{"id":371724,"date":"2025-11-21T06:18:01","date_gmt":"2025-11-21T09:18:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371724"},"modified":"2025-11-21T08:29:49","modified_gmt":"2025-11-21T11:29:49","slug":"brasil-entra-na-disputa-como-o-mundo-dos-desafios-da-nova-ordem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-entra-na-disputa-como-o-mundo-dos-desafios-da-nova-ordem\/","title":{"rendered":"Brasil entra na disputa, como o mundo, dos desafios da nova ordem"},"content":{"rendered":"<p>Vivemos as inquieta\u00e7\u00f5es do processo de constru\u00e7\u00e3o de uma &#8220;nova ordem mundial&#8221;, algo a lembrar as tens\u00f5es sofridas em meio \u00e0s duas \u00faltimas guerras mundiais, que, ao pre\u00e7o conhecido, redesenharam o mundo, sua pol\u00edtica, sua geografia e sua economia.<\/p>\n<p>Os tempos de hoje, herdeiros daquelas conflagra\u00e7\u00f5es e da &#8220;Guerra Fria&#8221; (sua continuidade em novos termos) \u2014 e de seu principal fruto, o colapso da URSS, com a reconfigura\u00e7\u00e3o do mundo e da vis\u00e3o de mundo que representava a promessa socialista \u2014, n\u00e3o lograram proporcionar o conv\u00edvio com a paz: guerra da Coreia, invas\u00e3o do Vietn\u00e3, as guerras de liberta\u00e7\u00e3o nacional espalhadas pelo mundo, a hecatombe que se abateu sobre o chamado Oriente M\u00e9dio etc. Passamos a lidar com a amarga sensa\u00e7\u00e3o de viver em intervalos de guerras, pois assim a humanidade atravessou todo o s\u00e9culo passado, e assim estamos caminhando nas primeiras d\u00e9cadas deste terceiro mil\u00eanio, sem sabermos que guerra \u00e9 esta do nosso tempo, e muito menos para onde ela est\u00e1 nos levando.<\/p>\n<p>Sua raiz \u00e9, ainda, a disputa pela hegemonia mundial, e esta n\u00e3o est\u00e1 resolvida \u2014 nem jamais estar\u00e1 \u2014, pois as solu\u00e7\u00f5es historicamente conhecidas s\u00e3o sempre\u00a0<i>pro tempore<\/i>. Assim, podemos dizer que tanto a Primeira quanto a Segunda Guerra Mundial do s\u00e9culo passado eram inevit\u00e1veis, pois atendiam a necessidades de dom\u00ednio e poder de que tanto carece o imperialismo, Moloch que mais tem fome quanto mais se alimenta da dieta do dominado.<\/p>\n<p>O fato novo, no quadro de guerra expl\u00edcita, ter\u00e1 sido, nos idos do s\u00e9culo passado, a &#8220;Guerra Fria&#8221;: o engenho pol\u00edtico que, ao administrar as disputas, adiou o conflito temido. A polaridade dos arsenais at\u00f4micos, levados a extremos de destrui\u00e7\u00e3o impens\u00e1veis, convenceu os senhores do mundo do desatino de um conflito que n\u00e3o ensejava a possibilidade de vencedores.<\/p>\n<p>Em outros termos, a imin\u00eancia da destrui\u00e7\u00e3o absoluta, tornada factualmente poss\u00edvel, faria da paz um imperativo. O medo, ou o instinto de sobreviv\u00eancia, manteve a disputa em n\u00edveis de certa razoabilidade, embora o antagonismo entre as pot\u00eancias produzisse ou amplificasse confrontos mort\u00edferos na periferia do sistema. \u00c9 o car\u00e1ter do cen\u00e1rio internacional de hoje, pontuado por focos de tens\u00e3o e de conflitos de toda ordem: \u00e9 a paz poss\u00edvel, a paz assegurada por guerras sob o controle das superpot\u00eancias; guerras que n\u00e3o terminam, que se sucedem umas \u00e0s outras, enquanto afastam do horizonte imediato o grande embate do fim dos tempos.<\/p>\n<p>A disputa pela hegemonia se mant\u00e9m de p\u00e9, mas a &#8220;grande guerra&#8221;, agora, opera-se &#8220;pelas beiradas&#8221;. A Segunda Guerra Mundial (1939\u20131945) p\u00f4s em cena a dissens\u00e3o intercapitalista ao opor o Eixo (Alemanha, Jap\u00e3o, It\u00e1lia) aos Aliados, condom\u00ednio que reunia, \u00e0 frente de todos, os EUA e a URSS (invadida pela Alemanha), cujas respectivas vit\u00f3rias pol\u00edticas, militares e territoriais impuseram a dita Guerra Fria. Vencida a amea\u00e7a nazista e superado o exerc\u00edcio intercapitalista, o conflito dos dois mundos passava a ser o confronto dos blocos comunista e capitalista. O enredo muda.