{"id":371531,"date":"2025-11-20T00:15:14","date_gmt":"2025-11-20T03:15:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371531"},"modified":"2025-11-19T22:39:59","modified_gmt":"2025-11-20T01:39:59","slug":"eis-um-conto-do-livro-camafeus-do-escritor-cassiano-silveira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/eis-um-conto-do-livro-camafeus-do-escritor-cassiano-silveira\/","title":{"rendered":"Eis um conto do livro &#8220;Camafeus&#8221;, do escritor Cassiano Silveira"},"content":{"rendered":"<p>Sentando-se \u00e0 mesa, o Senhor pediu um peda\u00e7o de bolo.<\/p>\n<p>\u2014Acab\u00f4, Sinh\u00f4.<\/p>\n<p>\u2014Que!? Mas j\u00e1! Fizeste esse bolo hoje pela manh\u00e3&#8230; Quem comeu?<\/p>\n<p>Jesu\u00edna apenas calou, virando-se outra vez para as panelas que ferviam no fog\u00e3o a lenha, preparando o jantar. Quem falou foi Odetta, a governanta:<\/p>\n<p>\u2014Foi certamente a sinhazinha, Senhor. Hoje quando fomos fazer a ora\u00e7\u00e3o da tarde, senti seu h\u00e1lito de bolo de fub\u00e1. Continua gulosa, a sinhazinha Amada, por mais que eu lhe diga que \u00e9 pecado. O padre sempre lhe passa penit\u00eancia, mas o pecado nessa menina \u00e9 recorrente. E essa escrava a\u00ed, acoberta.<\/p>\n<p>Jesu\u00edna sentiu em suas faces um calor muito maior que aquele que vinha das achas ardentes. N\u00e3o saberia dizer se sua rea\u00e7\u00e3o era mais por medo do castigo que estavam em risco de receber (ela e a sinhazinha), se era a vergonha de reconhecer-se c\u00famplice dos deslizes da menina ou ainda se era a raiva silenciosa que sentia de Odetta, que estava sempre criando suas intrigas. Minto, saberia sim: sua vontade era derreter a cara de Odetta na chapa quente do fog\u00e3o!<\/p>\n<p>O Senhor olhou grave para a cozinheira, que continuava de costas e n\u00e3o se encorajava a falar.<\/p>\n<p>\u2014Tenho sido muito ausente da educa\u00e7\u00e3o da Maria Amada, mas sei como emend\u00e1-la. Amanh\u00e3 bem cedo vou encaminhar a solu\u00e7\u00e3o para acabar com a gula dessa menina. Quanto a voc\u00ea, Jesu\u00edna, fique atenta que o relho est\u00e1 sempre quente&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte, logo cedo, o pai foi \u00e0 cidade. Na volta, trazia ao colo uma bela caixa azul, a cara fechada enquanto o cocheiro conduzia a charrete. Entrou na casa com a embalagem nas m\u00e3os, \u00e0 vista da esposa e da filha, que estavam reunidas na sala conforme orienta\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do pai. Odetta estava em p\u00e9, ao fundo do compartimento, observando com a t\u00edpica express\u00e3o franzida.<\/p>\n<p>\u2014Nesta caixa trago meia d\u00fazia de cafa&#8230; camafeus. S\u00e3o doces muito finos! N\u00e3o quero que ningu\u00e9m os pegue que n\u00e3o seja \u00e0 minha vista e com minha autoriza\u00e7\u00e3o \u2013 falou de forma abrupta, seus olhos terminando a frase voltados para a pequena Amada \u2013 Se eu der falta de um \u00fanico deles, o respons\u00e1vel ser\u00e1 punido com o merecido rigor, conforme a minha vontade.<\/p>\n<p>Dito isso, encaminhou-se at\u00e9 a cristaleira, abriu a porta e pousou a caixa azul sobre uma pilha de pratos rasos, na prateleira mais baixa. Queria que estivessem ao alcance dos olhos e das m\u00e3os de Amada. Tinha certeza do que aconteceria. Saiu da sala sem dizer mais palavra, a pesada bengala batendo no assoalho, num compasso torto com os tacos das botas. Foi cuidar dos assuntos da fazenda, olhar os escravos no eito, verificar como ia a colheita. O povo da sala dispersou, Amada levando suas bonecas para a varanda frontal do sobrado, mas n\u00e3o sem antes olhar de esguelha para o arm\u00e1rio recheado com as deliciosas iguarias. Odetta, em sinal de respeito, aguardou de olhos baixos que todos sa\u00edssem, para s\u00f3 ent\u00e3o colocar-se em movimento.<\/p>\n<p>Ao p\u00f4r do sol, com o retorno do Senhor \u00e0 casa-grande, a trag\u00e9dia instalou-se. A insist\u00eancia de sinhazinha Amada em negar o \u00f3bvio enfurecia o pai!<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o negue! \u2013 vociferou ele.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o fui eu! \u2013 chorava a menina, ciente do castigo que viria \u2013 Eu n\u00e3o comi o doce!<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o negue, minha filha, voc\u00ea sabe que \u00e9 pior! \u2013 clamou a m\u00e3e, j\u00e1 aflita.