{"id":369282,"date":"2025-11-03T02:00:06","date_gmt":"2025-11-03T05:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=369282"},"modified":"2025-11-02T22:59:36","modified_gmt":"2025-11-03T01:59:36","slug":"os-pescadores-a-onca-e-o-cigarro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/os-pescadores-a-onca-e-o-cigarro\/","title":{"rendered":"Os pescadores, a on\u00e7a e o cigarro"},"content":{"rendered":"<p>Dizem que quem acredita em hist\u00f3ria de pescador \u00e9 mais ing\u00eanuo do que os que se apaixonam pela primeira vez. Mas eis que, caso voc\u00ea tenha f\u00e9 neste escriba, puxe a cadeira, recomendo at\u00e9 aquela acolchoada, e aproxime-se. Se for o caso, ainda sobraram alguns salgadinhos que consegui surrupiar da festa de anivers\u00e1rio de um sobrinho. Est\u00e3o na geladeira, dentro de um potinho de pl\u00e1stico de tampa vermelha. Sirva-se, por favor, sem parcim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Quatro amigos, todos ao redor dos 60 anos, cujos nomes poderiam gerar desconfian\u00e7a: Popoca, Antonho, Mos\u00e9s Seisho-no-ie e Celestiano. E l\u00e1 foi a patota rumo ao lago Serra da Mesa, um dos maiores do Brasil, na regi\u00e3o de Niquel\u00e2ndia-GO, que fica a aproximadamente quatro horas de viagem de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Durante o trajeto, os confrades, ainda que camaradas, talvez at\u00e9 por tal condi\u00e7\u00e3o, procuravam azucrinar a cabe\u00e7a um do outro. Popoca, certamente o mais gaiato, instigava o Antonho a n\u00e3o deixar barato uma piada<\/p>\n<p>\u2014 Ah, n\u00e3o, Antonho! Voc\u00ea entendeu o que o Celestiano disse sobre a sua pessoa?<\/p>\n<p>\u2014 Minha pessoa? E quem \u00e9 essa minha pessoa?<\/p>\n<p>\u2014 U\u00e9! \u00c9 tu, man\u00e9!<\/p>\n<p>\u2014 Eu?<\/p>\n<p>Enquanto Popoca, Mos\u00e9s Seisho-no-ie e Celestiano gargalhavam, Antonho, justamente o mais parrudo da trupe, fechou a cara. Estariam aqueles tr\u00eas zoando da sua pessoa, que, \u00e0quele momento, ele entendeu que era ele? Ah, aquilo n\u00e3o ficaria assim. Mas vingan\u00e7a \u00e9 prato que se come frio e, n\u00e3o tardaria, ele encontraria um meio de se vingar n\u00e3o apenas do Celestiano, mas tamb\u00e9m dos outros c\u00famplices de festejos em forma de risadas.<\/p>\n<p>Assim que chegaram, os quatro amigos trataram de preparar a tralha, mesmo porque n\u00e3o queriam perder tempo, ainda mais que a tarde corria que nem bicuda, peixe encontrado por ali. O plano era colocar o barco na \u00e1gua e partir para uma ilha, onde acampariam por alguns dias. Era algo da qual gostavam muito. Natureza, bem longe da civiliza\u00e7\u00e3o e rodeados de mosquitos.<\/p>\n<p>\u2014 Cad\u00ea o repelente, Celestiano?<\/p>\n<p>\u2014 U\u00e9, Popoca, n\u00e3o era a vez do Mos\u00e9s trazer?<\/p>\n<p>\u2014 Minha? Eu trouxe da \u00faltima vez. Por acaso se esqueceu?<\/p>\n<p>\u2014 Antonho, cad\u00ea o repelente?<\/p>\n<p>\u2014 E eu l\u00e1 sei de repelente, Popoca?<\/p>\n<p>Discute daqui, discute dali, discute at\u00e9 de acol\u00e1, eis que o Popoca solta aquela gargalhada e, em seguida, retira quatro frascos de repelente da mochila.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 aqui, bando de boc\u00f3s!