{"id":371742,"date":"2025-11-23T00:30:15","date_gmt":"2025-11-23T03:30:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371742"},"modified":"2025-11-21T09:48:41","modified_gmt":"2025-11-21T12:48:41","slug":"minhas-ciscagens-eram-mencionadas-em-tom-de-brincadeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/minhas-ciscagens-eram-mencionadas-em-tom-de-brincadeira\/","title":{"rendered":"Minhas ciscagens eram mencionadas em tom de brincadeira"},"content":{"rendered":"<p>Milena, n\u00e3o lembro bem das coisas, minha mem\u00f3ria virou uma lama.<\/p>\n<p>N\u00f3s dois, por exemplo. Sinto muito, n\u00e3o fa\u00e7o ideia de como nos encontramos no Face. Voc\u00ea me disse que fez um coment\u00e1rio elogioso sobre minha foto de chap\u00e9u \u2013 que n\u00e3o era meu, e sim de uma namorada, nos bons e velhos tempos pr\u00e9-Covid em que se podia ficar junto de verdade, com pegada \u2013 e que respondi. O qu\u00ea, n\u00e3o fa\u00e7o ideia. Acredito em voc\u00ea, mas n\u00e3o lembro de nada. E deve ter tido alguma frase antes disso, voc\u00ea n\u00e3o ia simplesmente dizer \u201cOi, cara do chap\u00e9u. Te achei bonito, vamos xavecar?\u201d<\/p>\n<p>Em contrapartida, lembro perfeitamente da continuidade. Voc\u00ea me perguntou sobre meus amores, respondi qualquer baboseira e devolvi a pergunta. E a\u00ed voc\u00ea desabou, come\u00e7ou a escrever que Deus era injusto, que tinha levado pro c\u00e9u o amor de sua vida, e por a\u00ed foi, desembestada, uma crist\u00e3 em guerra contra o Criador. Eu, ateu de carteirinha, fiquei at\u00e9 assustado ao ouvir\/ler tanta blasf\u00eamia \u2013 ouvir\/ler, porque, juro, n\u00e3o me recordo voc\u00ea teclou ou falou comigo pelo telefone do Messenger.<\/p>\n<p>E a\u00ed escrevi pra voc\u00ea um texto lindo, Carta a Milena. Tantas vezes falamos dele, que lembro de quase todas as palavras (ou, se n\u00e3o lembro, fantasio, o que vem a dar no mesmo).<\/p>\n<p>Foi esse texto que te seduziu, sei disso. Ou iniciou a sedu\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o lembro se o escrevi como um gesto de amizade, uma oferenda, um boi de reisado, ou se j\u00e1 estava decidido a conquist\u00e1-la. Acho que estava, nos primeiros meses da pandemia eu soltava os cachorros, vivia na ponta dos cascos, havia rec\u00e9m-descoberto os prazeres do sexo online. Nele ningu\u00e9m brocha nem tem ejacula\u00e7\u00e3o precoce \u2013 o para\u00edso para homens de mais de 65 anos que nem eu. Era s\u00f3 o que se podia fazer, e eu fazia muuuito.<\/p>\n<p>N\u00e3o me recordo quando a coisa esquentou entre n\u00f3s. Lembro-me de falar horas com voc\u00ea e, lentamente, ir minando suas defesas, trazendo \u00e0 superf\u00edcie a f\u00eamea que voc\u00ea reprimia desde a morte do atleta. E certo dia voc\u00ea se tornou mais uma, talvez a mais querida, por\u00e9m apenas mais uma de minhas namoradas virtuais.<\/p>\n<p>Viv\u00edamos num mundo de fantasia, em que minhas ciscagens, como voc\u00ea dizia, eram mencionadas em tom de brincadeira. Voc\u00ea fingia n\u00e3o saber das outras mulheres, eu fingia n\u00e3o perceber que voc\u00ea sabia. Mas ent\u00e3o veio o banho de realidade, e a fez sofrer. Era a \u00faltima coisa que eu queria.