{"id":370991,"date":"2025-11-16T02:00:02","date_gmt":"2025-11-16T05:00:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=370991"},"modified":"2025-11-15T20:23:14","modified_gmt":"2025-11-15T23:23:14","slug":"brasilia-tem-dessas-coisas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasilia-tem-dessas-coisas\/","title":{"rendered":"Bras\u00edlia tem dessas coisas"},"content":{"rendered":"<p>Larissa e Osmar se viram pela primeira vez no Mundial, supermercado popular na rua Volunt\u00e1rios da P\u00e1tria, no Rio de Janeiro. Apaixonaram-se e, talvez envergonhados, guardaram esse sentimento no peito. E o tempo correu que nem lobo-guar\u00e1 no encal\u00e7o de pre\u00e1.<\/p>\n<p>Quase duas d\u00e9cadas depois, agora em Bras\u00edlia, aconteceu a segunda troca de olhares entre Larissa e Osmar. Mais maduros, a vergonha parece ter sido deixada de lado, mesmo que os dois tivessem firmado compromisso com outrem. Coisas da capital, poderiam dizer os que a conhecem, mas que, na verdade, acontecem em qualquer lugar, ainda mais quando o desejo sobrepuja a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Por conta dessas raras coincid\u00eancias que acontecem a todo instante, Larissa e Osmar, sem qualquer conluio nessa quest\u00e3o, prestaram concurso para um \u00f3rg\u00e3o do Distrito Federal e, ap\u00f3s tomarem posse, foram morar na mesma quadra na Asa Norte. Melhor ou pior, compartilhavam o mesmo andar no pr\u00e9dio A. A de adult\u00e9rio, um engra\u00e7adinho poderia dizer. Que seja! E atire a primeira pedra quem nunca&#8230;<\/p>\n<p>Para deixar a situa\u00e7\u00e3o ainda mais instigante, eis que os respectivos apartamentos ficavam de frente um para o outro. Se isso n\u00e3o \u00e9 culpa dos deuses, que certamente conspiraram a favor de poss\u00edvel adult\u00e9rio, n\u00e3o sei mais o que \u00e9. Que des\u00e7am dos altares e assumam sua parcela de responsabilidade nessa pendenga.<\/p>\n<p>O reencontro aconteceu na portaria do edif\u00edcio. Enquanto Osmar aguardava o elevador, eis que a porta se abriu e, <em>voil\u00e0,<\/em> Larissa surgiu como num passe de m\u00e1gica. Os dois se cumprimentaram como se j\u00e1 se conhecessem, apesar de jamais terem trocado nem sequer uma palavra. No entanto, talvez puxados por mem\u00f3rias long\u00ednquas, sorriram.<\/p>\n<p>Larissa saiu do elevador e, curiosa que estava, perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 De onde mesmo nos conhecemos?<\/p>\n<p>\u2014 Do Mundial.<\/p>\n<p>A mulher gargalhou, o que fez os olhos do sujeito brilharem.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 ainda mais linda.<\/p>\n<p>\u2014 Hum! Pelo jeito, perdi a chance naquele dia no Mundial.<\/p>\n<p>\u2014 Tarde.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Aconteceu \u00e0 tarde.<\/p>\n<p>\u2014 Jura?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Nossa, que mem\u00f3ria!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s 16h47 do dia 11 de fevereiro de 2003.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acredito! Voc\u00ea est\u00e1 falando s\u00e9rio?<\/p>\n<p>\u2014 Fiz quest\u00e3o de anotar para te contar um dia.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 que corro algum risco, senhor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Osmar. Mas sem senhor, por favor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Larissa.<\/p>\n<p>Despediram-se com um sorriso e um aperto de m\u00e3os. E essa hist\u00f3ria poderia acabar por aqui, caso n\u00e3o fossem os eventos que se seguiram no final do dia, quando os dois entraram ao mesmo tempo na portaria, pegaram o elevador e, para espanto de ambos, entraram nos respectivos apartamentos, cujas portas eram uma em frente \u00e0 outra.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! Voc\u00ea \u00e9 minha vizinha?<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9, Osmar. Parece que nossos destinos foram mesmo tra\u00e7ados no Mundial.<\/p>\n<p>Casados. Sim, como j\u00e1 mencionado, os dois sabiam que n\u00e3o poderiam contrariar os caminhos delineados pela deusa Coincid\u00eancia. Ademais, a qu\u00edmica era flagrante e, n\u00e3o tardou, Larissa sugeriu um caf\u00e9. Osmar nem titubeou. Sim, sim e sim!<\/p>\n<p>O encontro aconteceu numa inocente segunda-feira. Os dois chegaram quase ao mesmo tempo, mas, antes que entrassem na cafeteria, perceberam que aquilo era deveras arriscado. Bras\u00edlia, um ovo, por l\u00e1 sempre ocorrem inconvenientes esbarr\u00f5es com algum conhecido. Para evitar um mal maior, acharam por bem consumar de vez o adult\u00e9rio.<\/p>\n<p>O problema que se seguiu n\u00e3o foi conviver com a trai\u00e7\u00e3o. Ah, isso \u00e9 mera bobagem que s\u00f3 atinge os tolos. Entretanto, a paix\u00e3o, sim, essa vontade louca de estar ao lado da pessoa amada, n\u00e3o importando as consequ\u00eancias, se apoderou daqueles dois corpos.<\/p>\n<p>Adelmo, marido da Larissa, adotou providencial vista grossa, enquanto Amanda, esposa do Osmar, parecia mais interessada nas aulas de gin\u00e1stica do professor bonit\u00e3o. Essa combina\u00e7\u00e3o parecia perfeita, at\u00e9 que algu\u00e9m, que havia voltado de n\u00e3o sei de onde, come\u00e7ou a se incomodar com a situa\u00e7\u00e3o: Rubens.