{"id":371049,"date":"2025-11-16T07:01:57","date_gmt":"2025-11-16T10:01:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371049"},"modified":"2025-11-16T07:01:57","modified_gmt":"2025-11-16T10:01:57","slug":"no-suburbio-nosso-de-cada-dia-o-povo-e-o-artista-principal-do-show-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/no-suburbio-nosso-de-cada-dia-o-povo-e-o-artista-principal-do-show-da-vida\/","title":{"rendered":"No sub\u00farbio nosso de cada dia, o povo \u00e9 o artista principal do show da vida"},"content":{"rendered":"<p>Estudante universit\u00e1rio em Botafogo l\u00e1 pelo meio dos anos 70, ultrapassei algumas vezes a fronteira entre o imp\u00e9rio e o arrabalde, entre o p\u00f3 e a pedra, entre o sagrado e o profano. Embora haja uma relativa circunvizinhan\u00e7a, s\u00e3o dois polos que s\u00f3 se atraem nos arrast\u00f5es, nos sem\u00e1foros ou no asfalto.\u00a0 Disc\u00edpulo direto de um suburgat\u00f3rio, minha primeira op\u00e7\u00e3o \u00e9 o sub\u00farbio. A segunda, o sub\u00farbio. A Zona Sul talvez seja a cent\u00e9sima. Ganho meu tempo lendo, assistindo, ouvindo, pesquisando, checando e perguntando sobre coisas do ser humano. Normalmente opto pela minha origem, o segmento menos aquinhoado, consequentemente o que tem mais vontade e disposi\u00e7\u00e3o de viver e, sobretudo, de vencer. Por isso, apesar de ignorados como intelectuais, s\u00e3o os que d\u00e3o aula de conhecimento.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou artista, mas, como eles, gosto sempre de estar onde o povo est\u00e1. \u00c9 ele o astro do show da vida.\u00a0 N\u00e3o \u00e0 toa, sou f\u00e3 incondicional das hist\u00f3rias e das m\u00fasicas de Jorge Ben, Wilson Simonal, Tony Tornado, Bezerra da Silva, Moreira da Silva, Arlindo Cruz, Tim Maia, Carlos Daf\u00e9, Cassiano, Alcione, Mumuzinho, Zeca Pagodinho, Jorge Arag\u00e3o (esse &#8216;moleque atrevido&#8217;), Martinho da Vila (que j\u00e1 teve tantas mulheres que n\u00e3o d\u00e1 pra contar) e Dicr\u00f3, assim como dos escritos do amigo A\u00e9cio Amado. Curiosamente, s\u00e3o todos pretos, suburbanos, de linhagem pobre e ex\u00edmios contadores de hist\u00f3ria. Os que ainda est\u00e3o vivos s\u00e3o novos ricos, mas mant\u00eam a mesma ess\u00eancia suburbana, a qual n\u00e3o escondem nem nos shows ou talk shows elitizados. Contempor\u00e2neo da maioria deles, convivi com alguns, cujos nomes devo omitir por uma \u00fanica raz\u00e3o: n\u00e3o tenho espa\u00e7o para falar de todos na mesma narrativa.<\/p>\n<p>De modo a n\u00e3o ferir suscetibilidades, cit\u00e1-los-ei silenciosamente. Um deles, bastante conhecido na Baixada Fluminense, comprou seu primeiro carro na Feira de Acari. Era um usado \u2013 bastante usado -, daqueles que s\u00f3 pegava empurrando. Por conta desse fundamental detalhe, os amigos apelidaram o possante de\u00a0<i>Maestro<\/i>: era um concerto em cada esquina. Depois de 18 anos no curso prim\u00e1rio, o sujeito conseguiu se formar na malandragem honesta e, com mais dois amigos, percorreu o mundo cantando, contando causos e divertindo plateias de diferentes classes sociais e de intelig\u00eancia variada. Tamb\u00e9m da Baixada Fluminense, um deles se aventurou na pol\u00edtica local e foi