{"id":369382,"date":"2025-11-08T00:15:16","date_gmt":"2025-11-08T03:15:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=369382"},"modified":"2025-11-03T16:20:05","modified_gmt":"2025-11-03T19:20:05","slug":"ela-aparentava-uns-8-ou-9-anos-mas-seus-olhos-revelavam-sua-real-condicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ela-aparentava-uns-8-ou-9-anos-mas-seus-olhos-revelavam-sua-real-condicao\/","title":{"rendered":"Ela aparentava uns 8 ou 9 anos, mas seus olhos revelavam sua real condi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Ela aparentava uns 8 ou 9 anos, mas seus olhos revelavam sua real condi\u00e7\u00e3o. Um olhar frio, sempre \u00e0 espreita, dissimulado, de algu\u00e9m consciente de que esse \u00e9 o \u00fanico ponto fraco em sua armadura e trata de control\u00e1-lo o tempo todo. Olhos velhos, de quem j\u00e1 viveu, viu e fez muita coisa.<\/p>\n<p>No col\u00e9gio, as demais crian\u00e7as notaram que havia algo estranho com a menina. Falavam o m\u00ednimo com ela durante as aulas e a isolavam na hora do recreio. E nunca, nunca a convidavam para festinhas de anivers\u00e1rio. As m\u00e3es insistiam, perguntavam por que ela n\u00e3o fora convidada. As respostas eram sempre nesta linha:<\/p>\n<p>&#8211; Ah, m\u00e3e, n\u00e3o gosto dela, \u00e9 meio esquisita&#8230;<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o dava a m\u00ednima, nutria um solene desprezo pelos seres que designava como \u201cmortais\u201d, fossem eles crian\u00e7as, adultos ou idosos. O curioso \u00e9 que ela tamb\u00e9m era mortal. Ou tinha sido.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ara fazia uns 100 anos. Ela era, na ocasi\u00e3o, uma \u00f3rf\u00e3 pobre que vagava pelas ruas. Certa manh\u00e3, acordou banhada em sangue em um quarto desconhecido, ao lado do cad\u00e1ver de um homem cuja car\u00f3tida fora perfurada por um longo estilete de a\u00e7o. Apavorada, pensou em lavar-se e fugir dali o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, mas ouviu uma voz poderosa, vinda do nada, que lhe disse:<\/p>\n<p>&#8211; Assim matar\u00e1s, com aquele estilete. Enquanto realizares os rituais de sangue, um a cada seis meses, n\u00e3o envelhecer\u00e1s um s\u00f3 dia. E receber\u00e1s muito dinheiro, aquela bolsa perto da porta est\u00e1 cheia de notas.<\/p>\n<p>A voz calou-se, como se algu\u00e9m pensasse no que dizer em seguida, e ent\u00e3o prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 importante que arranjes uma senhora de confian\u00e7a que a matricule na escola, alugue um lugar para voc\u00eas morarem, cuide do seu dinheiro, fa\u00e7a todas as coisas que uma crian\u00e7a n\u00e3o pode fazer por si mesma, sem despertar uma aten\u00e7\u00e3o indesejada.<\/p>\n<p>Deu trabalho, mas ela conseguiu encontrar algu\u00e9m para ser sua \u201cvovozinha\u201d. Era uma idosa sem filhos, nada inteligente mas com imenso talento para a submiss\u00e3o sem perguntas; por um bom sal\u00e1rio, a velha aceitou, al\u00e9m de cuidar da casa, aparecer, quando necess\u00e1rio, como respons\u00e1vel legal pela menina.<\/p>\n<p>Esta descobriu, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, que o prazo m\u00e1ximo de perman\u00eancia segura em um col\u00e9gio \u2013 em uma cidade \u2013 era de quatro anos, quer dizer, de aparentes 9 a 12 anos. Mais que isso, come\u00e7avam a surgir coment\u00e1rios sobre seu ingresso tardio na puberdade, que podiam levar a perigosas investiga\u00e7\u00f5es. Foi o que ocorrera em uma escola bem apraz\u00edvel, em que se deixou ficar por quase cinco anos. Por sorte, ouviu uma professora comentar que iria encaminh\u00e1-la a um m\u00e9dico, para ver se o atraso na chegada da menstrua\u00e7\u00e3o era sintoma de algum dist\u00farbio. Preocupada, a menina (?) tratou de mudar de cidade \u00e0s pressas, com a vovozinha a tiracolo, fixando-se em um estado bem distante. Deu trabalho arranjar documentos falsos de conclus\u00e3o do ano letivo, mas no final tudo correu bem.<\/p>\n<p>Outra dificuldade era a morte inevit\u00e1vel das vovozinhas, em 100 anos j\u00e1 enterrara quase vinte. Ela aprendeu a ter sempre uma idosa sobressalente, cuja primeira atribui\u00e7\u00e3o, ao ser ativada, era providenciar o enterro da falecida. Um enterro simples, mas digno.