{"id":371749,"date":"2025-11-29T00:30:51","date_gmt":"2025-11-29T03:30:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371749"},"modified":"2025-11-24T01:27:49","modified_gmt":"2025-11-24T04:27:49","slug":"a-literatura-da-moca-combinava-com-a-sua-aparencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-literatura-da-moca-combinava-com-a-sua-aparencia\/","title":{"rendered":"A literatura da mo\u00e7a combinava com a sua apar\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Lucila era poetisa, e das boas. Escritora g\u00f3tica, escrevia versos repletos de espectros, apari\u00e7\u00f5es, jovens suicidas, vampiros e lobisomens. Seu nome era Lucila da Silva. Pensou em mudar para Lucila Allan Poe, em refer\u00eancia ao autor de O corvo, um dos pais da literatura dark, mas achou excessivo. Ent\u00e3o assinava seus poemas como Lucila dos Anjos, em homenagem a Augusto dos Anjos, autor de imortais versos depr\u00eas como \u201cEscarra nessa boca que te beija\u201d.<\/p>\n<p>A literatura da mo\u00e7a combinava com a sua apar\u00eancia. Muito p\u00e1lida, de cabelos negros lisos, costumava vestir-se de preto. N\u00e3o um pretinho b\u00e1sico, de partir para uma balada e encarar todas, o que der e vier (ou quem vier e der); n\u00e3o, eram roupas de luto e de morte, sem um colarzinho, uma bijuteria sequer. Ademais, sair para dan\u00e7ar, beber e pegar algu\u00e9m era algo inimagin\u00e1vel para a mo\u00e7oila. Seu programa predileto era visitar um campo-santo, ver as inscri\u00e7\u00f5es nas l\u00e1pides da cidade dos mortos e us\u00e1-las como inspira\u00e7\u00e3o para seus poemas.<\/p>\n<p>Ela costumava chegar aos cemit\u00e9rios uma hora antes de fecharem. Olhava os t\u00famulos, anotava as inscri\u00e7\u00f5es mais interessantes, caminhava pelas alamedas sombreadas de \u00e1rvores, procurava ser discreta, eclipsar-se. Quando um funcion\u00e1rio a via e insistia que ela sa\u00edsse, obedecia sem discutir. Mas por vezes a esqueciam \u2013 e ent\u00e3o era a gl\u00f3ria. Passava a noite entre as tumbas, conjurando esp\u00edritos, recitando invoca\u00e7\u00f5es para que se materializassem. Mas, tadinha, nunca vira nada, nem uma apari\u00e7\u00e3o, um espectro, um abantesma, um fantasminha pra rem\u00e9dio, e muito menos dem\u00f4nios ou as entidades sombrias que povoavam os livros de Lovecraft, outro luminar do g\u00eanero g\u00f3tico. \u00c9 verdade que, uma vez, assistira ao in\u00edcio da materializa\u00e7\u00e3o de uma mulher loura; mas n\u00e3o tinha certeza, a apari\u00e7\u00e3o logo se desfez e, admitia a contragosto, podia ter sido uma combina\u00e7\u00e3o de bruma e luar em torno da est\u00e1tua de uma jovem, erguida sobre um t\u00famulo.<\/p>\n<p>Num fim de tarde, ela vagava entre as sepulturas quando soou o aviso de que o cemit\u00e9rio ia fechar. Ficou quietinha, atr\u00e1s de algumas \u00e1rvores e, como ansiava, foi esquecida. Preparou-se para iniciar as invoca\u00e7\u00f5es t\u00e3o logo a noite ca\u00edsse, quando viu que n\u00e3o estava sozinha. A pouca dist\u00e2ncia, junto a um t\u00famulo, havia um homem tamb\u00e9m vestido de negro, t\u00e3o p\u00e1lido quanto ela. Aproximou-se dele, hesitante, e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tamb\u00e9m gosta de passear nos cemit\u00e9rios no cair da noite?