{"id":371911,"date":"2025-11-23T02:00:49","date_gmt":"2025-11-23T05:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371911"},"modified":"2025-11-22T21:20:09","modified_gmt":"2025-11-23T00:20:09","slug":"sagrado-profano-purgatorio-da-beleza-e-do-caos-mas-acima-de-tudo-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sagrado-profano-purgatorio-da-beleza-e-do-caos-mas-acima-de-tudo-rio\/","title":{"rendered":"Sagrado, profano, purgat\u00f3rio da beleza e do caos, mas acima de tudo Rio"},"content":{"rendered":"<p>Eu sou Vila Isabel, sou o Largo do Est\u00e1cio, Leme, Copacabana, Arpoador, Ipanema, Leblon, Campo Grande, Bangu, Realengo e Jacarepagu\u00e1. Sou tamb\u00e9m a Rocinha, o Vidigal, os morros do Fub\u00e1, da Concei\u00e7\u00e3o, do Cantagalo e do Pav\u00e3ozinho. Sem mod\u00e9stia, eu continuo lindo, mas deixei de ser maravilhoso desde que fui abandonado pelos governantes, a maioria carioca de ber\u00e7o. Hoje, vivo solapado pelos pol\u00edticos aventureiros e de ocasi\u00e3o e dividido entre cidad\u00e3os trabalhadores e ordeiros, traficantes desordeiros travestidos de Robin Hood e agentes da lei transformados em bandidos, tamb\u00e9m conhecidos por milicianos. J\u00e1 fiz parte de cart\u00f5es postais exportados interna e externamente.<\/p>\n<p>Reconhecido pela Unesco como Patrim\u00f4nio Cultural da Humanidade, cheguei a hospedar reis, rainhas, pr\u00edncipes, princesas, sheiks, artistas e turistas endinheirados e poderosos de todos os lugares do mundo. Seja pelas praias, pelas paisagens apaixonantes, m\u00fasicas, locais hist\u00f3ricos, gastronomia ou pelo pr\u00f3prio gent\u00edlico carioca, uma coisa \u00e9 fato: ningu\u00e9m duvidava quando me apelidavam carinhosamente de Cidade Maravilhosa. Nos tempos da bossa nova, virei flor, amor, fervor. Minha alma cantava e, de \u00f4nibus, trem ou avi\u00e3o, todos que me visitavam morriam de saudade logo na chegada, pois sabiam que um dia teriam de voltar para suas pra\u00e7as.<\/p>\n<p>Sempre fui 40 graus, mas cheia de encantos mil e cora\u00e7\u00e3o do meu Brasil. Poucos de meus habitantes um dia n\u00e3o incorporaram a tese do maestro Tom Jobim, que, para meu encantamento, dizia \u201ceu n\u00e3o moro no Rio, eu namoro o Rio\u201d. Dos v\u00e1rios poetas que j\u00e1 me homenagearam, um deles (Manoel Bandeira) louvou o Padre, o Filho e o Esp\u00edrito Santo. E disse mais: \u201cLouvado Deus, louvo o santo de quem este Rio \u00e9 filho\u201d. Que maravilha o tempo que me via sem grades, sem picha\u00e7\u00f5es, sem sujeiras, pedintes e tiros nas vias p\u00fablicas. Sei que v\u00e3o me achar metido, mas no meu c\u00e9u era onde o sol parecia brilhar ainda mais. E havia tranquilidade nas ruas, nas pra\u00e7as e nos shoppings. Os morros, hoje comunidades, eram pura festa. Os antigos governadores jamais mandaram matar para ganhar votos.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o viu ou viveu meus tempos de gl\u00f3rias \u2013 os anos 40, 50, 60 e 70 &#8211; nunca entender\u00e1 o motivo pelo qual me chamavam de Cidade Maravilhosa. Acabaram com a geral do Maracan\u00e3. A alegria do futebol n\u00e3o existe mais. Os belos sambas enredo e suas hist\u00f3rias s\u00e3o pe\u00e7as de museu.