<\/p>\n<p>Uma descoberta fundamental foi a de que gostava de matar, e o fazia com per\u00edcia. Assim, os rituais de sangue tornaram-se a parte mais aguardada de sua vida. Al\u00e9m disso, predadora habilidosa, n\u00e3o demorou em identificar suas presas mais vulner\u00e1veis: as feras em forma de gente que ansiavam por abusar de menores imp\u00faberes.<\/p>\n<p>A t\u00e1tica de ca\u00e7a variava pouco. Decorridos pouco mais de cinco meses do \u00faltimo ritual de sangue, ela passava a frequentar, com um vestido bem curto, parques p\u00fablicos distantes de sua resid\u00eancia. Passava muito tempo no balan\u00e7o, aparentemente sem perceber a exibi\u00e7\u00e3o de suas coxas e, ocasionalmente, de sua calcinha rendada.<\/p>\n<p>Os lobos, esses, percebiam, e vinham em massa, quase babando, quase dando uivos de lux\u00faria. Ela passou a enquadr\u00e1-los em duas categorias. Havia os t\u00edmidos, que n\u00e3o falavam uma palavra, limitando-se a mir\u00e1-la com um olhar pid\u00e3o. Nunca souberam, mas foram salvos por sua timidez.<\/p>\n<p>E havia os atrevidos, que chegavam junto, sorriam, diziam que ela parecia muito com sua filha, sobrinha ou neta, ofereciam-lhe sorvete, guloseimas, sugeriam lev\u00e1-la at\u00e9 em casa, para ela comprovar a semelhan\u00e7a espantosa com sua filha, sobrinha ou neta&#8230; Ela sorria, saboreava o sorvete ou guloseima e dizia que n\u00e3o, tinha de ir pra casa, mas no pr\u00f3ximo fim de semana, quem sabe?<\/p>\n<p>Na vez seguinte, eles estavam mais ansiosos, os presentes se multiplicavam, a urg\u00eancia em suas propostas era mais n\u00edtida. Ela adiava a resposta o mais poss\u00edvel, sentia prazer em tortur\u00e1-los, mas ent\u00e3o dava o bote:<\/p>\n<p>&#8211; Olha, paizinho (ou titio, ou vov\u00f4, conforme o caso), esta semana fui uma menina muito m\u00e1. O paizinho (ou titio, ou vov\u00f4) quer me levar pra um lugar discreto e me castigar? \u2013 e dirigia-lhe um olhar sedutor, aperfei\u00e7oado ao longo de d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Sem acreditar na boa sorte, ele a conduzia a um carro e seguiam para o local do abate. E a\u00ed avan\u00e7ava, o olhar vidrado. Mas o estilete era mais r\u00e1pido, afinal, a predadora tinha muitas d\u00e9cadas de pr\u00e1tica. Depois ela lavava a roupa \u2013 sempre respingava sangue da car\u00f3tida cortada \u2013, tomava um banho r\u00e1pido e ia pra casa, onde a esperava uma sacola cheia de dinheiro, trazida n\u00e3o se sabe de onde nem por quem.<\/p>\n<p>Diga-se que, embora continuasse a desprezar os \u201cmortais\u201d, ela se via como uma protetora ou, antes, uma vingadora das pr\u00e9-adolescentes de 8 a 12 anos. Muitas delas foram e s\u00e3o v\u00edtimas dos abusadores de menores; mas algumas meninas m\u00e1s \u2013 ou pelo menos uma delas, a pr\u00f3pria \u2013 est\u00e3o muito acima das feras de duas patas, na cadeia alimentar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela aparentava uns 8 ou 9 anos, mas seus olhos revelavam sua real condi\u00e7\u00e3o. Um olhar frio, sempre \u00e0 espreita, dissimulado, de algu\u00e9m consciente de que esse \u00e9 o \u00fanico ponto fraco em sua armadura e trata de control\u00e1-lo o tempo todo. Olhos velhos, de quem j\u00e1 viveu, viu e fez muita coisa. No col\u00e9gio, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":369383,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-369382","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/369382","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=369382"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/369382\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":369384,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/369382\/revisions\/369384"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/369383"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=369382"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=369382"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=369382"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}