<\/p>\n<p>Vivemos uma outra Guerra Fria, coerente com os desafios de hoje: um <i>intermezzo<\/i> entre a polaridade comercial, pol\u00edtica e militar escancarada (EUA \u2013 China) e seu esper\u00e1vel desfecho, gestado nas entranhas do processo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>No desenho deste cen\u00e1rio em constru\u00e7\u00e3o, os pa\u00edses da periferia do capitalismo n\u00e3o s\u00e3o arquitetos, mas nos incumbe saber que papel desejamos e podemos desempenhar; que espa\u00e7o precisamos defender; que projetos de sociedade, na\u00e7\u00e3o, pa\u00eds podemos perseguir; \u00e9 o espa\u00e7o que as circunst\u00e2ncias de hoje nos ensejam. \u00c9 o que ditam nosso tamanho e nossa popula\u00e7\u00e3o, e \u00e9 o que dita a realidade geopol\u00edtica que nos faz, brasileiros, irm\u00e3os do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>O giro conservador que percorre o mundo como rastilho de p\u00f3lvora, \u00e0 beira da naturaliza\u00e7\u00e3o, e com o qual hoje convivemos \u2014 em nosso continente e em casa \u2014 n\u00e3o \u00e9 um determinismo, muito menos capricho dos deuses. Fen\u00f4meno hist\u00f3rico, precisa ser compreendido, pois esta \u00e9 a melhor, sen\u00e3o a \u00fanica forma de conter seu avan\u00e7o.<\/p>\n<p>O enfrentamento que nos incumbe \u00e9 pol\u00edtico-ideol\u00f3gico, e s\u00f3 adquire sentido quando se transforma em a\u00e7\u00e3o. Os recuos do passado abriram as sendas que possibilitaram o quase livre caminhar do fascismo e de suas varia\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, todas fundadas na brutalidade devastadora das liberdades, espancando esperan\u00e7as, sonhos, projetos de uma civiliza\u00e7\u00e3o minimamente digna.<\/p>\n<p>Da\u00ed a promo\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, de m\u00e3os dadas com o farsesco clamor pelo seu combate \u2014 este, o novo cantoch\u00e3o da direita, no mundo, e aqui e agora, devolvendo aos arquivos as pr\u00e9dicas sobre liberdade e democracia. N\u00e3o se trata da viol\u00eancia larvar, intr\u00ednseca \u00e0 sociedade de classes (viol\u00eancia que se nega, que se escamoteia): trata-se da viol\u00eancia dos aparelhos repressores dos Estados, que caminha da repress\u00e3o indiscriminada de imigrantes ao genoc\u00eddio de palestinos e a destrui\u00e7\u00e3o de Gaza.<\/p>\n<p>Todos estamos e devemos estar preocupados com nosso processo eleitoral, mas ele precisa ser analisado e enfrentado como desdobramento de fen\u00f4meno ainda maior, e mais importante, porque fonte de tudo: o crescimento das ideologias e da a\u00e7\u00e3o concertada da direita, da extrema-direita e dos reacion\u00e1rios de um modo geral, e sua forte influ\u00eancia sobre as massas populares e, portanto, sobre o comportamento pol\u00edtico de nosso povo, como estamos vendo mais claramente desde 2018, como vimos em 2022 e como poderemos ver em 2026.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o fato, concreto e contundente; mas n\u00e3o encerra a hist\u00f3ria toda: o dever da interpreta\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, superando a apar\u00eancia do fen\u00f4meno, \u00e9 identificar sua ess\u00eancia, os condicionantes da forma\u00e7\u00e3o do pensamento de direita no Brasil, sua g\u00eanese e o desenvolvimento que vem alcan\u00e7ando nas \u00faltimas d\u00e9cadas, quando a leitura do processo social que antecedeu o fim da ditadura \u2014 nomeadamente a partir de 2002, com a ascens\u00e3o de governos de centro-esquerda \u2014 sugeria o reencontro do projeto