{"id":370490,"date":"2025-11-12T02:00:54","date_gmt":"2025-11-12T05:00:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=370490"},"modified":"2025-11-12T10:00:55","modified_gmt":"2025-11-12T13:00:55","slug":"valeria-e-a-bijuteria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/valeria-e-a-bijuteria\/","title":{"rendered":"Val\u00e9ria e a bijuteria"},"content":{"rendered":"<p>Estou desapegando das pessoas. N\u00e3o ligo para coisas materiais h\u00e1 tempos, mas de gente foi mais complexo. H\u00e1 muito sentimento envolvido. N\u00e3o que tamb\u00e9m n\u00e3o fosse apegada \u00e0s minhas quinquilharias.<\/p>\n<p>Para voc\u00ea ter ideia, na semana passada, joguei fora uma bijuteria que sempre me foi bastante cara, apesar de saber que n\u00e3o valia nada al\u00e9m de sentimentos. Fora me dada por Arlindo, paix\u00e3o adolescente, cujos olhos acolhedores me apanharam em momento de tamanha inseguran\u00e7a e, por isso mesmo, era eu a criatura mais revoltada com o mundo. Mas quem n\u00e3o o \u00e9 aos 14?<\/p>\n<p>Pois l\u00e1 foi a r\u00e9stia de sentimentos que, porventura, ainda estivesse guardada em algum lugar. N\u00e3o que o meu primeiro namorado tenha sido esquecido por completo. N\u00e3o. Acredite ou n\u00e3o, ainda somos amigos&#8230; Bem, n\u00e3o amigos que se encontram ou mesmo que se falem. Mensagens, n\u00e3o mais do que isso, e todas formais, no Natal e no Ano Novo. S\u00f3.<\/p>\n<p>O rompimento aconteceu de maneira natural, se \u00e9 que posso chamar assim o fato de, ap\u00f3s uma viagem para praia, eu n\u00e3o ter conseguido olhar com os mesmos olhos aquele rapaz t\u00e3o meigo. Fingi indisposi\u00e7\u00f5es mentirosas e, ap\u00f3s alguma insist\u00eancia, ele desistiu ou, ainda guardo certa d\u00favida, tenha se interessado por outra. Natural.<\/p>\n<p>Arlindo se mudou dois ou tr\u00eas meses ap\u00f3s o nosso rompimento sem dramas. Soube depois que fora morar na Asa Sul, que, naquele tempo, era uma viagem da minha quadra, bem no final da Asa Norte. No entanto, quando algo precisa acontecer, vai acontecer. Meu pai sempre dizia isso, apesar de mam\u00e3e achar aquilo uma tremenda bobagem.<\/p>\n<p>Aconteceu. Mas como levou tempo! Uma eternidade de praticamente meia d\u00e9cada.<\/p>\n<p>\u2014 Val\u00e9ria, e precisa desse drama todo pra falar cinco anos?<\/p>\n<p>Parece que ainda ou\u00e7o a voz da dona Lourdes, minha m\u00e3e. Ela sempre me dizia para tentar a sorte como atriz.<\/p>\n<p>\u2014 Val\u00e9ria, voc\u00ea puxou a cara de pau do seu tio L\u00facio. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! Um dia ainda vou te ver numa novela ao lado do Francisco Cuoco.<\/p>\n<p>Bem, tio L\u00facio, irm\u00e3o do meio da dona Lourdes, era o, digamos, porra-louca da fam\u00edlia. E, talvez por isso mesmo, tenha sido o \u00fanico que viveu uma vida deliciosamente inconsequente. Que inveja! Mesmo que seu fim n\u00e3o tenha sido nada rom\u00e2ntico, sem contar que passou por alguns perrengues dignos de&#8230; Bem, fugiu-me a palavra, mas n\u00e3o se preocupe, que uma hora ela volta.<\/p>\n<p>Foi na UnB que o Arlindo reapareceu ainda mais lindo. Ele me observou por um instante at\u00e9 tomar coragem e se aproximar. Devo ter sorrido, pois percebi seus dentes grandes, brancos, como se tivesse sa\u00eddo de um an\u00fancio de pasta de dente.<\/p>\n<p>Marcamos de nos encontrar depois da aula para colocar a conversa em dia. Nem me recordo qual foi a mat\u00e9ria que tive naquela tarde. J\u00e1 tentei puxar pela mem\u00f3ria, mas devo estar muito velha ou, ent\u00e3o, deve ter sido algo que eu n\u00e3o quisesse mesmo lembrar.