{"id":369575,"date":"2025-11-10T00:30:43","date_gmt":"2025-11-10T03:30:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=369575"},"modified":"2025-11-04T15:18:44","modified_gmt":"2025-11-04T18:18:44","slug":"coca-cola-severino-arte-e-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/coca-cola-severino-arte-e-cultura\/","title":{"rendered":"Coca-cola, Severino, arte e cultura"},"content":{"rendered":"<p>Noite de sexta-feira. Saio para a caminhada di\u00e1ria de in\u00edcio de noite no cal\u00e7ad\u00e3o da praia de Cabo Branco, Jo\u00e3o Pessoa\/Para\u00edba.<\/p>\n<p>O rapaz chegou com educa\u00e7\u00e3o e discurso afinado.<\/p>\n<p>Ofereceu criar uma arte ali, ao vivo, manipulando fibra de palmeira. Sei, mais um como tantos artistas an\u00f4nimos de praia e eu com este jeit\u00e3o indisfar\u00e7\u00e1vel de &#8220;turista&#8221; do Sul. Agrade\u00e7o, mas n\u00e3o travo a brilhante exposi\u00e7\u00e3o de seus argumentos. Chama-se Severino, Severino da Silva Neto. E o rapaz foi desfiando a narrativa em torno das dificuldades e perip\u00e9cias de um jovem que caiu na lida do mundo bem cedo. Fugiu de casa, em Cajazeiras, l\u00e1 no sert\u00e3o da Para\u00edba, aos 16 anos. Seu maior sonho era conhecer o mar. E foi assim.<\/p>\n<p>Na capital, Jo\u00e3o Pessoa, h\u00e1 dez anos, conheceu uma mulher tamb\u00e9m ainda adolescente a quem deram o nome de Estelamaris. O mar, sempre ele presente em sua vida.<\/p>\n<p>&#8220;Pode parecer que \u00e9 coisa de invencionice, dot\u00f4, mas nada&#8230;\u00c9 n\u00e3o! Achei o nome dela meio escalafob\u00e9tico, mas tinha melodia e, claro, tinha o mar. Tempo depois \u00e9 que percebi que era alguma coisa parecida com Estrela-do-mar&#8230;Estelamaris. E foi assim&#8221;, contou-me o Severino, artista ainda com cara de menino.<\/p>\n<p>Enquanto contava, foi tecendo com extraordin\u00e1ria rapidez e talento uma ave com a rama de fibra de palmeira para o espanto de uma menininha que parou no cal\u00e7ad\u00e3o; uma menininha hipnotizada pelo artista numa praia do Nordeste brasileiro, uma das poucas praias que n\u00e3o foram contaminadas pelo vazamento de \u00f3leo que h\u00e1 dois meses inferniza a vida destas gentes.<\/p>\n<p>E veio a pergunta de Severino:<\/p>\n<p>\u2014 Dot\u00f4, permita-me a pergunta, mas um calor\u00e3o deste e o senhor bebendo Coca-cola? Tem jeito, n\u00e3o&#8230;e sexta-feira? E aquela &#8220;lora\u00e7a&#8221; sagrada?<\/p>\n<p>Sorri e expliquei-lhe que gostaria, mas que n\u00e3o deveria por necessidade e op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;J\u00e1 tomei todas as &#8220;geladas&#8221; que estavam estocadas para mim, Severino&#8230;agora \u00e9 o tempo da Coca-cola e dos incr\u00edveis sucos daqui&#8221;.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m sorriu e aquele sorriso de compreens\u00e3o e cumplicidade encheu-me de alegria. E mandou de l\u00e1,<\/p>\n<p>&#8220;Sei sim, estas coisas quando fazem mal para o corpo \u00e9 ruim, mas quando mexem com a &#8220;cabe\u00e7a da gente&#8221;, com a alma&#8230;Arre, vixi!&#8230;o dot\u00f4 t\u00e1 cert\u00edssimo&#8221;.<\/p>\n<p>Assim, quando dei por mim, havia quase trinta minutos &#8220;viajando&#8221; naquele encontro.