{"id":371294,"date":"2025-11-21T01:00:14","date_gmt":"2025-11-21T04:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371294"},"modified":"2025-11-17T16:07:48","modified_gmt":"2025-11-17T19:07:48","slug":"marianne-convidou-o-casal-para-uma-ceia-de-natal-em-paris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/marianne-convidou-o-casal-para-uma-ceia-de-natal-em-paris\/","title":{"rendered":"Marianne convidou o casal para uma ceia de Natal em Paris"},"content":{"rendered":"<p>Olga e L\u00facio, casados de papel passado, moravam em Paris. Faziam p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na Sorbonne, ela em filosofia, ele em sociologia. Aos poucos, fizeram alguns amigos e amigas locais. Foi uma dessas amigas francesas, Marianne, quem os convidou a participar da ceia de Natal no apartamento de Jean e Marie France, seus primos.<\/p>\n<p>L\u00facio ficou animado pela oportunidade de ver de perto os mecanismos internos de uma fam\u00edlia francesa. Era preciso, por\u00e9m, permanecer fiel a algumas normas de etiqueta, para n\u00e3o dar a impress\u00e3o de ser um casal de selvagens vindo de um pa\u00eds de selvagens.<\/p>\n<p>&#8211; Olga, uma ceia formal com certeza vai come\u00e7ar com uma entrada, depois um peixe, uma ave, finalmente uma carne. Voc\u00ea vai pelo menos fingir que prova cada prato?<\/p>\n<p>&#8211; Amor, voc\u00ea sabe que n\u00e3o como peixotos nem pen\u00e1ceos (era assim que Olga se referia desdenhosamente a peixes e aves). Nem frutos do mar.<\/p>\n<p>L\u00facio deu de ombros, resignado, e n\u00e3o insistiu.<\/p>\n<p>Na noite de Natal, chegaram pontualmente, \u00e0s 21 horas, ao apartamento de Marie France e Jean. Marianne j\u00e1 estava l\u00e1. L\u00facio entregou uma garrafa de um excelente (e caro) vinho tinto ao anfitri\u00e3o, um buqu\u00ea de lindas (e caras) flores \u00e0 anfitri\u00e3, pegou um aperitivo, sentou-se o sof\u00e1 e esperou o in\u00edcio da ceia.<\/p>\n<p>E o chabu come\u00e7ou. O sil\u00eancio baixou pesado. Para quebr\u00e1-lo, Jean colocou no aparelho de som um disco de um comediante franc\u00eas \u2013 uma vers\u00e3o gaulesa de Jos\u00e9 Vasconcelos. E passou a rir das piadas, por vezes acompanhado pelas duas nativas. Olga, que tinha um franc\u00eas bem melhor que o de L\u00facio, por vezes sorria. Nessas ocasi\u00f5es, ele sorria junto; mas na maior parte do tempo, sem entender as piadas, ficava s\u00e9rio. E bebia.<\/p>\n<p>Quando a ceia come\u00e7ou. L\u00facio j\u00e1 estava pra l\u00e1 de Marrakesch. Veio a entrada, um magn\u00edfico pat\u00ea de f\u00edgado de ganso. Todos atacaram a iguaria. Menos Olga, que n\u00e3o comia pen\u00e1ceo, e muito menos f\u00edgado de pen\u00e1ceo. Embara\u00e7ado, L\u00facio bebeu mais ainda. E mais r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Veio o peixe, uma truta ao molho de am\u00eandoas, mesma coisa. Olga firme na recusa do peixoto, L\u00facio firme na birita.<\/p>\n<p>Depois chegou a ave, uma galinha d\u2019angola, que os franceses chamam de \u201cpintade\u201d. Olga ignorou o pen\u00e1ceo; seu marido, irremediavelmente b\u00eabado, teve de se controlar pra n\u00e3o fazer piadinhas com os apreciadores da pintada, do tipo \u201cvoc\u00ea pinta como eu pinto?\u201d Conseguiu \u2013 e depois apagou, a mostra de autocontrole foi sua \u00faltima lembran\u00e7a da ceia.