{"id":371810,"date":"2025-11-22T01:00:04","date_gmt":"2025-11-22T04:00:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371810"},"modified":"2025-11-21T19:34:54","modified_gmt":"2025-11-21T22:34:54","slug":"cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cidade\/","title":{"rendered":"Cidade"},"content":{"rendered":"<p>Anoitecera como sempre na cidade mais bela que j\u00e1 viram os seus olhos.<\/p>\n<p>Talvez estivesse a sonhar, talvez n\u00e3o, mas aquela cidade, feita de luz e de encanto, era a mais bela que j\u00e1 viram os seus mortais olhos.<\/p>\n<p>Sa\u00edda de uma neblina, envolta num encanto misterioso, com carvalhos silenciosos guardando a entrada, seria aquela a cidade do puro espect\u00e1culo que tanto ouvira falar nas lendas publicitadas dos viajantes?<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia nada.<\/p>\n<p>O autom\u00f3vel penetrava estrada dentro quando viu uma tabuleta bem acima do seu olhar admirado dizendo numa voz interior esplendorosa:<\/p>\n<p>Cidade da Luz \u2013 Bem-Vindo!<\/p>\n<p>Pequenas casas ladeavam a estrada escurecida dentro da noite densa. Mal se viam. Estavam pouco iluminadas pelos far\u00f3is do autom\u00f3vel que agora parecia correr como um rel\u00f3gio sincronizado, avan\u00e7ando pela neblina como um ariete de fogo, silencioso e \u00e1gil, penetrando toda aquela n\u00e9voa de luzes bem acesas, com os olhos fitos e atentos ele ia prosseguindo, avan\u00e7ando, como que entrando em si mesmo num outro lugar.<\/p>\n<p>Lentamente, a estrada come\u00e7ou a alargar e as fachadas das casas em redor denotavam movimentos de algumas pessoas sem cor, estavam como que ensonadas mas maravilhadas sob a luz dos candeeiros e dos n\u00e9ons vivos iridescentes que lhes tra\u00e7avam perfis esbeltos e sofisticados em esgares s\u00fabitos de amorosa dor.<\/p>\n<p>Era sem d\u00favida a cidade mais bela que j\u00e1 viram os seus olhos.<\/p>\n<p>Um palha\u00e7o corre em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 estrada e inicia um n\u00famero de malabarismo com bolas vermelhas girando e girando, subindo e descendo, girando e girando nas suas m\u00e3os \u00e1geis. E sorria como que despreocupado com tudo.<\/p>\n<p>O autom\u00f3vel passa numa tangente ao seu corpo colorido.<\/p>\n<p>O palha\u00e7o sorri, e faz girar as bolas vermelhas, subindo e descendo, girando e girando, despreocupado com tudo, divertido e andando.<\/p>\n<p>Avan\u00e7ando mais o autom\u00f3vel pela estrada ele encontra uma mulher da noite, vestida de preto, de ligas apertadas e batom vermelho nos l\u00e1bios segurando uma bolsa onde guardava um saco de p\u00f3 m\u00e1gico.<\/p>\n<p>Ao ver o autom\u00f3vel passar, abre a bolsa, coloca o p\u00f3 na m\u00e3o tr\u00e9mula e sopra com toda a for\u00e7a fazendo uma cortina de fumo branco entorpecedor.<\/p>\n<p>Ela fecha os olhos e cai na beira da estrada desajeitada.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m na noite para a fazer levantar.<\/p>\n<p>O autom\u00f3vel entra na cidade da luz como um tigre silencioso, vagaroso e com cautela, avan\u00e7ando na estrada e pela ruela na calada da noite sob o sil\u00eancio escurecedor dos arranha-c\u00e9us.<\/p>\n<p>O autom\u00f3vel passa e ningu\u00e9m diz nada, entra subitamente numa zona de vida comercializada.<\/p>\n<p>Ao passar, numa loja envidra\u00e7ada v\u00ea dezenas de ecr\u00e3s de televis\u00e3o com pol\u00edticos mundialmente reconhecidos apontando o dedo e gritando como labaredas ensurdecedoras. Ele lembra-se do palha\u00e7o que passara antes na estrada, que continuava o seu n\u00famero de malabarismo agora com bolas de todas as cores girando e girando, subindo e descendo, girando e girando nas suas m\u00e3os \u00e1geis.