{"id":371814,"date":"2025-11-22T02:00:15","date_gmt":"2025-11-22T05:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371814"},"modified":"2025-11-21T19:57:13","modified_gmt":"2025-11-21T22:57:13","slug":"gente-invisivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/gente-invisivel\/","title":{"rendered":"Gente invis\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma fase da inf\u00e2ncia em que a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o presente, que se confunde com a realidade. E foi nesse tempo em que Gilson queria ser invis\u00edvel. Quer dizer, n\u00e3o s\u00f3 queria, como acreditava piamente que era. S\u00f3 anos depois que percebeu que as pessoas podiam v\u00ea-lo. Era s\u00f3 uma quest\u00e3o de estar ou n\u00e3o interessadas em voltar os olhos para aquele pirralho, com cara de fome, cuja pele era marcada pelo barro vermelho de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Antes mesmo de chegar \u00e0 adolesc\u00eancia, Gilson teve certeza de que a vida pode e costuma ser cruel. As coisas belas que lhe contaram s\u00e3o destinadas a poucos. Quanto aos demais, que lutassem por migalhas porventura ca\u00eddas. E foi justamente a partir da\u00ed que come\u00e7ou a preencher folhas e mais folhas com seus garranchos.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, o meninote n\u00e3o tinha consci\u00eancia do que estava fazendo, mas, assim que a puberdade chegou carregada de horm\u00f4nios, a revolta se instalou de vez. Escrevia para protestar contra tudo e contra todos e, quando n\u00e3o havia por que reclamar, reclamava pelo simples h\u00e1bito de reclamar.<\/p>\n<p>Protestou contra pai, m\u00e3e, tio, tia, irm\u00e3os, vizinhos, amigos e inimigos. O que n\u00e3o faltava era gente para o gajo reclamar. Suas ideias vinham do f\u00edgado e, por isso, era mais amarga do que a pr\u00f3pria bile. E, quando tentavam florear seus escritos, Gilson se irritava, pois acreditava que apaziguar os \u00e2nimos era dar ainda mais for\u00e7a aos fortes.<\/p>\n<p>Sem grandes expectativas, conseguiu vaga de rep\u00f3rter num pequeno peri\u00f3dico, onde come\u00e7ou a publicar suas amarguras. L\u00facio, editor do jornal, logo percebeu que o rapaz possu\u00eda talento incomum para o drama e, desde ent\u00e3o, lhe abriu meia p\u00e1gina diariamente. Foi um sucesso.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode baixar a guarda. Quanto nos deparamos com problemas que parecem n\u00e3o ter solu\u00e7\u00e3o, a infelicidade quer porque quer se instalar. E Gilson sabia disso melhor do que a maioria ao redor e, dessa forma, procurava ocupar a mente, nem que fosse com um Chicabon de Nelson Rodrigues. Mas o famoso picol\u00e9, quando imaginado por Gilson, n\u00e3o tinha o sabor adocicado, e sim o amargor da completa falta de alento em tempos cada vez mais sombrios na capital.<\/p>\n<p>Era 1973, ano do assassinato da pequena Ana L\u00eddia, que abalou a sociedade brasileira, mas foi incapaz de prender e condenar os verdadeiros culpados, j\u00e1 que os ditos cujos eram filhos de autoridades do mais alto escal\u00e3o do governo federal. Nananinan\u00e3o, meu pir\u00e3o primeiro! Ame-o ou deixe-o!<\/p>\n<p>\u2014 Te amo.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Te amo!<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Num sei. Quando a gente ama, Gilson, precisa ter um motivo?<\/p>\n<p>Envolvido com tantas den\u00fancias an\u00f4nimas de assassinatos, torturas e desaparecimentos, Gilson n\u00e3o soube o que dizer. Aceitou o convite para um cinema por simples falta de for\u00e7as de dizer n\u00e3o.<\/p>\n<p>Lara era desquitada. Praticamente uma contraventora dos bons costumes. Ademais, sem filhos por simples capacidade de ger\u00e1-los. Perfeita, diriam alguns, por conta da impossibilidade de gerar bastardos de algum homem respeit\u00e1vel. Seria, ent\u00e3o, mera v\u00e1lvula de escape para mais um dia estafante de um figur\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi naquele fim de tarde que aconteceu. Tamb\u00e9m n\u00e3o surgiu nos dias seguintes, mesmo ap\u00f3s se amarem. Somente no final de dois ou tr\u00eas meses que algo come\u00e7ou a despertar no cora\u00e7\u00e3o do Gilson.<\/p>\n<p>\u2014 Te amo.<\/p>\n<p>\u2014 Diz isso por educa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Educa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! Por que faria isso?<\/p>\n<p>\u2014 Sei l\u00e1! Voc\u00ea que tem que saber.<\/p>\n<p>\u2014 Te amo! Te amo, Lara!<\/p>\n<p>No final de 1974, resolveram juntar os panos. Os vizinhos cochichavam sobre aquela pouca-vergonha. Houve algu\u00e9m que pensou na possibilidade de acionar as autoridades, mas essa ideia foi deixada de lado. Quem se importaria? Que mantivessem ao menos portas e janelas fechadas.<\/p>\n<p>Chegou a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Liberdade, liberdade! Abaixo a censura!<\/p>\n<p>Gilson e Lara ainda vivem no mesmo apartamento na Asa Norte. Sobreviveram. Uma vez por semana, ele escreve para um jornal virtual. Faz quest\u00e3o de relembrar os horrores da Ditadura Militar. \u00c9 preciso.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n<div id=\"wpdevar_comment_4\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma fase da inf\u00e2ncia em que a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o presente, que se confunde com a realidade. E foi nesse tempo em que Gilson queria ser invis\u00edvel. Quer dizer, n\u00e3o s\u00f3 queria, como acreditava piamente que era. 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