<\/p>\n<p>Salvos das muri\u00e7ocas, Popoca e seus parceiros, ap\u00f3s se alojarem na ilhota, resolveram acender uma fogueira a fim de aquec\u00ea-los, bem como espantar poss\u00edveis animais. Eles sabiam que havia uma on\u00e7a-pintada na regi\u00e3o e, ressabiados que eram, queriam manter a fera afastada.<\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 deve ter escutado que homens vivem menos, e n\u00e3o faltam raz\u00f5es para tal afirma\u00e7\u00e3o. Pois \u00e9, acredite ou n\u00e3o, Antonho e Celestiano decidiram sair de barco quando come\u00e7ou a escurecer. Lembre-se de que o lago \u00e9 muito grande, e, caso a pessoa n\u00e3o conhe\u00e7a o local, corre o risco de se perder, ainda mais de noite, quando todas as partes do parecem iguais. Alerta \u00e9 que n\u00e3o faltou.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas est\u00e3o variando?<\/p>\n<p>\u2014 Mos\u00e9s, t\u00e1 tranquilo. Confio no Antonho como se fosse meu av\u00f4.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 me chamando de velho, Celestiano?<\/p>\n<p>\u2014 Nunca! Jamais!<\/p>\n<p>\u2014 Hum!<\/p>\n<p>Popoca, apesar de brincalh\u00e3o, n\u00e3o gostou daquela ideia e tentou dissuadir os colegas. N\u00e3o adiantou. Teimosos que eram, l\u00e1 foram Celestiano e Antonho, confiantes que estavam que aquela era a hora ideal para se pescar uma boa corvina. N\u00e3o demorou, a dupla sumiu na imensid\u00e3o da Serra da Mesa.<\/p>\n<p>N\u00e3o teve jeito. Popoca e Mos\u00e9s Seicho-no-ie tiveram que se conformar e, ap\u00f3s quase tr\u00eas horas ao redor da fogueira, nem cogitaram dormir, tamanha a preocupa\u00e7\u00e3o. Conjecturaram e rezaram todas as rezas que conheciam e, quando j\u00e1 n\u00e3o conheciam mais, come\u00e7aram a invent\u00e1-las. Lamentosos, pediam que os aventureiros retornassem s\u00e3os e salvos.<\/p>\n<p>A realidade, entretanto, mostrava sua face mais cruel. \u00c9 que Antonho e Celestiano, como j\u00e1 era previsto, se perderam e, pior, a gasolina acabou. O resultado foi que tiveram que remar, remar, remar, remar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Celestiano, voc\u00ea n\u00e3o sabe nem remar. Remar \u00e9 para os nobres.<\/p>\n<p>\u2014 Hum! Antonho, se suas pescarias forem caminho, s\u00f3 quero andar pelos desvios a partir de agora.<\/p>\n<p>Remaram tanto que, j\u00e1 era de madrugada, quando os dois, milagrosamente, chegaram a uma outra ilha. Sem alternativa, retiraram o barco da \u00e1gua e o puxaram alguns metros adiante.<\/p>\n<p>Os perdidos, diante da temperatura que havia baixado consideravelmente, tiveram que deitar de conchinha para tentar aplacar o frio. E n\u00e3o pense voc\u00ea que conseguiram dormir, pois algo parecia espreit\u00e1-los. Sim, isso mesmo! Esturros de on\u00e7a-pintada, que parecia cada vez mais perto.<\/p>\n<p>\u2014 Num vai borrar as cal\u00e7as, Celestiano!<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu digo o mesmo pra voc\u00ea, Antonho! Ouvi dizer que on\u00e7a sente cheiro de bosta de longe.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se voc\u00ea conhece a m\u00fasica &#8220;Galho seco&#8221;, do Z\u00e9 Gerado. Bem, h\u00e1 uma parte da letra que \u00e9 assim: &#8220;quando tudo est\u00e1 perdido, s\u00f3 quando tudo est\u00e1 perdido na vida, \u00e9 que a gente descobre que na vida nunca tudo t\u00e1 perdido, minha flor&#8221;. Pois, no momento em que os dois desesperados se encontravam em uma encruzilhada, eis que surgiu um relampejo de lucidez.