<\/p>\n<p>\u2014 Matem\u00e1tica?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acredito! Voc\u00ea sempre disse que seria advogada.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? T\u00e1 me chamando de mentirosa?<\/p>\n<p>Arlindo abriu aquele sorriso e, dessa vez, pude me deliciar com uma gargalhada gostosa, que ainda soa em meus ouvidos. Basta fechar os olhos e l\u00e1 est\u00e1 ele, aos 20 anos, como se tivesse o poder de atrair todas as mulheres do mundo. E, n\u00e3o duvido, tenha sido justamente isso que nos afastou. Quer dizer, aconteceu algo pior. Muito pior.<\/p>\n<p>Tornei-me confidente do rapaz por quem, naquele momento, me redescobri apaixonada. Do ci\u00fame inicial, passei a achar gra\u00e7a das conquistas ou desventuras amorosas do Arlindo. No entanto, at\u00e9 sorvete com cobertura de chocolate enjoa. Acabei desenvolvendo repulsa por aquilo tudo, apesar, vez ou outra, sentir certa comisera\u00e7\u00e3o por uma ou outra mulher que ca\u00eda na l\u00e1bia do Don Juan.<\/p>\n<p>A formatura foi a desculpa ideal para conseguir me afastar sem provocar questionamentos. No in\u00edcio, Lindomar, acostumado a ter uma ouvinte ideal, que fazia caras e bocas a cada detalhe dos relacionamentos, me telefonava para me contar as novidades. Eu inventava desculpas, algumas t\u00e3o esfarrapadas, que devem ter feito o sujeito perceber que eu n\u00e3o estava mais afim de escutar suas aventuras.<\/p>\n<p>Uns dois anos ap\u00f3s a nossa \u00faltima conversa por telefone, estava eu no anivers\u00e1rio da Gl\u00e1ucia, quando vi entrar no apartamento o Arlindo. N\u00e3o sei o que me deu, mas sorri em sua dire\u00e7\u00e3o, que demonstrou ter gostado. Como o danado conseguia? Estava ainda mais lindo! E que magn\u00e9tico olhar castanho!<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea por aqui?<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 quanto tempo, Val\u00e9ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos separamos durante quase toda a festa. Quem n\u00e3o gostou muito foi a Gl\u00e1ucia, que, mesmo ap\u00f3s quase uma infinidade de anos, nunca me perdoou. Soube depois de uma semana que ela estava apaixonada pelo Arlindo e, no ano seguinte, os dois se casaram e, at\u00e9 onde me consta, vivem uma vida de apar\u00eancias.<\/p>\n<p>Mas voltando ao anivers\u00e1rio da minha at\u00e9 ent\u00e3o amiga, eis que o Arlindo me ofereceu carona. Aceitei, apesar de morar na quadra ao lado. Estava certa de que acabar\u00edamos na cama, e era o que mais deseja naquele instante, ainda mais por conta de dois copos de cerveja. Sempre fui fraca para bebida.<\/p>\n<p>J\u00e1 no carro, voltamos a nos beijar e nos tocar ap\u00f3s tanto tempo, que havia me esquecido de um detalhe fundamental. Gente, como \u00e9 que fui me esquecer daquilo? Seria o mesmo que mulheres que pariram e, anos ap\u00f3s resolvem engravidar novamente, pois se esqueceram da dor descomunal do parto?<\/p>\n<p>Como beija mal! Fingi que estava naqueles dias e, ent\u00e3o, falei para deixarmos para outra oportunidade, que, obviamente, nunca aconteceu. E, olhando por esse \u00e2ngulo, n\u00e3o sei como \u00e9 que guardei por meio s\u00e9culo aquela bijuteria horr\u00edvel.<\/p>\n<p>Ah, tuaregue! Sim! Tu-a-re-gue! Tio L\u00facio, vez ou outra, levava uma vida de tuaregue.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n<div id=\"wpdevar_comment_4\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou desapegando das pessoas. N\u00e3o ligo para coisas materiais h\u00e1 tempos, mas de gente foi mais complexo. 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