{"id":371299,"date":"2025-11-22T00:15:36","date_gmt":"2025-11-22T03:15:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371299"},"modified":"2025-11-21T08:38:29","modified_gmt":"2025-11-21T11:38:29","slug":"conto-inspirado-no-tango-garufa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/conto-inspirado-no-tango-garufa\/","title":{"rendered":"Conto inspirado no tango Garufa"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 1958. Era de praxe: mal Isidoro entrava no inferninho, soavam os acordes alegres de Garufa. Ele agradecia com uma rever\u00eancia e a festa come\u00e7ava. Pagava bebidas para os m\u00fasicos e as minas, dan\u00e7ava \u2013 n\u00e3o A Marselhesa, a Marcha Garibaldi e O Trovador, como afirma zombeteira a can\u00e7\u00e3o \u2013, mas tangos e milongas. E bebia mais. \u00c0s vezes sa\u00eda com uma puta, \u00e0s vezes terminava a noite por ali mesmo, b\u00eabado, com um sorriso bobo no rosto.<\/p>\n<p>Isidoro, 60 anos, funcion\u00e1rio p\u00fablico, era feliz assim. N\u00e3o morava com a m\u00e3e, como o protagonista do tango, e sim sozinho. Vestia-se com cuidado para a noite, mas sem polainas e colarinho duro, itens obrigat\u00f3rios do vestu\u00e1rio de um janota em 1928, quando Garufa surgiu. N\u00e3o encarava noites de bacanal, simplesmente gostava da companhia de tangueros e prostitutas, seus amigos e amigas coloridas. Sabia que era aceito por seu dinheiro, eram as regras do jogo. \u201cMas eles e elas gostam mesmo de mim\u201d, disse para si mesmo.<\/p>\n<p>Os deuses ouviram, acharam gra\u00e7a e decidiram presente\u00e1-lo com um banho de realidade.<\/p>\n<p>Na noite seguinte, quando Isidoro entrou na boate de quinta categoria, percebeu, assustado, que conseguia escutar os pensamentos de todos. Foi um banho de \u00e1gua fria.<\/p>\n<p>\u201cPorra, chegou o babac\u00e3o. Temos de tocar Garufa para o ot\u00e1rio, sorrir pra ele, e agradecer pelo champanhe falsificado que paga pra gente.\u201d<\/p>\n<p>\u201cE quando cai de b\u00eabado e dorme aqui, babando? Velho sem no\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPelo menos n\u00e3o \u00e9 m\u00e3o de vaca, esse ot\u00e1rio. A gente explora ele faz tempo.\u201d<\/p>\n<p>Com as prostitutas, foi mais doloroso.<\/p>\n<p>\u201cPorra, chegou o babac\u00e3o. Tomara que beba todas e desabe. Ou que fique alisando os m\u00fasicos, o ot\u00e1rio acredita que gostam dele, pode isso?\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00c9, mas depois vem pro nosso lado, e trepar com ele ningu\u00e9m merece.\u201d<\/p>\n<p>\u201cPelo menos n\u00e3o \u00e9 m\u00e3o de vaca, esse ot\u00e1rio. A gente explora ele faz tempo.\u201d<\/p>\n<p>Aturdido com as revela\u00e7\u00f5es, Isidoro saiu trope\u00e7ando e voltou para casa. Nunca mais voltaria \u00e0quela espelunca, n\u00e3o conseguiria fingir que estava tudo bem. E percebeu que n\u00e3o havia (nem haveria) outros amigos, outras mulheres. Estava condenado \u00e0 solid\u00e3o ampla, geral e irrestrita.<\/p>\n<p>Em casa, \u00e0 beira das l\u00e1grimas, em um \u00faltimo presente malevo das divindades da noite, canalizou, em vers\u00e3o isidoresca, os versos finais de A hist\u00f3ria de Lily Braun, de Chico Buarque de Holanda, can\u00e7\u00e3o que surgiria apenas em 1983, em plagas brasileiras:<\/p>\n<p>\u201cNunca mais amigos\/ A brindar comigo\/ S\u00e3o todos vis\/ Nunca uma espelunca\/ Nem um tango, nunca\/ Nunca mais feliz.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 1958. Era de praxe: mal Isidoro entrava no inferninho, soavam os acordes alegres de Garufa. Ele agradecia com uma rever\u00eancia e a festa come\u00e7ava. Pagava bebidas para os m\u00fasicos e as minas, dan\u00e7ava \u2013 n\u00e3o A Marselhesa, a Marcha Garibaldi e O Trovador, como afirma zombeteira a can\u00e7\u00e3o \u2013, mas tangos e milongas. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":371300,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-371299","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/371299","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=371299"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/371299\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":371302,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/371299\/revisions\/371302"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/371300"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=371299"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=371299"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=371299"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}