{"id":371289,"date":"2025-11-20T00:00:58","date_gmt":"2025-11-20T03:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371289"},"modified":"2025-11-17T15:54:52","modified_gmt":"2025-11-17T18:54:52","slug":"triangulo-amoroso-com-cheiro-de-peixe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/triangulo-amoroso-com-cheiro-de-peixe\/","title":{"rendered":"Tri\u00e2ngulo amoroso com cheiro de peixe"},"content":{"rendered":"<p>Dolores era uma mulher de fino trato, Guilherme, um cafajeste tesudo, Rodolfo, um rom\u00e2ntico abestado.<\/p>\n<p>Numa vers\u00e3o contempor\u00e2nea do poema Quadrilha, de Drummond, Rodolfo, 60 anos, estava a um tiquinho de se apaixonar por Dolores, 62 anos, que gostava de transar com Guilherme, 48 anos, que n\u00e3o amava ningu\u00e9m, mas tra\u00e7ava todas. Ou pelo menos tentava.<\/p>\n<p>Rodolfo havia conhecido Dolores na casa de uma prima dela, uma semana antes da Noite do Peixe \u2013 como o epis\u00f3dio foi designado pela hero\u00edna (sic), em coment\u00e1rios posteriores com as amigas. Ele ficou impressionado pela mulher madura, de belas fei\u00e7\u00f5es e corpo bem feito. Mas foi sua delicadeza que o conquistou. Conversaram longamente sobre cinema, m\u00fasica e culin\u00e1ria. Foi esse o problema.<\/p>\n<p>Na Noite do Peixe, Dolores recebeu Guilherme em seu apartamento, para uma sess\u00e3o de sexo. Comeram alguns queijos, beberam um bom vinho e come\u00e7aram a se pegar.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos pra cama, querida \u2013 murmurou Guilherme, a voz rouca de desejo, enquanto acariciava a mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos sim, amor. S\u00f3 vou ao banheiro antes.<\/p>\n<p>Nesse momento, tocou o interfone.<\/p>\n<p>&#8211; Esquece \u2013 rosnou Guilherme.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, Gui, pode ser um de meus filhos \u2013 e foi atender. Com uma cara de p\u00e9ssimos amigos, Guilherme a acompanhou.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era um filho e sim Rodolfo, mais aparvalhado do que nunca e rec\u00e9m-apaixonado.<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite, querida. Eu estava passeando pelo seu bairro [o que era meio estranho, ela morava na Bela Vista, ele, no Belenzinho], quando passei por uma peixaria e vi uma magn\u00edfica posta de atum. Pensei, \u201cPor que compr\u00e1-la? Por que n\u00e3o compr\u00e1-la?\u201d \u2013 deu um risinho com a cita\u00e7\u00e3o de um personagem de Chico An\u00edsio, pena que n\u00e3o lembrasse o nome, um risinho que tamb\u00e9m se pretendia sedutor, e prosseguiu, imp\u00e1vido. \u2013 A\u00ed lembrei que voc\u00ea gosta de sushi e comprei-a. Devo informar que, mod\u00e9stia \u00e0 parte, sou um excelente sushiman. Estou aqui embaixo, preparado para fazer pra voc\u00ea o melhor sushi da sua vida. Abra a porta, querida, por favor!<\/p>\n<p>&#8211; Melhor n\u00e3o, Rodolfo. Estou com um amigo. Outro dia, talvez.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite, querido \u2013 disse a mulher, gentilmente, para amenizar a recusa. Estava tranquila, tinha dado o recado, pra bom entendedor, meia palavra basta.<\/p>\n<p>Mas Rodolfo, o rom\u00e2ntico incur\u00e1vel, estava longe de ser bom entendedor.<\/p>\n<p>No apartamento, Dolores e Guilherme voltaram a se atracar, para recriar o clima momentaneamente desfeito. Cinco minutos depois, a campainha soou. Dolores foi abrir a porta, j\u00e1 sabia quem era. Guilherme tamb\u00e9m sabia.<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite, amor \u2013 disse o amoroso sem no\u00e7\u00e3o. \u2013 Uma mulher abriu a porta e entrei junto. Pedi pro porteiro n\u00e3o avisar, para n\u00e3o estragar a surpresa. \u2013 Vendo a fisionomia contrariada da mulher, acrescentou \u2013 N\u00e3o se preocupe, n\u00e3o sou ciumento. Espero que seu amigo goste de comida japonesa. De qualquer modo, ele deve ir embora logo, n\u00e3o \u00e9? A\u00ed teremos a noite s\u00f3 pra n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>Foi nesse momento que Guilherme apareceu. Estava sem camisa, para intimidar o rival com a vis\u00e3o de seus b\u00edceps poderosos.<\/p>\n<p>&#8211; Tu \u00e9 o cara da peixaria, n\u00e9? \u2013 provocou Guilherme num tom agressivo. \u2013 O entregador de atum. Tenho um peixe pra voc\u00ea chupar. Uma manjuba. Mas se morder quebro teus dentes na porrada. E depois vamos dividir um baiacu. Eu te dou o baia, tu me d\u00e1 o resto&#8230; \u2013 e soltou uma risada escrachada.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o caiu a ficha de Rodolfo. Pediu desculpas a Dolores por ter subido sem avisar e cambaleou at\u00e9 o elevador, indo embora.<\/p>\n<p>Depois disso, a noite foi de mau a pior. Dolores ficou indignada com a grosseria de Guilherme, n\u00e3o permitiu que ele lan\u00e7asse a vara de pescar em seu laguinho de \u00e1guas mornas.<\/p>\n<p>O cafajeste, por sua vez, foi embora furioso, disposto a pegar a primeira mulher que sorrisse pra ele ou a dar porrada no primeiro cara que o olhasse meio atravessado. O que pintasse primeiro. \u201cQualquer prazer me diverte\u201d, rosnou para si mesmo.<\/p>\n<p>E Rodolfo, o pobre abestado, desiludido do amor? Foi para o Belenzinho de metr\u00f4, gastara boa parte de seu dinheiro na posta de atum; de sua pessoa emanava um enlouquecedor cheiro de peixe que seduziu todos os gatos vadios da redondeza. Entrou em casa rodeado de felinos que se ro\u00e7avam em suas pernas e miavam para ele, implorando por carinho. E, claro, por um pedacinho daquele manjar dos deuses.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dolores era uma mulher de fino trato, Guilherme, um cafajeste tesudo, Rodolfo, um rom\u00e2ntico abestado. 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