\u00a0 Os meninos Jovem Guarda da Tijuca (Tim Maia, Erasmo Carlos, Roberto Carlos e Jorge Ben) foram engolidos pela turma mais madura de Ipanema, Leblon e G\u00e1vea. Era a Bossa Nova nascendo como contraponto ao rock de Elvis, Chuck Berry e Chubby Checker, entre outros. Como cidade da paz, jamais permitiria que roqueiros e bossanovistas fossem inimigos. No m\u00e1ximo, advers\u00e1rios musicais. O viol\u00e3o n\u00e3o admitia a guitarra el\u00e9trica, mas todos conviviam sadiamente no Le Bateau, Galeria Alasca, Beco das Garrafas, Castelinho e Arpoador cantando para o povo e endeusando Marta Rocha, \u00c2ngela Maria, Cauby Peixoto, Alain Delon e Brigitte Bardot.<\/p>\n<p>Eu era sagrado, profano, cat\u00f3lico, evang\u00e9lico, umbandista e agn\u00f3stico, mas, acima de tudo, Rio de Janeiro. Tenho saudades do per\u00edodo em que fui capital e vitrine do Brasil. No entanto, a saudade maior \u00e9 da \u00e9poca em que era respeitado. Talvez eu continue maravilhoso, mas meu glamour, minhas cores, meus amores e minhas dores de cotovelo n\u00e3o passam de uma vaga lembran\u00e7a. Meu passado de gl\u00f3rias est\u00e1 dispon\u00edvel somente nas gravuras, nos \u00e1lbuns de figurinhas, nas can\u00e7\u00f5es de Tom, Vin\u00edcius, Gil, Caetano, Bet\u00e2nia e de Gal ou nas galerias de arte sessentistas. Assumo a condi\u00e7\u00e3o de purgat\u00f3rio da beleza e do caos, mas sugiro que meus cr\u00edticos pesquisem o Google e confirmem minha formosura como ber\u00e7o da Princesinha do Mar, do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, do Corcovado, da Portela, Mangueira, Salgueiro e do Flamengo campe\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m abrigo o Fluz\u00e3o, o Botafogo, Vasco, Am\u00e9rica e Bangu. Se hoje tenho a oferecer Anitta, Ludmilla, Lexa, Bochecha, L\u00e9o Jac\u00f3, Pablo Vegetti, Tch\u00ea Tch\u00ea e afins, n\u00e3o esque\u00e7am de que j\u00e1 formei \u00edcones como Zico, Edu, Junior, Roberto Dinamite, Noel Rosa, Martinho da Vila, Jonny Alf, Dick Farney, Nara Le\u00e3o, Carlos Lira e Cassiano, entre tantas outras feras. O que n\u00e3o imaginava \u00e9 que me transformariam na origem do funk, da mil\u00edcia, do Comando Vermelho, das porcarias sem fim e dos jogos de azar. Chorei (e n\u00e3o foi pouco) quando descobri tardiamente que a maioria dos morros que Deus criou para que eu mantivesse o verde sempre verde virou comunidades. Nada contra, porque \u00e9 nelas que vivem os trabalhadores que impulsionam a economia local. Todavia, por causa da aus\u00eancia absoluta do Estado, elas hoje d\u00e3o abrigo ao que h\u00e1 de pior na sociedade: a bandidagem organizada e, \u00e0s vezes, com mandato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu sou Vila Isabel, sou o Largo do Est\u00e1cio, Leme, Copacabana, Arpoador, Ipanema, Leblon, Campo Grande, Bangu, Realengo e Jacarepagu\u00e1. Sou tamb\u00e9m a Rocinha, o Vidigal, os morros do Fub\u00e1, da Concei\u00e7\u00e3o, do Cantagalo e do Pav\u00e3ozinho. 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