<\/p>\n<p>Afinal, quem era esse tal Rubens? Bem, Osmar n\u00e3o havia sido a primeira pulada de cerca da Larissa. Para piorar, o ex-amante era ciumento e contumaz praticamente de artes marciais. Um valent\u00e3o, por assim dizer. E, n\u00e3o tardou, tomou as dores como se o tra\u00eddo fosse ele, apesar de h\u00e1 quase seis meses ter sido a parte ativa no t\u00e9rmino do romance. Tudo porque a esposa, Carla, havia descoberto.<\/p>\n<p>Como confus\u00e3o pouca \u00e9 bobagem, eis que todo mundo se conhece em Bras\u00edlia, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de cidade do interior, onde a fofoca corre solta. Um churrasco. Isso mesmo! Um churrasco na casa da Amanda, amiga dessa turma toda. E quem \u00e9 que queria faltar? De jeito nenhum, ainda mais porque a mulher possu\u00eda contatos de gente poderosa, que sempre pode dar aquela ajuda crucial em qualquer pendenga.<\/p>\n<p>Quando chegou o domingo, l\u00e1 estavam todos ao redor da enorme piscina degustando carnes de todos os tipos, quando Carla percebeu um olhar do marido para Osmar, que, at\u00e9 ent\u00e3o, estava completamente alheio aos \u00faltimos acontecimentos. A mulher, que n\u00e3o era de fazer barraco por ninharia, deixou a coisa rolar.<\/p>\n<p>Em determinado momento, eis que o Osmar, bexiga cheia por conta de tantas cervejas, foi ao banheiro se aliviar. Sem qualquer discri\u00e7\u00e3o, l\u00e1 foi o Rubens atr\u00e1s do rival. N\u00e3o deixaria barato. Ou ele desistia daquela pouca-vergonha, ou era capaz de levar um murro no nariz.<\/p>\n<p>Diante do vaso sanit\u00e1rio, Rubens tomou aquele susto com a indesejada intromiss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d4, meu amigo!<\/p>\n<p>\u2014 Oi.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00f4 sabendo de tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Do seu lance com a Larissa.<\/p>\n<p>Imediatamente a uretra travou, e n\u00e3o havia quem fizesse o xixi voltar a correr livre, leve e solto. Mesmo assim, Osmar procurou manter a calma e, cuidadosamente, fechou a braguilha.<\/p>\n<p>\u2014 E voc\u00ea \u00e9 quem?<\/p>\n<p>\u2014 Rubens.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero saber o seu nome, mas quem voc\u00ea \u00e9. Quem?<\/p>\n<p>Aquilo n\u00e3o estava nos planos do brig\u00e3o. Por que o sujeito tinha que perguntar quem ele era? Respondeu sem ter certeza de que a resposta era a mais adequada.<\/p>\n<p>\u2014 Marido da Carla.<\/p>\n<p>\u2014 Hum. E a Carla sabe disso?<\/p>\n<p>\u2014 Sabe do qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Que voc\u00ea est\u00e1 aqui me intimidando para n\u00e3o sair mais com a Larissa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3-n\u00e3-n\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Que tal contarmos para todos agora mesmo?<\/p>\n<p>\u2014 Ora, seu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Osmar.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei o seu nome!<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu j\u00e1 me esqueci do seu. E n\u00e3o fa\u00e7o a menor quest\u00e3o de saber. Sabe por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 para o caso da Carla me perguntar se voc\u00ea e eu j\u00e1 conversamos sobre a Larissa. Obviamente que direi que nem te conhe\u00e7o. Sabe por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que a vida dos outros n\u00e3o me interessa. E tem mais uma coisa, marido da Carla.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Conhece aquela brincadeira infantil de correr em volta das cadeiras, e uma a uma \u00e9 retirada, e quem ficou em p\u00e9 sai?<\/p>\n<p>\u2014 Sei. E da\u00ed?<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea perdeu. E quem est\u00e1 sentado, ali\u00e1s, confortavelmente sentado na cadeira, sou eu. Agora me d\u00e1 licen\u00e7a, que n\u00e3o sei mijar com algu\u00e9m me olhando.<\/p>\n<p>Rubens, boquiaberto, n\u00e3o sabia o que dizer. Saiu, voltou para a mesa, sorriu para a esposa e lhe beijou os l\u00e1bios.<\/p>\n<p>\u2014 Demorou, amor! Onde voc\u00ea foi?<\/p>\n<p>\u2014 Ao banheiro. Acho que bebi demais.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou, Osmar retornou e se sentou ao lado da mulher. Ela o abra\u00e7ou, ele apertou carinhosamente a sua m\u00e3o. Enquanto isso, p\u00e9s de outrem se tocavam por debaixo da mesa, acobertados pela toalha, que nem era t\u00e3o longa assim. Bras\u00edlia tem dessas coisas. E est\u00e1 tudo bem, desde que cada um tome conta apenas da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n<div id=\"wpdevar_comment_4\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Larissa e Osmar se viram pela primeira vez no Mundial, supermercado popular na rua Volunt\u00e1rios da P\u00e1tria, no Rio de Janeiro. Apaixonaram-se e, talvez envergonhados, guardaram esse sentimento no peito. 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