<\/p>\n<p>E foi ent\u00e3o que o jovem Severino finalizou a sua obra dando forma e vida \u00e0 fibra de palmeira que, agora, brilhava feito uma ave, uma arara talvez, nas m\u00e3os da menininha literalmente encantada. Transmuta\u00e7\u00e3o e magia pura. Poesia. Cultura.<\/p>\n<p>A m\u00e3e da crian\u00e7a deu vinte reais nas m\u00e3os de Severino e n\u00e3o aceitou os dez de troco. Pagou um m\u00ednimo por t\u00e3o infinita arte materializada no sorriso da pequena filha. Tomou a menina pelo bra\u00e7o e l\u00e1 se foram &#8220;voando&#8221; junto com a ararinha de palmeira.<\/p>\n<p>O tempo voltou a passar muito r\u00e1pido; quando virei-me, l\u00e1 estava o jovem artista abordando e tentando mostrar a sua arte a um casal (t\u00edpicos turistas aposentados) em uma mesa sobre a areia da praia.<\/p>\n<p>\u2014 Olha a\u00ed, dot\u00f4, eu transformo palmeira em arte&#8230;vai a\u00ed uma rosa para a patroa&#8230;uma flor para outra flor?, lan\u00e7ou o meu novo amigo vendedor de po\u00e9ticas praieiras.<\/p>\n<p>O homem parecia irritado. Sem levantar os olhos para Severino apenas balbuciou: &#8220;N\u00e3o! Estamos conversando, n\u00e3o quero comprar nada!&#8221;.<\/p>\n<p>Impasse e cena de quebrar narrativa de encanto. Mas o rapaz, jovem, mas experiente de praia e de mundo, n\u00e3o perdeu a classe e tirando outra pe\u00e7a de fibra tecida anteriormente e guardada ali para ocasi\u00f5es especiais, lascou de l\u00e1:<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, dot\u00f4, n\u00e3o precisa se enfezar!&#8230;fique ent\u00e3o de presente este gafanhoto horroroso&#8230;leve para a sogra&#8230;demonstre o seu amor ao mundo, dot\u00f4&#8230;olha o enfarte!&#8221;.<\/p>\n<p>Jamais esquecerei o olhar do jovem Severino ao despedir-se de mim j\u00e1 no outro lado das mesas do quiosque &#8220;A Forrozera&#8221;, no meio das areias branquinhas de Cabo Branco.<\/p>\n<p>Deixei sobre a mesa metade da Coca-cola quente como o inferno e escura feito o \u00f3leo criminoso e t\u00e3o desumano quanto a atitude daquele &#8220;dot\u00f4&#8221; para com Severino.<\/p>\n<p>Vida que segue.<\/p>\n<p>*O meu celular mequetrefe j\u00e1 estava sem bateria e n\u00e3o pude fazer a foto de Severino, a ararinha, a menina, o dot\u00f4\/neuras e nem a foto do gafanhoto horroroso que Severino deu ao dot\u00f4.<\/p>\n<p>(*Em tempo: est\u00e3o fotografados em meu imagin\u00e1rio).<\/p>\n<p>Mas juro que foi assim&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 n\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 sim!<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista e professor\/pesquisador. Conheceu Severino quando em viagem \u00e0 Para\u00edba, em 2019. Vive, hoje, na vila da Guarda do Emba\u00fa, litoral de SC.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Noite de sexta-feira. Saio para a caminhada di\u00e1ria de in\u00edcio de noite no cal\u00e7ad\u00e3o da praia de Cabo Branco, Jo\u00e3o Pessoa\/Para\u00edba. O rapaz chegou com educa\u00e7\u00e3o e discurso afinado. Ofereceu criar uma arte ali, ao vivo, manipulando fibra de palmeira. 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