<\/p>\n<p>O pai, destemperado, avan\u00e7ou para aplicar a disciplina \u00e0 filha.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3\u00e3\u00e3ooo!!! \u2013 gritou Amada, enquanto sa\u00eda correndo sala afora.<\/p>\n<p>O Senhor n\u00e3o pensou, imediatamente saindo em persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 garota. Amada, com p\u00e9s ligeiros de crian\u00e7a assustada, fugia para algum lugar que n\u00e3o fazia ideia de onde seria. Desejava apenas se ocultar da f\u00faria do pai por um tempo. Conhecia a m\u00e3o pesada dele, que na hora da raiva descia ainda mais severa. Mas Amada titubeou ao chegar \u00e0 escada que descia ao jardim. Foi apenas uma fra\u00e7\u00e3o de segundo, mas o suficiente para que seu perseguidor chegasse perto o bastante para quase toc\u00e1-la. A garota principiou a descida resoluta, o pai ciente que n\u00e3o conseguiria alcan\u00e7\u00e1-la com o joelho ruim. Num ato de raiva cega, a pesada bengala tornou-se extens\u00e3o do bra\u00e7o e da c\u00f3lera paterna, descrevendo longo arco no espa\u00e7o e alcan\u00e7ando a t\u00eampora direita da garota. J\u00e1 inconsciente, a menina tombou. Seu corpo rolando sobre os degraus, fraturando-se, partindo algo et\u00e9reo e importante que liga a vida \u00e0 carne. Tr\u00eas segundos, apenas tr\u00eas segundos, e o corpinho quedou inerte sobre o caminho de seixos ao p\u00e9 da escada. Mas para quem assisti<br \/>\na a cena, foi uma eternidade.<\/p>\n<p>No alvorecer seguinte, o corpo de Jesu\u00edna balan\u00e7ou sem vida no pelourinho da cidade, a corda atada ao pesco\u00e7o. \u201cEla matou a filha do Capit\u00e3o!\u201d, comentavam entre a assist\u00eancia do m\u00f3rbido espet\u00e1culo. \u201cFoi vingan\u00e7a. Inveja da vida da menina Amada, cheia de mimos. Escravo \u00e9 assim mesmo, trai\u00e7oeiro!\u201d; \u201cA hist\u00f3ria foi confirmada pelos pais e pela governanta italiana, gente de bem, de moral. \u00c9 uma verdade clara!\u201d. Enquanto isso, Maria Amada era enterrada ao p\u00e9 do altar da igreja de S\u00e3o Honorato. Partia vestida de anjo, mortalha de ricos adornos, em um caix\u00e3o de gal\u00e3o dourado que a acompanharia na cova. Um batalh\u00e3o de carpideiras chorava l\u00e1grimas falsas que n\u00e3o conseguiam verter dos olhos do pai. O Senhor estava convicto que s\u00f3 fizera o que era certo em tentar educar a filha. Fora uma fatalidade que as pessoas n\u00e3o entenderiam. Deus quis assim, precisava de mais um anjo no c\u00e9u.<\/p>\n<p>Dias depois, Odetta seguia pela rua, sozinha. Vinha toda vestida de preto, acompanhando o luto das pessoas da casa-grande. Atravessou o largo, encharcado pelas chuvas que persistiam desde o sepultamento da sinhazinha, as barras do vestido longo imundas de lama vermelha e outras sujeiras dos caminhos. Iniciou a subida da pequena escadaria que a levaria at\u00e9 o destino pretendido. Necessitava confessar ao padre seu erro. Faria sua penit\u00eancia com o cora\u00e7\u00e3o em profunda contri\u00e7\u00e3o. Arrepender-se-ia sinceramente e n\u00e3o mais repetiria o pecado da gula. Mas at\u00e9 l\u00e1, ainda poderia lembrar com prazer o sabor dos seis deliciosos camafeus, os mais delicados doces que jamais provara.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cassiano Silveira \u00e9 contista e eventual poeta, conforme a imagina\u00e7\u00e3o mandar. \u201cCamafeus \u2013 hist\u00f3rias curtas\u201d (T\u00e3o Livro, 2025), seu \u00faltimo livro, traz 18 textos curtos, de r\u00e1pida leitura, explorando em geral tem\u00e1ticas do cotidiano, cr\u00edtica social, amor, paix\u00e3o e ansiedade. Muitas vezes com finais abertos, buscam fazer o leitor se mexer na cadeira, no sentido de buscar formas de reacomodar suas certezas sobre a vida, o normal e o natural. O livro pode ser adquirido em:<\/strong><br \/>\n<strong>https:\/\/www.livrariadabok2.com.br\/camafeus-historias-curtas<\/strong><br \/>\n<strong>Perfil do autor no Instagram: @siano_silveira<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sentando-se \u00e0 mesa, o Senhor pediu um peda\u00e7o de bolo. \u2014Acab\u00f4, Sinh\u00f4. \u2014Que!? Mas j\u00e1! Fizeste esse bolo hoje pela manh\u00e3&#8230; Quem comeu? Jesu\u00edna apenas calou, virando-se outra vez para as panelas que ferviam no fog\u00e3o a lenha, preparando o jantar. Quem falou foi Odetta, a governanta: \u2014Foi certamente a sinhazinha, Senhor. 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