elegeram com discurso a favor do armamento civil. Conferiu: o marido j\u00e1 adormecera. Por falta de interlocutor, passou a entrevistar a &#8220;Amiga Imagin\u00e1ria&#8221; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":368932,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-368925","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/368925","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=368925"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/368925\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":368933,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/368925\/revisions\/368933"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/368932"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=368925"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=368925"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=368925"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}