{"id":370716,"date":"2025-11-15T01:15:07","date_gmt":"2025-11-15T04:15:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=370716"},"modified":"2025-11-13T08:56:22","modified_gmt":"2025-11-13T11:56:22","slug":"amigos-para-a-eternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/amigos-para-a-eternidade\/","title":{"rendered":"Amigos para a eternidade"},"content":{"rendered":"<p>O Oliveira frequentava a oficina desde que eu era crian\u00e7a. Lembro-me, tinha 5 anos e estava na pr\u00e9-escola no per\u00edodo vespertino. Como minha m\u00e3e trabalhava e n\u00e3o tinha com quem me deixar, meu pai me levava pela manh\u00e3, bem cedo, j\u00e1 vestido com o uniforme e eu ficava por l\u00e1 at\u00e9 o hor\u00e1rio do almo\u00e7o. A\u00ed, ele esquentava nossa comida numa pequena cozinha nos fundos e, depois de nos alimentar, me deixava na escola. Ao final da tarde, ela me pegava e volt\u00e1vamos para casa.<\/p>\n<p>O tempo que ficava na oficina, me entretinha com algum brinquedo, mas ficava observando os carros que chegavam. Adorava quando, para consertar, meu pai precisava tirar o motor, ou desmontar alguma pe\u00e7a grande. Ficava olhando ele mexer com todas aquelas ferramentas. E depois, quando remontava tudo, me encantava ver o carro funcionando novamente.<\/p>\n<p>Eles eram muito amigos desde os tempos em que fizeram o curso de mec\u00e2nica de autom\u00f3veis no Senai, nos finais dos anos 1960. O pai montou a oficina logo depois, acho que em 1969 ou 1970. J\u00e1 o Oliveira, apesar de ter se formado na mesma \u00e9poca, foi trabalhar no ramo imobili\u00e1rio, mas ele, \u00e0s vezes, at\u00e9 dava uma m\u00e3o quando passava por l\u00e1. Desde essa \u00e9poca, ele j\u00e1 gostava muito de mim e sempre me levava bala de goma, minha guloseima preferida.<\/p>\n<p>Mas na verdade, j\u00e1 moravam na mesma rua quando crian\u00e7as. Na turma dos moleques do bairro, Oliveira tinha apelido de \u201cChinesinho\u201d. A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 a seguinte: nascido no acre, veio para S\u00e3o Paulo com 3 anos de idade. Filho de pai seringueiro, que mal sabia assinar o nome, e m\u00e3e peruana, da regi\u00e3o dos Andes, e em raz\u00e3o dessa miscigena\u00e7\u00e3o, tinha fei\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, com seus olhos puxados, mas, para os garotos, parecia mesmo um chin\u00eas.<\/p>\n<p>\u01eauando adulto, deixou de ser chamado pela alcunha, adotando o \u00faltimo sobrenome. Seu prenome, consequ\u00eancia do baixo letramento dos pais, somente os mais pr\u00f3ximos sabiam, era Hieroglifo. Hieroglifo Mamani de Oliveira. A fam\u00edlia migrou para S\u00e3o Paulo em 1951.<\/p>\n<p>Fui crescendo e acompanhando o trabalho do pai. Continuei indo \u00e0 oficina quase todos os dias, mesmo depois de atingir uma idade em que podia me virar sozinho em casa, me alimentar e me preparar para ir \u00e0 escola, mas com 14 anos comecei a aprender o of\u00edcio e acabei por seguir seus passos, cursando mec\u00e2nica de autos no Senai e, mesmo tendo me formado em engenharia posteriormente, continuei trabalhando com ele.<\/p>\n<p>Alguns anos depois, quando se aposentou, assumi seu posto. Mas ele sempre ia l\u00e1 para matar a saudade dos seus tempos. O Oliveira, que tamb\u00e9m se aposentou, continuou frequentando a oficina, havia ficado vi\u00favo e vivia solit\u00e1rio, pois n\u00e3o tinha filhos e n\u00e3o se casou novamente.<\/p>\n<p>Davam alguns palpites, \u00e0s vezes mexiam em alguns carros, iam at\u00e9 o bar do Portugu\u00eas nas proximidades, jogavam domin\u00f3 ou um carteado e tomavam uma cerveja. Tinham tamb\u00e9m o costume de colocar duas cadeiras na cal\u00e7ada em frente ao nosso estabelecimento e ficavam por ali tomando sol e conversando durante horas.<\/p>\n<p>Em uma manh\u00e3 de triste mem\u00f3ria, minha mulher estava na cozinha enquanto eu me aprontava para o trabalho, ela me chamou, pois, minha m\u00e3e estava ao telefone, muito nervosa, quase n\u00e3o conseguia falar. \u01eauando atendi ela estava se desfazendo em l\u00e1grimas, meu pai acabara de sofrer um mal s\u00fabito e estava ca\u00eddo no banheiro.