{"id":371745,"date":"2025-11-24T01:15:41","date_gmt":"2025-11-24T04:15:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371745"},"modified":"2025-11-21T09:53:58","modified_gmt":"2025-11-21T12:53:58","slug":"conto-inspirado-no-tango-viejo-ciego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/conto-inspirado-no-tango-viejo-ciego\/","title":{"rendered":"Conto inspirado no tango Viejo Ciego"},"content":{"rendered":"<p>Todo velho cego toca um instrumento musical. Jos\u00e9 se enquadrava em mais de dois desses tr\u00eas termos da ora\u00e7\u00e3o, digamos, em uns 2,5: era velho, tocava (bem) violino e n\u00e3o era cego, mas fingia ser. Da\u00ed o 0,5 ponto.<\/p>\n<p>Ele integrava um conjunto musical que percorria as prov\u00edncias da Argentina, se apresentando em boliches e festas locais. Era a grande atra\u00e7\u00e3o da trupe, solava, com seu violino, velhos tangos bem lentos e bem tristes, que faziam muita gente chorar. (Sem d\u00favida, a forte aguardente generosamente entornada tamb\u00e9m contribu\u00eda para isso.)<\/p>\n<p>Certo dia, Jos\u00e9 acordou com um ter\u00e7ol brabo. Mas n\u00e3o podia abandonar os companheiros, colocou \u00f3culos escuros e foi tocar. Deixou, como sempre fazia, o chap\u00e9u pendurado na cadeira, mas o vento o derrubou no ch\u00e3o, aberto para cima. Ele n\u00e3o percebeu, tocava de olhos fechados, entregue \u00e0 m\u00fasica e \u00e0 poesia lancinantes do tango. S\u00f3 no final viu que seu chap\u00e9u estava cheio de dinheiro, gorjetas deixadas para o ceguinho, coitadinho.<\/p>\n<p>Foi assim que tudo come\u00e7ou. Ele jamais disse que era cego e nunca pediu um tost\u00e3o, mas tocava de \u00f3culos escuros, o rosto o mais im\u00f3vel poss\u00edvel, o chap\u00e9u aberto para cima no solo. O dinheiro extra chovia, ganhava mais de duas vezes a sua parte como integrante do conjunto.<\/p>\n<p>Certa noite, depois de seu grupo se apresentar em uma festa de casamento, ele transferia o dinheiro do chap\u00e9u para os bolsos quando sentiu, pelo perfume, uma mulher passar bem junto dele. Olhou-a sob os \u00f3culos, era a mais bonita da festa, mas tinha dono, havia tangueado a noite inteira com um sujeito de ar feroz e possessivo, com cara de pouqu\u00edssimos amigos (mais prov\u00e1vel, nenhum). Jos\u00e9 escapar um suspiro, mescla de admira\u00e7\u00e3o e tes\u00e3o (era velho, mas n\u00e3o estava morto). Azar dele, o corno em potencial deu-lhe um bofet\u00e3o e exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea diz que \u00e9 cego (mentira, Jos\u00e9 nunca dissera isso) mas t\u00e1 babando na minha mulher (verdade), n\u00e9, veio sem vergonha?<\/p>\n<p>E come\u00e7ou a chutar o \u201cceguinho\u201d, ca\u00eddo no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de desmaiar, para s\u00f3 recuperar os sentidos na Santa Casa da cidadezinha, Jos\u00e9 ainda pensou:<\/p>\n<p>\u201cE eu que achava que, quando morresse, iriam acompanhar meu enterro entoando tangos, milongas e outras can\u00e7\u00f5es&#8230; Bobagem minha, perigo partir sob uma chuva de pontap\u00e9s e palavr\u00f5es!\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo velho cego toca um instrumento musical. Jos\u00e9 se enquadrava em mais de dois desses tr\u00eas termos da ora\u00e7\u00e3o, digamos, em uns 2,5: era velho, tocava (bem) violino e n\u00e3o era cego, mas fingia ser. Da\u00ed o 0,5 ponto. 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