{"id":370728,"date":"2025-11-16T00:30:51","date_gmt":"2025-11-16T03:30:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=370728"},"modified":"2025-11-13T09:22:58","modified_gmt":"2025-11-13T12:22:58","slug":"sergio-moliterno-nao-era-tao-mole-assim-muito-menos-eterno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sergio-moliterno-nao-era-tao-mole-assim-muito-menos-eterno\/","title":{"rendered":"S\u00e9rgio Moliterno n\u00e3o era t\u00e3o mole assim, muito menos eterno"},"content":{"rendered":"<p>Este texto vai para o meu amigo S\u00e9rgio Moliterno. Que n\u00e3o era t\u00e3o mole assim. E muito menos eterno. Embora fosse quase sempre terno.<\/p>\n<p>N\u00f3s nos conhecemos no bom e velho Liceu Nilo Pe\u00e7anha, em Niter\u00f3i. S\u00e9rgio era o ex-diretor de LNP, a revista do Liceu, e eu fazia parte da equipe editorial subsequente a sua gest\u00e3o. S\u00e9rgio e o novo editor tinham projetos de longo alcance para a revista, enquanto eu s\u00f3 queria um espa\u00e7o para publicar meus poemas (\u00e9, aos 14-15 anos eu escrevia poesias). Resultado: enquanto eles planejavam lan\u00e7ar um jornal ligado \u00e0 revista, eu e um amigo lan\u00e7amos antes um jornalzinho, O temporal. Diga-se, em minha defesa, que eu fora mantido \u00e0 margem do projeto; mas simplesmente n\u00e3o me passou pela cabe\u00e7a consult\u00e1-los, comunicar meu projeto, ver se poderia aparecer ligado a LNP, nada disso. O temporal durou uns cinco meses, o jornal de LNP morreu antes de nascer.<\/p>\n<p>Esse epis\u00f3dio ilustra aspectos que se repetiram ao longo de toda a nossa conviv\u00eancia. Eu era o sem-no\u00e7\u00e3o, que avan\u00e7ava sem olhar para os lados, feito um javali; S\u00e9rgio, o diplomata (ele chegou a trabalhar no Itamaraty), sempre gentil, por vezes hesitante \u2013 n\u00e3o por acaso, ele citava sempre o verso de Rimbaud, \u201cPar delicatesse j\u2019ai perdu ma vie\u201d (Perdi minha vida por delicadeza).<\/p>\n<p>Mas ele tinha o dom de tirar o melhor de mim, e ouso dizer que era rec\u00edproco. Na pracinha de Icara\u00ed onde, j\u00e1 jovens, bat\u00edamos ponto, certa vez ele me dirigiu um brinde:<\/p>\n<p>&#8211; Cheers!<\/p>\n<p>Por algum motivo, eu estava triste. Respondi de bate-pronto:<\/p>\n<p>&#8211; Tears (l\u00e1grimas).<\/p>\n<p>Esse jogo de palavras rimado foi incorporado ao nosso cotidiano e usado, vezes sem conta, por n\u00f3s dois.<\/p>\n<p>O tempo passou, vim para S\u00e3o Paulo ap\u00f3s uma pris\u00e3o pol\u00edtica, S\u00e9rgio chegou pouco tempo depois. Nosso porto de arriba\u00e7\u00e3o foi a boa e velha Abril Cultural; trabalhamos juntos em v\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es, ele como redator, eu como editor. A personalidade cativante de meu amigo conquistou multid\u00f5es, que se deliciavam com suas frases (do tipo \u201cT\u00f4 que nem burro de moenda, rodando e peidando); j\u00e1 eu sou bem mais espinhoso. Nessa fase, ele me fez um dos maiores elogios que recebi: eu o teria ensinado \u201cn\u00e3o a escrever, mas a limpar um texto\u201d, isto \u00e9, copidesc\u00e1-lo at\u00e9 deix\u00e1-lo public\u00e1vel.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o houve o epis\u00f3dio Kadu Moliterno. Houve mil piadinhas \u2013 o atleta era mais jovem que n\u00f3s \u2013, de modo que brincavam que era nosso rebento. Pano r\u00e1pido sobre essa desgraceira.<\/p>\n<p>\u00c9ramos, na ocasi\u00e3o, melhores amigos. Convers\u00e1vamos o tempo todo, beb\u00edamos adoidado e jog\u00e1vamos xadrez. Foi diante do tabuleiro que percebi que o exterior de diplomata gentil escondia uma fera. Na maioria das vezes, minha agressividade javalinesca me dava a vit\u00f3ria, mas por vezes S\u00e9rgio acordava com o ovo virado e a\u00ed, sai de baixo, eu era simplesmente esmagado.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o houve a estadia na Europa. Quase quatro anos. Ao voltar, passei na Cultural para descolar frilas e rever os amigos, a come\u00e7ar por S\u00e9rgio. No final do expediente, sugeri que f\u00f4ssemos a um barzinho para atualizar o papo. Ele, por\u00e9m, me disse que iria pra USP, onde estava cursando alguma coisa (n\u00e3o lembro o qu\u00ea, minha mem\u00f3ria \u00e9 uma lama). Entendi o recado, continu\u00e1mos amigos, nossa cumplicidade era grande demais para outra coisa, mas a fila andou, n\u00e3o \u00e9ramos mais best friends.<\/p>\n<p>Tears.<\/p>\n<p>Ainda assim, reavivamos nossa amizade. Foi a fase do p\u00f4quer na reda\u00e7\u00e3o, no qual a cortesia do diplomata era descartada e o animal feroz empunhava as cartas. Mas ent\u00e3o fui demitido da Abril Cultural e, meses depois, o mesmo aconteceu a S\u00e9rgio. Parti pros frilas, e soube que ele estava montando uma empresa com alguns amigos. Todo pimp\u00e3o, fiquei \u00e0 espera do convite para participar.<\/p>\n<p>O convite nunca veio.<\/p>\n<p>Se eu tivesse um m\u00ednimo de no\u00e7\u00e3o, teria percebido que meu distanciamento do sogro de S\u00e9rgio \u2013 Ari Coelho, que havia levado, a mim e a ele, para a Cultural \u2013 dificultava ou impossibilitava o convite. Ou seja, eu teria de reconquistar a estima do patriarca, para ter alguma chance na empresa em gesta\u00e7\u00e3o. Nem tentei. A partir de 1980, nunca mais fui \u00e0 casa de S\u00e9rgio; \u00e0 de Ari, nem pensar.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o veio o c\u00e2ncer, que levou meu amigo embora. E outro (imagino que tenha sido c\u00e2ncer, at\u00e9 hoje n\u00e3o sei) que, meses depois, levou sua mulher, Helo\u00edsa, minha amiga desde o Liceu. N\u00e3o sei em que ano os dois morreram, havia perdido totalmente o contato.<\/p>\n<p>Sei que at\u00e9 hoje, ocasionalmente, sonho com ele, rio de suas frases espirituosas, ele ri das minhas. E morro de saudades de um amigo que, contrariando sua cita\u00e7\u00e3o habitual, n\u00e3o perdeu a vida por delicadeza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto vai para o meu amigo S\u00e9rgio Moliterno. Que n\u00e3o era t\u00e3o mole assim. E muito menos eterno. Embora fosse quase sempre terno. N\u00f3s nos conhecemos no bom e velho Liceu Nilo Pe\u00e7anha, em Niter\u00f3i. 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