<\/p>\n<p>Dirigi-me no mesmo instante \u00e0 casa deles, mas antes liguei para o servi\u00e7o de resgate. \u01eauando cheguei a ambul\u00e2ncia do SAMU j\u00e1 estava l\u00e1 e os param\u00e9dicos tomavam os primeiros procedimentos para reanim\u00e1-lo. Ele foi colocado na unidade m\u00f3vel e levado ao pronto-socorro mais pr\u00f3ximo e deu entrada na emerg\u00eancia, mas infelizmente n\u00e3o resistiu, faleceu em poucos minutos.<\/p>\n<p>Liguei para minha tia, dando-lhe a not\u00edcia e pedindo que fosse \u00e0 casa da irm\u00e3 fazer companhia a ela, que me esperasse retornar para comunicar o ocorrido e fui cuidar das provid\u00eancias necess\u00e1rias. Tudo resolvido, voltei para a casa de meus pais, minha m\u00e3e aflita j\u00e1 pressentia a situa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o foi f\u00e1cil acalm\u00e1-la.<\/p>\n<p>Em seguida passei a ligar para parentes e amigos para transmitir a funesta not\u00edcia e, logicamente, n\u00e3o poderia esquecer seu grande companheiro, o Oliveira. Liguei diversas vezes, mas n\u00e3o atendia, foi quando tive a ideia de passar no botequim do Portugu\u00eas, onde eles sempre tomavam a cervejinha e jogavam domin\u00f3 ou carteado.<\/p>\n<p>\u01eaual n\u00e3o foi minha surpresa com a resposta dele. Disse-me que o vira pela \u00faltima vez naquela manh\u00e3. Ele estava sentado junto a meu pai, em frente \u00e0 oficina. Conversaram por um bom tempo e depois sa\u00edram caminhando, rua abaixo. Expliquei que isso era imposs\u00edvel, ele deveria estar enganado, pois meu pai falecera na mesma manh\u00e3. O Portugu\u00eas fez o Sinal da Cruz por tr\u00eas vezes, e falou:<\/p>\n<p>&#8211; Meinhanossassenhoradyfatma, ant\u00e3o eu vi um fantaijisma!<\/p>\n<p>Como sempre fui c\u00e9tico e n\u00e3o sou dado a essas crendices, al\u00e9m do mais, bastante impactado com o acontecimento do dia, deixei ele falando sozinho e me fui conjecturando:<\/p>\n<p>&#8211; O pessoal da vizinhan\u00e7a tem raz\u00e3o, o Portugu\u00eas est\u00e1 mesmo ficando gag\u00e1.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podia deixar de avisar o Oliveira, afinal eram amigos t\u00e3o pr\u00f3ximos e a tanto tempo. Resolvi, ent\u00e3o, passar na casa dele, embora fosse bem distante. Ao chegar, constatei com surpresa porque n\u00e3o atendeu minhas liga\u00e7\u00f5es, uma p\u00e9ssima coincid\u00eancia: o local estava cheio de gente aglomerada \u00e0 porta. O Oliveira tamb\u00e9m havia passado mal e antes que os vizinhos o pudessem socorrer, veio a falecer. Como disse, ele era sozinho, vi\u00favo, sem filhos e n\u00e3o tinha parentes pr\u00f3ximos. Assim, por quest\u00e3o de humanitarismo e como homenagem \u00e0 amizade entre ele e meu velho pai, retomei a via-sacra dos procedimentos burocr\u00e1ticos funer\u00e1rios.<\/p>\n<p>Agendei o mesmo local para o vel\u00f3rio e reservei uma vaga no jazigo de nossa fam\u00edlia, meu pai, sabe-se l\u00e1 por que, n\u00e3o queria ser cremado. Assim seguiram os dois, como na vida, parceiros para o al\u00e9m. Na l\u00e1pide, adivinhando um desejo contido dele, n\u00e3o permiti que registrassem seu prenome, fazendo constar apenas \u201cOliveira\u201d.<\/p>\n<p>Os esp\u00edritas dizem que as pessoas, logo ao desencarnarem, se apegam aos lugares que gostavam de estar em vida. Refletindo sobre isso cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que talvez o Portugu\u00eas n\u00e3o estivesse t\u00e3o gag\u00e1 assim. Afinal, achar que viu um fantasma \u00e9 pouco cr\u00edvel, mas ver dois ao mesmo tempo, a\u00ed, deve ser verdade!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Oliveira frequentava a oficina desde que eu era crian\u00e7a. Lembro-me, tinha 5 anos e estava na pr\u00e9-escola no per\u00edodo vespertino. Como minha m\u00e3e trabalhava e n\u00e3o tinha com quem me deixar, meu pai me levava pela manh\u00e3, bem cedo, j\u00e1 vestido com o uniforme e eu ficava por l\u00e1 at\u00e9 o hor\u00e1rio do almo\u00e7o. 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