{"id":371203,"date":"2025-11-18T01:00:25","date_gmt":"2025-11-18T04:00:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371203"},"modified":"2025-11-17T01:39:15","modified_gmt":"2025-11-17T04:39:15","slug":"a-pressa-dos-que-nao-tem-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-pressa-dos-que-nao-tem-porto\/","title":{"rendered":"A Pressa dos que N\u00e3o T\u00eam Porto"},"content":{"rendered":"<p>Na esquina da cidade, onde o asfalto respira e o rel\u00f3gio parece sempre atrasado, h\u00e1 uma pressa que n\u00e3o explica seu destino. \u00c9 a pressa dos que correm sem ter para onde ir, um frenesi silencioso que pulsa nos passos apressados, nos olhares que fogem do presente, nos ombros que carregam o peso de um vazio disfar\u00e7ado de urg\u00eancia. E ali, entre o vaiv\u00e9m da rua, a vida se desnuda, po\u00e9tica e inquieta, como um rio que corre sem saber para qual mar.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3, sob um c\u00e9u que hesitava entre o cinza e o azul, vi a dona Clara, com sua bolsa de couro gasta e o cabelo preso \u00e0s pressas. Ela atravessava a avenida como se o mundo dependesse de seu pr\u00f3ximo passo, os p\u00e9s batendo no ch\u00e3o com a determina\u00e7\u00e3o de quem tem um prazo a cumprir. Mas, ao parar no sem\u00e1foro, seus olhos tra\u00edram o segredo: n\u00e3o havia destino. &#8220;\u00c9 que ficar parada me mata&#8221;, ela me disse uma vez, num raro momento de confiss\u00e3o, enquanto esper\u00e1vamos o mesmo \u00f4nibus que nunca vinha no hor\u00e1rio. A pressa de dona Clara era um escudo, uma forma de enganar o vazio que a perseguia desde que os filhos cresceram e a casa ficou grande demais. Correr, para ela, era provar que ainda estava viva, mesmo sem um porto \u00e0 vista.<\/p>\n<p>Ao lado, o rapaz de mochila nas costas, fones de ouvido pendurados como amuletos, caminhava com passos largos, o celular na m\u00e3o brilhando com notifica\u00e7\u00f5es que ele ignorava. A pressa dele era nervosa, quase coreografada, como se cada segundo parado fosse uma amea\u00e7a. Mas, ao cruzar com ele na padaria, ouvi-o dizer ao caixa: &#8220;T\u00f4 s\u00f3 matando tempo at\u00e9 a noite.&#8221; Matando tempo. Que ironia, correr para matar o que j\u00e1 nos mata. Ele corria de si mesmo, da quietude que o obrigaria a encarar as perguntas que o sil\u00eancio traz: o que quero? O que sou? A pressa era sua fuga, uma dan\u00e7a fren\u00e9tica para n\u00e3o ouvir o eco da pr\u00f3pria alma.<\/p>\n<p>E havia a mo\u00e7a de saia azul, com um caderno apertado contra o peito, atravessando a pra\u00e7a como se o vento pudesse roubar seu futuro. Ela parecia carregar o peso de um prazo, mas seus olhos vagavam, perdidos, como quem busca um horizonte que n\u00e3o existe. Certa vez, no caf\u00e9, ela deixou escapar que escrevia poemas, mas nunca os mostrava. &#8220;Falta tempo&#8221;, disse, enquanto corria para lugar nenhum. Sua pressa era um disfarce, uma forma de adiar o momento de se sentar com suas pr\u00f3prias palavras, de enfrentar a vulnerabilidade de ser vista. Correr era mais f\u00e1cil do que parar e se reconhecer.<\/p>\n<p>Eu, parado na cal\u00e7ada, com meu caf\u00e9 esfriando na m\u00e3o, observava esse desfile de urg\u00eancias sem fim. A pressa dos que n\u00e3o t\u00eam para onde ir \u00e9 um poema sem rima, uma elegia ao tempo que escapa. Cada passo apressado \u00e9 um verso, cada suspiro \u00e9 uma estrofe, e o conjunto forma uma can\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m ouve, mas todos cantam. Eles correm, n\u00e3o para chegar, mas para n\u00e3o parar, porque parar \u00e9 perigoso, \u00e9 onde o vazio sussurra, onde a alma pergunta: &#8220;E agora?&#8221;<\/p>\n<p>A cidade segue, com seu barulho de motores e buzinas, e a pressa continua, como um rio que n\u00e3o sabe para onde vai, mas insiste em correr. E eu, com meu caf\u00e9 j\u00e1 frio, penso que talvez a verdadeira coragem n\u00e3o esteja em acelerar, mas em desacelerar. Parar, nem que seja por um instante, e ouvir o que o cora\u00e7\u00e3o murmura quando o mundo cala. Porque, no fundo, a pressa dos que n\u00e3o t\u00eam porto \u00e9 s\u00f3 um jeito de buscar, sem admitir, um lugar onde finalmente possam ancorar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na esquina da cidade, onde o asfalto respira e o rel\u00f3gio parece sempre atrasado, h\u00e1 uma pressa que n\u00e3o explica seu destino. \u00c9 a pressa dos que correm sem ter para onde ir, um frenesi silencioso que pulsa nos passos apressados, nos olhares que fogem do presente, nos ombros que carregam o peso de um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":371204,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-371203","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/371203","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=371203"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/371203\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":371206,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/371203\/revisions\/371206"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/371204"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=371203"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=371203"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=371203"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}