{"id":369190,"date":"2025-11-02T02:00:46","date_gmt":"2025-11-02T05:00:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=369190"},"modified":"2025-11-01T21:30:44","modified_gmt":"2025-11-02T00:30:44","slug":"marinete-a-pobretona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/marinete-a-pobretona\/","title":{"rendered":"Marinete, a pobretona"},"content":{"rendered":"<p>Marinete, desde os miser\u00e1veis tempos de menina, se arrastava no rodap\u00e9 da sobrevida. Descart\u00e1vel, nada mais do que figura insignificante que n\u00e3o despertava nem a mais simples compaix\u00e3o de quem quer que fosse. Antes uma barata, que ainda poderia se esconder embaixo do sof\u00e1. \u00c0 mulher, restava o esgoto. Simples assim.<\/p>\n<p>Diarista, m\u00e3e solo de quatro, sustentava a cria como dava. Tamb\u00e9m, quem mandou acreditar na l\u00e1bia de sujeito homem? Culpada havia sido ela, j\u00e1 que ingenuidade tem validade, e n\u00e3o era direito carreg\u00e1-la ap\u00f3s os 12. Que pagasse por seus erros e n\u00e3o abrisse a boca para reclamar, pois j\u00e1 o fazia em demasia para engolir os nacos de p\u00e3o duro que almas caridosas lhe jogavam.<\/p>\n<p>Acostumada com quase nada, Marinete passou a se questionar sobre a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, ou melhor, a falta de uma para se manter minimante, ainda que, para que isso acontecesse, precisasse percorrer um longo caminho, pior, jornada, pior ainda, verdadeira odisseia. Pensou, pensou, pensou durante dias, at\u00e9 que vislumbrou nada. Sem sa\u00edda, acuada que nem rato no canto do beco, n\u00e3o teve escolha a n\u00e3o ser&#8230;<\/p>\n<p>Bem, o plano inicial era assaltar um banco, tocar o terror, matar ou morrer. Diante de tamanha inexperi\u00eancia para se apoderar do que era dos outros, ainda mais \u00e0 m\u00e3o armada, desistiu. Imagine se isso virasse not\u00edcia? Ih, todo mundo iria saber e, n\u00e3o tardaria, bocas ferinas destilariam veneno:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea viu a Marinete?<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9, sempre soube que nunca daria boa coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas assaltante de banco?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 mesmo, voc\u00ea tem raz\u00e3o. Pegou pesado!<\/p>\n<p>Marinete sacudiu a cabe\u00e7a e deu dois leves tapas na testa com o intuito de afastar qualquer pensamento criminoso. Todavia, j\u00e1 era tarde. Se lhe faltava coragem para assaltar banco, n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o pudesse ser a benefici\u00e1ria de tal intento, ainda que por acaso. E n\u00e3o foi justamente o que aconteceu?<\/p>\n<p>Pois l\u00e1 estava a indigente, bem ali na Asa Norte, remexendo um o cont\u00eainer abarrotado de lixo, quando dois homens, desesperados, pareciam fugir de assombra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era fantasma nem mula sem cabe\u00e7a ou boitat\u00e1. A pol\u00edcia! Corram ligeiro, que os canas, motorizados que estavam, logo chegariam. U\u00f3u, u\u00f3u, u\u00f3u!<\/p>\n<p>De repente, um dos assaltantes jogou uma mochila no colo da Marinete.<\/p>\n<p>\u2014 Toma, tia!<\/p>\n<p>Espantada ficou, mas, boba que n\u00e3o era, percebeu que o melhor a se fazer era se fingir de sonsa. E foi o que fez. Mal os homens sumiram de vista, Marinete jogou a mochila dentro da lixeira. N\u00e3o tardou, os homens, os ditos homens, pararam o cambur\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ei, voc\u00ea a\u00ed! Viu dois sujeitos passar por aqui?<\/p>\n<p>Marinete pensou por um instante e, diante da impaci\u00eancia dos policiais, fez-se de desentendida e voltou a mexer na ca\u00e7amba, onde pegou um peda\u00e7o de p\u00e3o cheio de bolor esverdeado. Deu aquela dentada e sorriu os poucos dentes enegrecidos.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, Teixeira! Essa a\u00ed \u00e9 doida-de-pedra.<\/p>\n<p>Assim que a viatura arrancou, Marienete esperou por um ou dois minutos, olhou para todos os lados, pegou a mochila e abriu o seu z\u00edper. Que dinheirama era aquela? Estaria ali todo o dinheiro do mundo?<\/p>\n<p>Abismada, tratou de sair dali antes que os homens ou homens de verdade retornassem. N\u00e3o ficou rica, mas foi o suficiente para voltar para sua terra, comprar uma casa e arrumar os dentes.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marinete, desde os miser\u00e1veis tempos de menina, se arrastava no rodap\u00e9 da sobrevida. 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