<\/p>\n<p>Voc\u00ea, n\u00e3o era a primeira vez, aproximou-se de uma mulher de quem suspeitava fosse um de meus piteuzinhos. Talvez sua ideia fosse ficar amiga dela, falar do que sentia por mim e, desse modo, neutraliz\u00e1-la. Mas a fera maldosa percebeu e investiu antes, soltou os cachorros, disse que era minha amante, que a gente j\u00e1 havia se encontrado (mentira), que eu havia prometido romper com voc\u00ea para ficar com ela (mentira), o escambau. Voc\u00ea, coelhinha indefesa, hipnotizada diante de uma loba faminta, limitava-se a repetir, \u201cn\u00e3o quero atrapalhar o amor de voc\u00eas\u201d. O que s\u00f3 alimentava a f\u00faria maldosa da louca. Ela lhe enviou todas as postagens minhas e dela, todos os \u00e1udios, desde os de conversa liter\u00e1ria at\u00e9 os de sexo virtual; cada um era um prego cravado em seu esp\u00edrito. Rompi no mesmo dia com a louca maldosa e nunca mais falei com ela \u2013 mas isso n\u00e3o aliviou o seu sofrimento.<\/p>\n<p>O pior, Milena, \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o aguentou a barra \u2013 pesad\u00edssima, admito \u2013 e terminou comigo. Pedi que voc\u00ea reconsiderasse, mas n\u00e3o cedeu. No fundo, dei raz\u00e3o pra voc\u00ea, foi muito doloroso ouvir todos aqueles \u00e1udios, ler todas aquelas postagens.<\/p>\n<p>Nesse ponto, minha mem\u00f3ria-lama foi um b\u00e1lsamo. Ouvi e li tudo aquilo, mas bloqueei, como se tivesse deletado. J\u00e1 para voc\u00ea, cada frase continuou a ressoar em sua mente, machucando, dilacerando. Sei disso.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, minha querida, se a mem\u00f3ria foi pro espa\u00e7o, em contrapartida tenho muita imagina\u00e7\u00e3o \u2013 afinal, escrevo contos \u2013 e visualizei algumas realidades alternativas para n\u00f3s dois (detesto grandes frases altissonantes, do tipo \u201cpara o nosso amor\u201d).<\/p>\n<p>Em uma delas, voc\u00ea engole o sapo e continua comigo, mas nunca mais consegue confiar em mim, e a gente vai se afastando pouco a pouco, at\u00e9 a ruptura. Em outra, voc\u00ea decide pagar na mesma moeda e parte para namoros online, mas isso \u00e9 uma viol\u00eancia contra voc\u00ea mesma, que a machuca e a faz sentir-se a \u00faltima das mulheres; em uma terceira, voc\u00ea vai de Salvador a Jo\u00e3o Pessoa e d\u00e1 uma surra na vaca maldosa. A meu ver, essa \u00e9 a alternativa mais sadia, mas infelizmente n\u00e3o aconteceu no mundo real. Nele, a fera venceu, a predadora conseguiu separar-nos, embora n\u00e3o tenha ficado com a presa \u2013 meu fr\u00e1gil corpinho. Nunca mais falei com ela.<\/p>\n<p>E voc\u00ea nunca mais falou comigo. Me bloqueou no Facebook e no WhatsApp. Talvez ainda ou\u00e7a meus \u00e1udios, para n\u00e3o esquecer da minha voz. Acho que n\u00e3o, voc\u00ea \u00e9 dura, mas nesse pa\u00eds ainda \u00e9 permitido sonhar. Eu nem isso, meu celular foi roubado e meu computador teve um piripaque, perdi todos os arquivos em que voc\u00ea aparecia. Resultado, nem lembro direito de sua voz, com seu delicioso sotaque baiano, e suas fei\u00e7\u00f5es come\u00e7am a se desfazer na lama de minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Milena, escrevo este relato meio desesperan\u00e7ado, usando seu nome verdadeiro, torcendo para que algum amigo seu o leia, copie e repasse pra voc\u00ea. E que voc\u00ea fique comovida e decida apostar na gente. Tanta coisa que combinamos fazer, como nos encontrar para ver se poderia haver um relacionamento de verdade&#8230; N\u00e3o chegou a acontecer, foi mais uma realidade alternativa que se desfez em fuma\u00e7a. E se juntou \u00e0 de meus cigarros, e desliza por meus dedos, enquanto escrevo.<\/p>\n<p>At\u00e9 outra vida, baianinha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Milena, n\u00e3o lembro bem das coisas, minha mem\u00f3ria virou uma lama. N\u00f3s dois, por exemplo. Sinto muito, n\u00e3o fa\u00e7o ideia de como nos encontramos no Face. 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