{"id":369691,"date":"2025-11-07T00:00:12","date_gmt":"2025-11-07T03:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=369691"},"modified":"2025-11-05T14:00:49","modified_gmt":"2025-11-05T17:00:49","slug":"bandido-do-lampiao-vermelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bandido-do-lampiao-vermelho\/","title":{"rendered":"Bandido do Lampi\u00e3o Vermelho"},"content":{"rendered":"<p>O ano exato n\u00e3o se sabe, mas a maior parte das pessoas diz que aconteceu na d\u00e9cada de 1920, em uma cidade do agreste nordestino. E, naquele tempo, era comum a popula\u00e7\u00e3o andar armada, o que transformava o lugar em um neg\u00f3cio rent\u00e1vel para o dono da \u00fanica funer\u00e1ria por aquelas bandas.<\/p>\n<p>Outra informa\u00e7\u00e3o que se faz necess\u00e1ria \u00e9 que, assim como na maior parte do pa\u00eds, a luz el\u00e9trica ainda n\u00e3o havia chegado ali, e os moradores precisavam recorrer a fogueiras, lamparinas e lampi\u00f5es a querosene. Por causa da prec\u00e1ria ilumina\u00e7\u00e3o, o povo jantava antes do sol se p\u00f4r e, \u00e0s 20h, tirando os casais mais empolgados, a cidade adormecia.<\/p>\n<p>Pois bem, muito antes daquele criminoso que assombrou a capital paulista no final dos anos 1960, um outro bandido andava levando p\u00e2nico \u00e0quele pequeno povoado. O tal delinquente, por conta da falta de luz, fazia uso de um lampi\u00e3o de vidro vermelho, o que provocava um contraste macabro durante as noites escuras. Os moradores o apelidaram de Bandido do Lampi\u00e3o Vermelho.<\/p>\n<p>O fac\u00ednora, al\u00e9m de roubar o pouco que aquela gente possu\u00eda, ainda molestava as donzelas, que, por costumes da \u00e9poca, precisavam ser mandadas para um convento, onde passavam a vida inteira rezando para se redimirem do pecado de terem sido violadas. Algumas n\u00e3o suportavam tal mart\u00edrio e tiravam a pr\u00f3pria vida, mas tamb\u00e9m h\u00e1 casos das que passaram a viver a vida das mulheres malfaladas. Duas ou tr\u00eas, todavia, conseguiram manter segredo da viola\u00e7\u00e3o e contra\u00edram matrim\u00f4nio. Adestradas pela m\u00e3e, souberam ludibriar o noivo na noite de n\u00fapcias.<\/p>\n<p>A despeito do terror que se abateu sobre a popula\u00e7\u00e3o, havia por ali um homem destemido, cujo nome ainda hoje ecoa nas hist\u00f3rias contadas. Genaro Cavalcante, charuto no canto da boca, garrucha na m\u00e3o, cuspia bala para qualquer desaforado. O cabra andava arretado com esse marginal e prometeu dar fim ao sujeito assim que o encontrasse.<\/p>\n<p>Enquanto a promessa n\u00e3o era cumprida, o Bandido do Lampi\u00e3o Vermelho agiu novamente. O malfeitor, sorrateiramente, invadiu a casa da dona Francisca, esposa do Tim\u00f3teo. Entretanto, pelo menos nesse caso, a coisa aconteceu em conluio com a mulher. \u00c9 que, sem o conhecimento do marido, Francisca andava de namorico com o Bandido do Lampi\u00e3o Vermelho e, durante as noites que Tim\u00f3teo sa\u00eda para ca\u00e7ar, ela acolhia o amante debaixo dos len\u00e7\u00f3is.<\/p>\n<p>O esposo tra\u00eddo, talvez por conta da falta de ca\u00e7a ou, ent\u00e3o, por desconfian\u00e7a, acabou retornando mais cedo para casa. Assim que abriu a porta, ouviu alguns gemidos vindos do quarto. Arma em riste, correu para salvar a mulher das garras do salafr\u00e1rio. No entanto, antes que conseguisse chegar, o Bandido do Lampi\u00e3o Vermelho j\u00e1 havia fugido pela janela, mas deixou o lampi\u00e3o ao lado da cama.<\/p>\n<p>Francisca, amedrontada pela chegada de Tim\u00f3teo, ajoelhou aos p\u00e9s do marido e suplicou perd\u00e3o. O esposo, imaginando que a mulher fosse mais uma v\u00edtima do marginal, acolheu-a nos bra\u00e7os. Em seguida, pegou o lampi\u00e3o no ch\u00e3o e prometeu vingar a honra da amada.<\/p>\n<p>A esposa viu o marido sair, quando, n\u00e3o tardou, ouviu um tiro. Correu para fora e viu Tim\u00f3teo ca\u00eddo a poucos metros da casa. Curiosos correram ao local, onde encontraram Genaro Cavalcante se vangloriando.<\/p>\n<p>\u2014 Prometi que ia matar o gatuno e matei.<\/p>\n<p>Os moradores enalteceram a bravura do matador. Em terreiro de Genaro Cavalcante, ningu\u00e9m se cria. Quanto ao verdadeiro Bandido do Lampi\u00e3o Vermelho, ningu\u00e9m mais ouviu falar. A vi\u00fava de Tim\u00f3teo, n\u00e3o tardou, tamb\u00e9m sumiu e, at\u00e9 onde se sabe, nunca se preocupou em dar not\u00edcias.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano exato n\u00e3o se sabe, mas a maior parte das pessoas diz que aconteceu na d\u00e9cada de 1920, em uma cidade do agreste nordestino. 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