<\/p>\n<p>\u2014 Antonho, me d\u00e1 um cigarro.<\/p>\n<p>\u2014 Num \u00e9 poss\u00edvel que voc\u00ea vai querer fumar justamente agora.<\/p>\n<p>\u2014 Me d\u00e1 logo esse cigarro, homem!<\/p>\n<p>Antonho, n\u00e3o querendo discutir justamente no instante em que ele e o amigo iriam virar comida de on\u00e7a, pegou o ma\u00e7o e o entregou.<\/p>\n<p>\u2014 O isqueiro, n\u00e9?!<\/p>\n<p>\u2014 Tu vai mesmo fumar agora?<\/p>\n<p>\u2014 Vamos!<\/p>\n<p>\u2014 Num t\u00f4 com vontade, Celestiano.<\/p>\n<p>\u2014 Pois vai fumar, nem que eu tenha que enfiar o cigarro goela abaixo.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 bom! T\u00e1 bom!<\/p>\n<p>Assim que passou o isqueiro para Celestiano, Antonho viu dois olhos gateados brilhando vindo na sua dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o teve d\u00favida, era mesmo a on\u00e7a-pintada, que caminhava tranquilamente.<\/p>\n<p>\u2014 A on\u00e7a!<\/p>\n<p>Celestiano rosqueou, rosqueou, rosqueou at\u00e9 que, finalmente, a chama se fez presente. Acendeu o cigarro e deu aquela tragada. Em seguida, soltou a fuma\u00e7a, enquanto sacudia o isqueiro acida da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Fuma, Antonho! Fuma tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>Sem alternativa e vendo que aquilo estava funcionando para manter o felino afastado, Antonho acendeu um cigarro e come\u00e7ou a fumar. Pensou em juntar uns galhos secos, mas a ilhota n\u00e3o passava de um banco de areia. O jeito, ent\u00e3o, era acender um cigarro atr\u00e1s do outro e torcer para que eles n\u00e3o findassem at\u00e9 o dia raiar.<\/p>\n<p>Por sorte, algumas horas ap\u00f3s, come\u00e7ou a clarear, quando Antonho e Celestiano perceberam que nem sinal da fera, al\u00e9m de pegadas do tamanho de abacate dos gra\u00fados. Talvez ela n\u00e3o estivesse com fome ou, ent\u00e3o, estaria mais interessada nos jacar\u00e9s. Seja como for, os homens arrastaram o barco de volta para o lago e, ap\u00f3s algumas horas, conseguiram avistar dois indiv\u00edduos conhecidos, que acenavam vigorosamente. L\u00e1 estavam seus amigos Popoca e Mos\u00e9s Seisho-no-ie.<\/p>\n<p>Mais v\u00e1rias remadas, agora com os \u00e2nimos aliviados, Celestiano e Antonho conseguiram chegar \u00e0 ilha. Abra\u00e7os efusivos dos quatro companheiros de viagem. Nada mais de se aventurar noite adentro.<\/p>\n<p>A pescaria, apesar do susto, foi proveitosa. N\u00e3o por conta da quantidade dos peixes, que n\u00e3o foi al\u00e9m de dois tucunar\u00e9s e uma corvina. E, na \u00faltima noite no local, os quatro acenderam uma fogueira, onde assaram os peixes. Foi a\u00ed que o Popoca, incomodado com a fuma\u00e7a dos cigarros do Celestiano e do Antonho, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas dois v\u00e3o acabar morrendo de tanto fumar.<\/p>\n<p>\u2014 Hum! Popoca, pois fique sabendo que foi justamente o cigarro que nos salvou. Num foi, Celestiano?<\/p>\n<p>\u2014 De acordo, meu amigo Antonho!<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizem que quem acredita em hist\u00f3ria de pescador \u00e9 mais ing\u00eanuo do que os que se apaixonam pela primeira vez. Mas eis que, caso voc\u00ea tenha f\u00e9 neste escriba, puxe a cadeira, recomendo at\u00e9 aquela acolchoada, e aproxime-se. 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