banido do partido em sua primeira apari\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Informado que precisava fazer um discurso inflamado e apelativo, o tenor suburbano chegou ao local do com\u00edcio embonecado como se fosse um pav\u00e3o. Come\u00e7ou o falat\u00f3rio pelo fim: \u201cMeu povo, ajude um neg\u00e3o a andar de chapa branca sem ser cambur\u00e3o\u201d. At\u00e9 a\u00ed, tudo mais ou menos. A pedra come\u00e7ou a esquentar quando, sem pestanejar, perguntou ao pov\u00e3o: \u201cVoc\u00eas t\u00eam \u00e1gua, t\u00eam luz, t\u00eam comida, t\u00eam seguran\u00e7a, escola, lazer?\u201d A resposta foi n\u00e3o para todas as indaga\u00e7\u00f5es. \u201cEnt\u00e3o, por que voc\u00eas ainda moram nessa merda de lugar?\u201d Foi cassado antes de concluir a frase. Daqueles que tinha orgulho de ser preto \u2013 e n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para ser diferente -, o terceiro s\u00f3 reclamava quando o convidavam para uma peleja de tiro ao alvo.<\/p>\n<p>A desculpa era conhecida Dicr\u00f3 e salteado: \u201cN\u00e3o vou porque o tiro ao alvo \u00e9 preto e branco, mas todos s\u00f3 querem acertar no preto. T\u00f4 fora!\u201d. Convidados para um show beneficente, o que adorava pensar na morte da Bezerra queria saber quanto ia levar na empreitada. \u201cMas \u00e9 um evento filantr\u00f3pico\u201d, disse o que chamavam de Kid, o que acertou no milhar e abriu a porteira para o mundo superior. \u201cFilantr\u00f3pico? O nome do clube n\u00e3o me interessa. Meu neg\u00f3cio \u00e9 a bufunfa?\u201d Foi um custo informar ao mo\u00e7o que sempre pedia para a malandragem dar um tempo com a semente que beneficente \u00e9 para beneficiar e n\u00e3o para pagar. Segundo dos tr\u00eas a partir dessa para melhor, curiosamente o Pai V\u00e9io tamb\u00e9m comp\u00f4s a m\u00fasica\u00a0<i>Defunto caguete&#8221;<\/i>.<\/p>\n<p>Acho que, por conta dessa bizarra letra, seu vel\u00f3rio foi um dos mais festivos da regi\u00e3o. Apertando sem acender, aquele que adorava a sogra pensou logo na farra et\u00edlico-pagodeira. Mesmo sem convite, tocadores de pandeiro, reco-reco, cu\u00edca, surdo e cavaquinho tomavam assento em volta do caix\u00e3o. Para n\u00e3o fugir \u00e0 regra, tinha de ter a vaquinha para adquirir a cacha\u00e7a de litro e a carne de segunda para o churrasco em homenagem ao morto. Dez contos de cada um e n\u00e3o se toca mais no assunto. A vi\u00fava foi a \u00fanica liberada do rateio. Belo, justo e aben\u00e7oado gesto. Afinal, a desamparada senhora j\u00e1 havia contribu\u00eddo com o defunto. Embora triste de ser lembrado, o final feliz da hist\u00f3ria \u00e9 que, l\u00e1 no c\u00e9u, sem racismo e sem o tal do politicamente correto, certamente os tr\u00eas est\u00e3o pintando, bordando e alegrando as santidades lideradas por S\u00e3o Pedro.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Armando Cardoso \u00e9 presidente do Conselho Editorial de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudante universit\u00e1rio em Botafogo l\u00e1 pelo meio dos anos 70, ultrapassei algumas vezes a fronteira entre o imp\u00e9rio e o arrabalde, entre o p\u00f3 e a pedra, entre o sagrado e o profano. 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