nacional-democr\u00e1tico, com justificadas aspira\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>A revers\u00e3o de expectativas n\u00e3o foi abrupta \u2014 raramente \u00e9. Em todo o mundo, a social-democracia vinha se revelando inepta para enfrentar os desafios impostos pelo mundo real. Cessada a &#8220;amea\u00e7a comunista&#8221;, o novo fantasma era a crise social (uma vez mais o desemprego, agora acicatado pela crise do trabalho; a brutal e crescente concentra\u00e7\u00e3o de renda), quando mais alto era o desenvolvimento econ\u00f4mico, cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Cresceram as disparidades entre as na\u00e7\u00f5es e, dentro delas, entre seus povos.<\/p>\n<p>No Brasil, os sinais de desarranjo \u2014 ou desencanto das massas \u2014 j\u00e1 poderiam ser vistos a partir dos idos de 2013. O desenho retrata o avan\u00e7o do pensamento e da a\u00e7\u00e3o da direita, com suas vincula\u00e7\u00f5es internacionais, palmilhando o fracasso do neoliberalismo. Ela salta das ruas, muitas vezes seguindo as regras do jogo dito democr\u00e1tico-representativo burgu\u00eas, para conquistar a centralidade do poder no mundo que o capitalismo globaliza para melhor governar.<\/p>\n<p>Refiro-me, evidentemente, \u00e0 hegemonia dos EUA e, neles, \u00e0 ascens\u00e3o do trumpismo, o novo farol do pensamento e da a\u00e7\u00e3o articulada da direita, da direita <i>tout court<\/i> e da direita belicosa no mundo.<\/p>\n<p>No Brasil, o registro \u00f3bvio e inevit\u00e1vel \u00e9 o da ascens\u00e3o da extrema-direita, hegemonizada pelo bolsonarismo. Trata-se de fato objetivo, nada obstante o insucesso desse campo na elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2022 e a frustra\u00e7\u00e3o do golpe de 8 de janeiro de 2023, ap\u00f3s maquina\u00e7\u00e3o de mais de quatro anos e comprometimento dos altos escal\u00f5es das For\u00e7as Armadas. Maquina\u00e7\u00e3o que permanece na ordem do dia, pois n\u00e3o contou, at\u00e9 aqui, com ampla rejei\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p>Assim, p\u00f5e-se de manifesto a complexidade do fen\u00f4meno, que n\u00e3o \u00e9 uma conting\u00eancia nossa, e n\u00e3o \u00e9 fen\u00f4meno apenas pol\u00edtico, mas igualmente econ\u00f4mico, social e cultural; e, em todas as hip\u00f3teses, interfere na qualidade do poder e na estabilidade da ordem internacional, quando, em todo o mundo \u2014 e em particular entre n\u00f3s \u2014, cresce (embora ainda livre do acirramento merecido) o conflito inerente \u00e0 sociedade de classes, que o sistema, ainda quando governado pela centro-esquerda (em condom\u00ednio com a direita dita civilizada), cuida de naturalizar.<\/p>\n<p>Trata-se de processo, repito, que insinua configura\u00e7\u00e3o global. Mas, sem ignorar que nenhum pa\u00eds \u00e9 uma autarquia pol\u00edtica, cuidemos, pois, de nossa hist\u00f3ria e do presente que nos aflige, para podermos modific\u00e1-lo conscientes de nossa conting\u00eancia de pa\u00eds no qual o processo de mudan\u00e7as se converte na conserva\u00e7\u00e3o do <i>statu quo<\/i>, e o mantra da ordem nos manda evitar qualquer risco de ruptura. \u00c9 a ideologia reacion\u00e1ria da concilia\u00e7\u00e3o, servidora da Ordem, m\u00e3e do atraso.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Roberto Amaral foi ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia com Lula 1<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos as inquieta\u00e7\u00f5es do processo de constru\u00e7\u00e3o de uma &#8220;nova ordem mundial&#8221;, algo a lembrar as tens\u00f5es sofridas em meio \u00e0s duas \u00faltimas guerras mundiais, que, ao pre\u00e7o conhecido, redesenharam o mundo, sua pol\u00edtica, sua geografia e sua economia. 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