<\/p>\n<p>Uma crian\u00e7a assiste sozinha ao espect\u00e1culo das dezenas de ecr\u00e3s de televis\u00e3o, vendo tudo e ouvindo tudo, absorvida pela fascina\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos mundialmente reconhecidos apontando o dedo e gritando como labaredas ensurdecedoras aos seus ouvidos.<\/p>\n<p>A mulher da noite, vestida de preto, de ligas apertadas e batom vermelho nos l\u00e1bios, j\u00e1 sem bolsa, agarra na crian\u00e7a indefesa e leva-a de arrasto juntamente com um carrinho de compras cheio de objectos in\u00fateis.<\/p>\n<p>Moram ali perto, no fundo de um beco mal iluminado.<\/p>\n<p>O autom\u00f3vel e o condutor s\u00e3o um s\u00f3, avan\u00e7am pela cidade da luz como que encadeados com o estranho espect\u00e1culo.<\/p>\n<p>E da estrada levanta-se um p\u00f3.<\/p>\n<p>Centenas de f\u00e3s de clubes de futebol correm como touros \u00e0 solta sa\u00eddos do vapor dos assobios e dos gritos que vinham do est\u00e1dio gigante.<\/p>\n<p>Ouviam-se dos milhares de altifalantes barulhos impressionantes de an\u00fancios a marcas berrantes gritando comprem comprem o quanto antes, enquanto a multid\u00e3o se deleitava com o espect\u00e1culo das luzes alucinantes, com os carros das estrelas sonantes, com os milh\u00f5es que nunca viram antes gastos em fogos-de-artif\u00edcio mirabolantes.<\/p>\n<p>E toda a gente tirava fotos para mostrar a toda a gente enquanto os fogos-de-artif\u00edcio, o espect\u00e1culo das luzes, as estrelas emocionalmente decepcionantes, os nomes nas camisolas que j\u00e1 n\u00e3o jogavam como dantes, as vozes soando \u00e1speras cada vez mais \u00e1speras nos altifalantes, gritavam e gritavam insistentemente num inferno sa\u00eddo e transido da obra de mil Dantes.<\/p>\n<p>No fim, as pessoas voltavam a casa e \u00e0s suas vidas depois do espect\u00e1culo, os cinzeiros cheios de cigarros apagados como num fim de festa, algu\u00e9m sem nome a varrer as ruas no final, enquanto as pessoas iam e vinham son\u00e2mbulas, imersas e imbu\u00eddas numa \u00e2nsia de escravos querendo voltar a remar com avidez os remos das gal\u00e9s que navegavam as suas vidas.<\/p>\n<p>O autom\u00f3vel e o condutor j\u00e1 n\u00e3o sente qualquer dor ou apego e avan\u00e7a pela cidade da luz j\u00e1 sem qualquer vest\u00edgio de medo, as rodas rodando e rodando no autom\u00f3vel indo ledo, destru\u00eddo j\u00e1 foi todo o vest\u00edgio do ego.<\/p>\n<p>Entra num centro comercial colossal, do tamanho de um aeroporto, talvez maior, feito apenas para pagar e passar, para passar e pagar.<\/p>\n<p>Ali as pessoas transidas depositavam o esfor\u00e7o de um m\u00eas inteiro nas m\u00e1quinas registadoras personalizadas com sorrisos dentro, trazendo sacos cheios de latas e de entulho para serem levados com esfor\u00e7o e sem barulho para os seus pequenos apartamentos apertados e apartados de tudo.<\/p>\n<p>Sem barulho e ordenadas, algumas limpas outras n\u00e3o t\u00e3o asseadas, iam e vinham em filas, subindo e descendo as escadas, rolantes e son\u00e2mbulas, algumas cheias de vigor outras cansadas, rolando os olhos umas para as outras, desnudando com sarcasmo as vaidades umas das outras, envergando-se como \u00fanicas e refinadas, para sempre jovens nas suas roupas baratas serializadas, falando ao telem\u00f3vel nas tardes electricamente urbanizadas, tardes que se v\u00e3o consumindo em v\u00e3s tentativas de ca\u00e7adas, a pouco a pouco do sol por e de tudo desligadas.