<\/p>\n<p>&#8211; Gosto, \u00e9 meu hor\u00e1rio predileto. Os esp\u00edritos menos evolu\u00eddos ainda dormem, s\u00f3 alguns de n\u00f3s podemos deixar nossos restos e sair&#8230; \u2013 Olhou-a cuidadosamente e concluiu. \u2013 Mas \u00e9 raro ver algu\u00e9m vivo por aqui, a essa hora.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 um esp\u00edrito? \u2013 perguntou Lucila num tom descrente. \u2013 Parece bem vivinho, um homem de carne e osso.<\/p>\n<p>&#8211; Consigo me materializar quase todo, e as roupas escondem parte do que falta. Vago por aqui como penit\u00eancia \u2013 diante do olhar interrogativo da mo\u00e7a, explicou:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o soube amar, desprezei uma mulher apaixonada, que se matou e deixou um bilhete pondo a culpa em mim. Morri pouco depois. Tenho de ficar por aqui at\u00e9 que 10 mulheres vivas transem comigo, mesmo sabendo que sou um espectro. \u00c9 dif\u00edcil&#8230; Estou aqui h\u00e1 anos e ainda faltam duas para eu finalmente me libertar e subir para uma dimens\u00e3o espiritual melhor.<\/p>\n<p>Rom\u00e2ntica na \u00faltima (e num atraso de subir pelas paredes e dar bom dia a cavalo), Lucila olhou-o s\u00e9ria e falou:<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 bom, transo com voc\u00ea. A\u00ed s\u00f3 fica faltando uma mulher pra voc\u00ea ascender no plano espiritual.<\/p>\n<p>Sem toc\u00e1-la, em sil\u00eancio, ele a conduziu \u00e0 entrada de um mausol\u00e9u. Despiu-a parcialmente. Tamb\u00e9m removeu s\u00f3 a cal\u00e7a e transaram. Foi no m\u00e1ximo gostosinho, mas n\u00e3o d\u00e1 para esperar muito de uma rapidinha entre uma vivente e um desencarnado sobre as pedras frias de um jazigo de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Depois de acabarem, ficaram quietos por algum tempo. Finalmente, ele quebrou o sil\u00eancio:<\/p>\n<p>&#8211; Qual \u00e9 o seu nome e quantos anos t\u00eam?<\/p>\n<p>&#8211; Me chamo Lucila e tenho 25 anos (mentira, tinha 29).<\/p>\n<p>&#8211; E aos 25 anos ainda acredita em fantasmas? \u2013 e deu um risinho nada espectral, humano, demasiado humano.<\/p>\n<p>&#8211; Fantasmas? Eu? Claro que n\u00e3o \u2013 mentiu a autora g\u00f3tica \u2013 Que eu saiba, fantasmas n\u00e3o usam cueca nem ficam excitados&#8230; \u2013 e em seguida admitiu, com uma sinceridade que a fez enrubescer. \u2013 Mas quase nunca tenho a chance de fazer amor. E fazer com um homem atraente \u00e9 algo sempre bem-vindo! \u2013 e riu, o riso de uma mulher repentinamente segura de si, que se descobre capaz de dar prazer ao parceiro e ainda mais a si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Lucila e Alfredo, o ficante fantasmag\u00f3rico, passaram a transar no apartamento da mo\u00e7a (ele est\u00e1 desempregado e ainda mora na casa dos pais). E, sempre que poss\u00edvel, visitam cemit\u00e9rios. \u00c0s vexes calha de serem esquecidos pelos vigias. Quando isso acontece, a festa corre solta, os dois deitam e rolam, pintam e bordam, na santa paz do campo-santo. Um fantasma, vendo tais cenas, ficaria com o rosto vermelho de vergonha \u2013 isso, evidentemente, se fantasmas sentissem vergonha, tivessem sangue que se concentrasse no rosto, tivessem rosto e, em especial, se existissem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucila era poetisa, e das boas. 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