{"id":369035,"date":"2025-11-01T00:00:21","date_gmt":"2025-11-01T03:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=369035"},"modified":"2025-10-31T21:15:17","modified_gmt":"2025-11-01T00:15:17","slug":"zeus-tinha-um-fraco-por-hercules-um-dos-seus-filhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/zeus-tinha-um-fraco-por-hercules-um-dos-seus-filhos\/","title":{"rendered":"Zeus tinha um fraco por H\u00e9rcules, um dos seus filhos"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes, bem raras, d\u00e1 pra saber como se originou um texto.<\/p>\n<p>No caso de Proust, foi o odor e o sabor de uma madeleine mergulhada em uma ch\u00e1vena (de ch\u00e1, evidente) que provocou sua epifania e liberou a tempestade de mem\u00f3rias que se materializaram no monumental romance Em busca do tempo perdido.<\/p>\n<p>No meu, foi uma postagem no Facebook.<\/p>\n<p>Aconteceu na p\u00e1gina do grupo Mitologando, que administro. Um amigo postou \u201cPrometeu trouxe o fogo aos homens\u201d. E acrescentou: \u201cAo roubar o fogo dos deuses, Prometeu deu aos homens o poder da civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 mas foi punido eternamente\u201d. Complementando o texto, a figura de um homem forte, acorrentado a uma rocha. Tudo nos conformes.<\/p>\n<p>Comentei de imediato, no post: \u201cPrometeu prometeu. E cumpriu\u201d. Era uma brincadeirinha, um jogo de palavras que escutei na adolesc\u00eancia. O que me fez lembrar de outra brincadeira, um cartoon glorioso, creio que de Jaguar (minha mem\u00f3ria \u00e9 uma lama). Mostra o atleta acorrentado, enquanto uma \u00e1guia \u2013 encarregada por Zeus de devorar diariamente o f\u00edgado do transgressor, que se regenera durante a noite \u2013 faz carinha de nojo e comenta: \u201cPior pra mim, que detesto f\u00edgado!\u201d<\/p>\n<p>Nesse momento, pensei que esse epis\u00f3dio mitol\u00f3gico era bem conhecido. Mas havia uma continuidade na trajet\u00f3ria de Prometeu, Ignifer, o portador da chama, mais importante para os homens que L\u00facifer, o portador da luz. Designei essa sequ\u00eancia como Prometeu .2. Espero que voc\u00eas gostem.<\/p>\n<p>H\u00e9racles (que chamamos pelo nome romano de H\u00e9rcules) vinha saltitando alegremente pelas trilhas montanhosas do C\u00e1ucaso, quando se deparou com um homenzarr\u00e3o acorrentado a uma rocha, gemendo de dor, enquanto uma \u00e1guia lhe devorava o f\u00edgado. Soube na hora que era Prometeu, o tit\u00e3 que dera aos homens o fogo dos deuses. Decidiu libert\u00e1-lo \u2013 mas, para isso, precisava pedir autoriza\u00e7\u00e3o a seu pai Zeus, que havia imposto o castigo.<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; Ent\u00e3o \u00e9 isso, painho. Prometeu t\u00e1 sofrendo, at\u00e9 a pobrezinha da \u00e1guia t\u00e1 sofrendo, parece que ela detesta f\u00edgado. E, convenhamos, 30 mil anos de pena \u00e9 pena pra ded\u00e9u. N\u00e3o d\u00e1 pro senhor perdoar o delito dele e autorizar que eu o liberte?<\/p>\n<p>Zeus co\u00e7ou e afagou a barba. Tinha um fraco pelo forte H\u00e9rcules, o preferido entre seus muitos filhos. Afinal, concordou.<\/p>\n<p>&#8211; Autorizo sim. Mas voc\u00ea tem de descolar um ot\u00e1rio, quer dizer, um imortal que troque de bom grado sua imortalidade pela sorte miser\u00e1vel de Prometeu, aquele fiodeuma\u00e9gua.<\/p>\n<p>H\u00e9rcules agradeceu e seguiu viagem. Afinal, em outro epis\u00f3dio da mitologia hel\u00eanica, uma flecha envenenada, lan\u00e7ada por ele, feriu o s\u00e1bio centauro Qu\u00edron, que tinha sido seu preceptor.<\/p>\n<p>&#8211; Porra, d\u00f3i pra cacete \u2013 lastimou-se Qu\u00edron. \u2013 E vai doer para sempre, pois sou imortal.<\/p>\n<p>Uma luzinha acendeu na cabe\u00e7a de H\u00e9rcules.<\/p>\n<p>&#8211; Se quiser, mestre, sei como deter seu sofrimento. Mas vai custar sua vida&#8230;<\/p>\n<p>Qu\u00edron ouviu tudo e aceitou a exig\u00eancia do deus supremo.<\/p>\n<p>&#8211; Diga a Zeus que topo substituir o pobre Prometeu, desde que eu morra rapidinho, n\u00e3o aguento mais tanta dor!<\/p>\n<p>H\u00e9rcules informou seu pai, que concordou com o esquema. Qu\u00edron e o semideus chegaram de noite \u00e0 rocha-pris\u00e3o de Prometeu, cujo f\u00edgado se regenerava para mais um banquete de \u00e1guia. O tit\u00e3 chorou de emo\u00e7\u00e3o, ao saber do que aconteceria.<\/p>\n<p>No dia seguinte, quando a \u00e1guia investiu para mais uma refei\u00e7\u00e3o de f\u00edgado cru (argh!), H\u00e9rcules a agarrou pelo pesco\u00e7o e o torceu. A nobre ave quase cacarejou, como se fosse uma galinha presa no terreiro, e bateu os espor\u00f5es das patas.<\/p>\n<p>Os lances seguintes foram r\u00e1pidos. H\u00e9rcules libertou Prometeu das correntes, quis prender Qu\u00edron em seu lugar, ouviu um<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o precisa, n\u00e3o saio daqui, meu \u00fanico desejo \u00e9 ir logo para os dom\u00ednios de Hades&#8230;<\/p>\n<p>Mas o semideus o acorrentou mesmo assim, era a ordem de Zeus, ele manda, obedece quem tem ju\u00edzo.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas personagens tiveram destinos diversos. Qu\u00edron, por sorte, morreu logo. Comovido por seu sacrif\u00edcio, Zeus o levou para o c\u00e9u, onde se tornou a constela\u00e7\u00e3o de Sagit\u00e1rio.<\/p>\n<p>H\u00e9rcules, por sua vez, vestiu uma t\u00fanica envenenada com o sangue do centauro Nesso \u2013 v\u00edtima, juntamente com Qu\u00edron, de flechas envenenadas disparadas fazia tempinho por ele pr\u00f3prio. Zeus o transformou de semideus em divindade plena e o levou para o Olimpo.<\/p>\n<p>Finalmente, Prometeu, tit\u00e3 e imortal, deve estar bundando at\u00e9 hoje por a\u00ed.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes, bem raras, d\u00e1 pra saber como se originou um texto. No caso de Proust, foi o odor e o sabor de uma madeleine mergulhada em uma ch\u00e1vena (de ch\u00e1, evidente) que provocou sua epifania e liberou a tempestade de mem\u00f3rias que se materializaram no monumental romance Em busca do tempo perdido. 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