<\/p>\n<p>E nos seus olhares de melancolia fria, est\u00e1 o aguentar o dia-a-dia, o distrair-se de ser, o apenas estar para sorver e existir no s\u00f3 e no parecer, o aparecer em poses cada vez mais parecidas com os actores e as actrizes das telenovelas sazonais fingidas que gritam os seus infinitos problemas emocionais na intimidade das suas casas apartadas economicamente desiguais.<\/p>\n<p>Enquanto isso e por toda a terra, na intimidade das casas apertadas todas iguais, em frente ao calor das televis\u00f5es e depois dos telejornais, as pessoas normais gritam os seus infinitos problemas emocionais umas \u00e0s outras apartadas, apartadas e desligadas de tudo o mais.<\/p>\n<p>E o esquecimento e a dor, mais o cansa\u00e7o de se ser sempre escasso, faz com que todas essas novelas, rodadas em mans\u00f5es e vistas em favelas, silenciem e sentenciem junto ao calor do ecr\u00e3, para onde as pessoas olham deleitadas, curiosas e sem amanh\u00e3, as suas vidas de caras amarelas tornando-se de estranhas modas seguidoras num consentir fren\u00e9tico de f\u00e3, eles e elas, em mans\u00f5es e favelas, sem outro amanh\u00e3 a n\u00e3o ser o desejo que siga assim sempre a vida v\u00e3.<\/p>\n<p>Enquanto isso os pol\u00edticos apontavam o dedo nas dezenas de ecr\u00e3s de televis\u00f5es das lojas, e algures o palha\u00e7o continuava o seu n\u00famero de malabarismo agora com bolas de todas as cores girando e girando, subindo e descendo nas suas m\u00e3os \u00e1geis, girando e girando, e uma roleta girava num cassino, as apostas eram feitas num ensurdecedor barulho, quando o pol\u00edtico deixava de apontar o dedo e de gritar como uma labareda ensurdecedora, a bola na roleta parava num n\u00famero e o dinheiro das apostas era suavemente retirado da mesa esverdeada.<\/p>\n<p>E logo a seguir mudava-se de pol\u00edtico nas dezenas de ecr\u00e3s de televis\u00e3o que se vendiam nas lojas. E outro pol\u00edtico aparecia depois como salvador da colectiva dor, e zangado e irado apontava o dedo \u00e0 vergonha e \u00e0 indec\u00eancia outra e outra vez, outra e outra vez, e a roleta girava lenta rodopiando, girando lenta e rodopiando, enquanto alguns iam e vinham apostando e apostando \u00e1vidos e em frenesi envoltos num ensurdecedor barulho com m\u00e3os \u00e1geis e dedos leves antes que a roleta parasse.<\/p>\n<p>E talvez a roleta nunca parasse pois por todo o lado tudo era tudo igual.<\/p>\n<p>Um jogo estranho de roleta numa estranha encena\u00e7\u00e3o teatral\u2026<\/p>\n<p>O autom\u00f3vel continuou em andamento lento pelas n\u00e9voas e pelos miasmas da espectacularidade.<\/p>\n<p>A mulher, a crian\u00e7a e o palha\u00e7o moravam juntos num beco sem nome l\u00e1 no fundo da luz da cidade.<\/p>\n<p>Viu-os a passar pelo espelho retrovisor arrastando-se na berma da estrada enquanto o autom\u00f3vel avan\u00e7ava como um ariete de fogo pela noite estilha\u00e7ada.<\/p>\n<p>A estrada estava molhada das colectivas l\u00e1grimas da noite passada.<\/p>\n<p>De repente, \u00e0 contraluz, o autom\u00f3vel para.<\/p>\n<p>O homem sai.<\/p>\n<p>Dobra-se no ch\u00e3o como quem cai.<\/p>\n<p>E chora sozinho no meio da estrada.<\/p>\n<p>Um anjo branco desce e segreda-lhe ao ouvido:<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o viste nada\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anoitecera como sempre na cidade mais bela que j\u00e1 viram os seus olhos. 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