<\/p>\n<p>Acordou algum tempo depois, na cama de Marie France e Jean. N\u00e3o sabia quanto tempo dormira, deixara o rel\u00f3gio em casa para parecer menos burgu\u00eas, menos escravo do tempo, mais despojado. Sentia-se estranhamente bem, num nirvana et\u00edlico, como se tivesse descartado todos os seus dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>Foi pra sala de jantar, viu que a ceia j\u00e1 havia terminado. Sem saber como agir, sorriu para todos; a anfitri\u00e3 sorriu de volta e, sem dizer palavra, deu-lhe um copo cheio de \u00e1gua at\u00e9 a borda. Mensagens claras: \u201dHidrate-se!\u201d e \u201cN\u00e3o chegue perto de \u00e1lcool o resto a noite!\u201d<\/p>\n<p>Em seguida, cheios de tato, os franceses retiraram-se, dando a Olga e L\u00facio privacidade para conversar. Mas n\u00e3o houve di\u00e1logo, a mulher deu-lhe uma sonora bofetada.<\/p>\n<p>&#8211; Monstro! Foi me trair logo com a Isildinha, minha melhor amiga! Nosso casamento acabou! \u2013 e saiu sem se despedir, batendo a porta com for\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cDeuses, ser\u00e1 que confessei tudo?\u201d, pensou. \u201cSe fiz isso, ferrou de vez\u201d. Mas, no nirvana de \u00e1lcool em que se encontrava, n\u00e3o ligou muito. O que n\u00e3o faltavam eram mulheres doidinhas para transar. A come\u00e7ar pela Izildinha.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa reflex\u00e3o, tratou de despedir-se e ir embora. Passou por um quarto de porta entreaberta, avistou Marianne, chamou-a, ela se aproximou \u2013 e o beijou apaixonadamente.<\/p>\n<p>-Eu sabia que me desejavas, era f\u00e1cil perceber \u2013 murmurou a amiga autopromovida a amante. \u2013 Mas que lindas palavras de amor me dirigiste esta noite! Sutil, para tua mulher n\u00e3o entender, mas a mensagem foi recebida. \u2013 Beijou-o muitas e muitas vezes e concluiu:<\/p>\n<p>&#8211; Agora vais voltar pra casa e terminar a farsa \u2013 palavras tuas \u2013 com Olga. Logo estar\u00e1s em meus bra\u00e7os. E advirto-te, sou ciumenta!<\/p>\n<p>\u201cLascou, perdi uma esposa e ganhei, no m\u00ednimo, uma noiva possessiva\u201d, disse para si mesmo, com um sorriso meio amargo e cada vez menos et\u00edlico. O pior \u00e9 que sabia o que iria rolar, acontecera com v\u00e1rios amigos seus. Seria exibido como um bicho ex\u00f3tico aos amigos da gaulesa e, um dia qualquer, sem mais nem menos, levaria um p\u00e9 na bunda.<\/p>\n<p>Lucio pensou nos tupinamboucs, termo com eram designados os tupinamb\u00e1s levados para a corte francesa nas d\u00e9cadas de 1550 e 1560. Era como se via \u2013 um canibal selvagem a ser exibido aos sofisticados europeus. Mas n\u00e3o, os canibais eram eles. Iriam devor\u00e1-los na cama e no conv\u00edvio social e, quando se enfastiassem, jogariam fora os ossinhos, o que sobrasse.<\/p>\n<p>De repente, o chav\u00e3o \u201ca Europa se curva ante o Brasil\u201d ganhou novo sentido. \u201cCurva-se\u201d, concluiu L\u00facio, \u201cpara ver mais de perto a presa, curva-se para escolher as carninhas tenras a serem consumidas primeiro, no banquete antropof\u00e1gico\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olga e L\u00facio, casados de papel passado, moravam em Paris. 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