{"id":370023,"date":"2025-11-11T00:15:30","date_gmt":"2025-11-11T03:15:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=370023"},"modified":"2025-11-08T01:47:57","modified_gmt":"2025-11-08T04:47:57","slug":"amir-comparava-algumas-pessoas-a-cavalos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/amir-comparava-algumas-pessoas-a-cavalos\/","title":{"rendered":"Amir comparava algumas pessoas a cavalos"},"content":{"rendered":"<p>Amir amava cavalos \u2013 talvez por atavismo, seu bisav\u00f4 fora propriet\u00e1rio de um haras no Marrocos, especializado na cria\u00e7\u00e3o de cavalos berberes e \u00e1rabes, aparentados, descritos pelos poetas do Magreb como \u201cfilhos do vento\u201d. Mais que isso, ele comparava a equinos algumas pessoas com as quais se relacionava, no trabalho. Por exemplo, um jovem brilhante e rebelde, destinado a subir ao topo da empresa \u2013 ou a ser triturado pelas engrenagens corporativas \u2013 era chamado de mustang, termo usado nos Estados Unidos para designar um cavalo selvagem, indomado; algu\u00e9m novo na empresa, que ainda n\u00e3o dominava seus atalhos, n\u00e3o conhecia o caminho das pedras, era qualificado como redom\u00e3o \u2013 vers\u00e3o ga\u00facha do gaucho redom\u00f3n, referente, nos pampas uruguaios e argentinos, a um cavalo rec\u00e9m-domado, que ainda n\u00e3o est\u00e1 bem manso. E assim por diante, n\u00e3o faltavam caracter\u00edsticas equinas para a categoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi em uma festa de fim de ano na empresa que Amir conheceu Rosana. Era grande, alguns cent\u00edmetros a mais que o 1,80 m dele, de fei\u00e7\u00f5es atraentes, loura, com uma cabeleira que chegava quase \u00e0 cintura. N\u00e3o era gorda e sim maci\u00e7a, de ossos pesados. \u201cUma valqu\u00edria da mitologia n\u00f3rdica\u201d, pensou, mas ent\u00e3o observou suas canelas largas e a listou em outra categoria:<\/p>\n<p>\u201cUma potranca percheron\u201d.<\/p>\n<p>De fato, das canelas grossas \u00e0 cabeleira (crina) abundante, passando pela estrutura corporal maci\u00e7a, v\u00e1rios aspectos da mo\u00e7a remetiam aos enormes cavalos de tra\u00e7\u00e3o criados originariamente na regi\u00e3o francesa de Perche.<\/p>\n<p>Passou a referir-se a ela por esse nome, alguns amigos acharam gra\u00e7a, o apelido espalhou-se pela empresa, chegou aos ouvidos de Rosana. Ela reagiu com uma mescla de tristeza e contentamento. Tristeza por n\u00e3o ser nada lisonjeiro ser comparada a uma \u00e9gua; contentamento por Amir t\u00ea-la notado, desde a festa ela estava muito a fim dele.<\/p>\n<p>Como costuma acontecer, o inevit\u00e1vel aconteceu. Rosana e Amir foram a um barzinho depois do expediente, com outros colegas de trabalho, sa\u00edram juntos, levemente b\u00eabados, ele a acompanhou at\u00e9 a casa dela, foi convidado a subir, come\u00e7aram a se pegar no elevador, arrancaram-se as roupas mal entraram no apartamento, foram pro quarto, treparam feito coelhinhos, ou melhor, como um garanh\u00e3o e uma \u00e9gua no cio. Os quadris largos da Perche ondulavam sobre ele, levando-o ao orgasmo; Amir percebeu que ela, como todo equino de tra\u00e7\u00e3o que se preze, tinha for\u00e7as para prosseguir sem parar, a noite inteira. Ele n\u00e3o tinha tanta resist\u00eancia, pediu pra dar um tempo. Depois recome\u00e7aram, em um ritmo menos exigente. S\u00f3 deram por encerrados os trabalhos \u00e0s 4 da madrugada.<\/p>\n<p>De volta a sua casa, depois de tomar um banho e um bom caf\u00e9, Amir pensou no que acontecera. A transa foi uma del\u00edcia, ele queria mais, tinha certeza de que a Perche tamb\u00e9m. N\u00e3o estava apaixonado, mas sentia algo quente e gostoso em seu peito, um sentimento calmo e reconfortante; n\u00e3o seria dif\u00edcil amar aquela mulher.<\/p>\n<p>Continuaram a se encontrar. Ele encantou-se com a tranquilidade da mo\u00e7a, bem adequada a um animal de tra\u00e7\u00e3o; tamb\u00e9m percebeu que, por vezes, quando se julgava injusti\u00e7ada, a placidez de seu olhar cedia lugar a olhos de fogo e ela reagia com tudo. Isso n\u00e3o o surpreendeu, percherons, com sua for\u00e7a descomunal, moviam pesados canh\u00f5es nos campos de batalha. Ele, por sua vez, sabia, tinha como animal de poder um cavalo berbere ou \u00e1rabe, r\u00e1pido e nervoso. Desse modo, os dois se complementavam, velocidade e resist\u00eancia, tranquilidade e explos\u00e3o. \u201cUm casal perfeito\u201d, comentavam os amigos.<\/p>\n<p>Amir e Rosana j\u00e1 discutiam a possibilidade de morar juntos, at\u00e9 mesmo de casar de papel passado, quando, meses depois, ela informou que estava gr\u00e1vida.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea quer mesmo levar a gravidez at\u00e9 o fim?<\/p>\n<p>&#8211; Claro que quero! \u2013 respondeu a Perche, com um olhar perigoso, flamejante de indigna\u00e7\u00e3o. \u2013 Mas voc\u00ea n\u00e3o precisa ficar comigo, seguro a barra sozinha, pe\u00e7o apenas que d\u00ea seu nome \u00e0 crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea acha que abandonaria a m\u00e3e do meu filho ou filha? Vamos em frente, n\u00f3s tr\u00eas.<\/p>\n<p>Os meses passaram, Rosana entrou em trabalho de parto, Amir a acompanhou ao hospital. Depois do nascimento, segurou a filha pela primeira vez. Notou as patinhas peludas, as canelas grossas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Uma linda potrinha percheron \u2013 pensou, satisfeito. \u2013 Da pr\u00f3xima vez, tenho certeza de que vai nascer um potro berbere, menor que a irm\u00e3, por\u00e9m de focinho mais longo e pernas mais compridas e elegantes que as dela. Ou um cavalinho \u00e1rabe, de focinho mais delicado, e pernas fortes mas esguias, feitas para correr como o vento. Ser\u00e1 um prazer cri\u00e1-los, ou melhor, adestr\u00e1-los!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amir amava cavalos \u2013 talvez por atavismo, seu bisav\u00f4 fora propriet\u00e1rio de um haras no Marrocos, especializado na cria\u00e7\u00e3o de cavalos berberes e \u00e1rabes, aparentados, descritos pelos poetas do Magreb como \u201cfilhos do vento\u201d. Mais que isso, ele comparava a equinos algumas pessoas com as quais se relacionava, no trabalho. 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